A Comunidade
Entre plantações exuberantes e moradores silenciosos, uma pequena comunidade guarda um segredo macabro que floresce junto com cada safra.
7/24/20264 min read

Mendoza, Argentina.
O desafio era fazer as plantas crescerem no deserto. Difícil, impossível jamais. Aquelas pessoas falavam inglês, mas estavam isoladas ali há tanto tempo que sua língua estava mais para um dialeto, dificilmente compreensível entre as demais pessoas que compartilham a mesma língua materna.
Vieram dos Estados Unidos, há muito, muito tempo. Não eles, mas seus bisavôs ou tataravós. Eram apenas pessoas cansadas de pagar impostos para o governo, de levar uma vida dos sonhos que mais parecia um pesadelo, de serem vitimados pela violência, depressão e tantos males da vida moderna. Eram pessoas participantes de uma congregação comum. Cansado de secar as lágrimas e o pranto dos seus fiéis que apesar de adorarem tanto a Deus sofriam muito em vida, um belo dia, o pastor Seth mudou o sermão de última hora no púlpito.
Ele convidou a todos os irmãos para pararem de sofrer, para receberem nessa vida aquilo que o seu Deus prometia para a próxima. Disse que iria embora com a sua família e que construiria um santuário, onde o pecado e as dores do mundo ficariam do lado de fora.
Eles providenciaram tudo apressadamente, queriam logo a vida que o pastor prometia. Venderam suas casas, venderam todos os seus bens e foram embora. Os jornais até anunciaram o desaparecimento de toda uma congregação, mas, com o tempo, notícias mais rentáveis apareceram e aquela acabou no esquecimento.
Foi em para Mendoza, na Argentina, que o pastor os carregou. Disse que sonhou com aquele lugar. O solo desértico, o clima quente e seco, as montanhas com picos nevados logo adiante.
Juntaram tudo o que tinham e fundaram A comunidade. De fora, não era mais do que cercas delimitando uma fazenda com placas que anunciavam propriedade particular. Ninguém nunca se interessou por aquilo. Na parte de dentro, a vida estava parada no tempo. Mulheres usavam saiões, homens suspensórios. Não tinham eletricidade e nem notícias do mundo exterior, que para eles, nem existia.
Ninguém estava autorizado a entrar ou sair da comunidade. Tudo o que precisavam para viver estava bem ali. Não precisam de dinheiro, muito menos de coisas que existem nas cidades, os mais jovens nem sabiam o que era isso.
Eles construíram belas casas, possuíam fartura em tudo. A comunidade contava com escola e hospital. Produziam ali tudo que precisavam para viver, por isso cada um tinha seu trabalho fixo e a obrigação de dar conta dele, pelo bem do próximo. Ninguém reclamava.
O belo vilarejo era construído ao redor de um pergolado majestoso e se encontrava completamente escondido entre os cultivos das mais variadas plantas, tudo usado para subsistência das mais de mil pessoas que viviam felizes ali.
Os aquedutos garantiam frutos em todos os cultivos. O próprio pastor Seth trabalhou na construção deles. Foi por acaso que um dos homens da Comunidade sofreu um acidente e perdeu a perna esmagada contra as pedras que eram trabalhadas para conduzir a água. O sangue jorrou livre e regou toda a plantação. Nunca, nunca se colheu tanto.
O pastor entendeu que aquela terra gostava de ser regada com sangue. Junto com os demais fundadores da Comunidade criou o ritual, como não podia precisar a data das colheitas por serem de tantos cultivos que aconteciam praticamente o ano todo, o pastor definiu que o ritual aconteceria sempre no equinócio de outono.
O ano era 2021, o pastor Seth e os fundadores já estavam sepultados à beira do desfiladeiro, com os seus olhos sempre vigilantes para a Comunidade, mas, seus descentes continuavam com o ritual, em nome da boa colheita.
Iniciava sempre com uma festa no dia 20 de março. Todos os homens e mulheres maiores de 20 anos deveriam se reunir em um grande pavilhão festivo. Aos adolescentes cabia cuidarem das crianças.
Eles comiam, bebiam e dançavam a noite inteira. Então, quando o primeiro raio de sol surgia no horizonte, todos deviam procurar embaixo de suas cadeiras. A pessoa que encontrasse um pequeno espantalho de palhas era a escolhida. Todas as demais a cumprimentavam, bebiam em sua homenagem. No dia seguinte, o escolhido teria todos os seus desejos atendidos. Entregariam em suas mãos toda a comida que desejasse e fariam tudo que ele pedisse. Houve registros de alguns pedidos estranhos, como o de uma mulher que queria fazer sexo com dois vizinhos ao mesmo tempo. Todos eles eram atendidos sem julgamento algum, o escolhido era como um rei naquele dia. Às 20 horas ele se despedia de sua família e encaminhava-se até o pergolado, seguido de uma multidão que cantava louvores e fazia preces aos céus.
Os mais velhos ofereciam bebidas fortes ao escolhido e ele bebia até perder os sentidos. Enquanto o sujeito ficava completamente embriagado, o espantalho do ano anterior era removido do mastro, que ficava exposto acima do pergolado, de onde enxergava toda a plantação. O antigo guardião era sepultado com todos os cuidados no dia seguinte, no cemitério do desfiladeiro, onde jazia todos que fizeram parte da história da Comunidade.
Agora, teriam um novo protetor por mais um ano. Drogado, o escolhido era amarrado ao mastro e fixado acima do pergolado. Uma escotilha era aberta no chão da edificação e através de lanças, cortes eram feitos nas coxas do escolhido, que sangrava até a morte e o sangue já era colhido diretamente para o aqueduto.
Era uma morte rápida e indolor. Nos seus últimos sopros de vida, o novo espantalho devia pronunciar algumas palavras olhando para o céu. Assim, encerrava-se a cerimônia.
— Permita-me estar nas mesas dessas pessoas no próximo ano, oh pai!
A multidão regressava às suas casas lentamente.
— Ei de ser eu! No próximo ano quero muito que seja minha vez! — confidenciou uma garota de vinte anos a uma amiga, que fez figa pelas suas costas, torcendo para que a escolhida viesse a ser ela própria.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
Contato
giselewommer@darkgi.com
WhatsApp (51) 9543-3136
Para direitos de reprodução, tradução e adaptações cinematográficas.
© 2017 Gisele Wommer - Histórias sombrias.
