A evolução da espécie
Criada em uma fazenda cercada por vagalumes, Harper jamais esqueceu uma tragédia da infância. Anos depois, sua estranha obsessão volta a iluminar antigas sombras.
7/24/20265 min read

Os vagalumes sempre encantaram as crianças, afinal, quem não acha lindo um bicho que pisca, que brilha no escuro? Parece mais um brinquedo.
Harper cresceu observando vagalumes em uma fazenda no interior do Rio Grande do Sul. Teve sua primeira decepção com eles aos oito anos de idade, quando descobriu que se enchesse um vidro não poderia fazer uma lanterna, pois eles morriam rapidamente e deixavam de brilhar.
A segunda decepção veio anos mais tarde, quando resolveu estudá-los e descobriu que quem pisca são os machos e aquela luz que ela sempre admirou na infância não é mais do que um sinal de acasalamento. Antes mesmo do primeiro namorado, Harper já entendia que tudo na vida se resumia a uma única coisa: sexo.
Logo que atingiu a maioridade precisou mudar-se para uma cidade grande. A fazenda onde cresceu foi vendida. As coisas nunca foram as mesmas por lá desde que o filho mais moço do dono foi encontrado morto, degolado à sombra de uma paineira.
Sua mãe sempre foi empregada da família e os viu definhar um a um depois que aquele jovem fora brutalmente assassinado e nunca se encontrou um culpado. O pai morrera em uma briga generalizada em um bar. A mãe encontrara conforto na cachaça e nunca tratou a cirrose que não custou a chegar. Os dois filhos mais velhos venderam o que ainda restava e sumiram no mundo.
Ambas estavam contrariadas em morar na cidade. Harper gostava da liberdade de andar pelo campo e das noites no brejinho ao fundo da casa. A mãe não sabia viver em outro lugar, por isso morreu, um ano depois da mudança. A Harper, que nunca teve pai, só restou arrumar um emprego qualquer e dividir um apartamento com Ana, ex-colega de escola.
Ana bem que tentava animar a amiga, mas Harper era fechada, calada e pouco se misturava. Uma única noite aceitou um convite de Ana para ir a um bar.
—Está gostando?
— Parece o brejinho do fundo da minha casa.
— Você é estranha, por isso está sempre sozinha.
Harper riu do comentário. Quase ninguém sabia que no mundo dos vagalumes a maioria das fêmeas não voa. Os machos sim, estes voam e piscam, enquanto as fêmeas observam e escolhem aqueles que correspondem a sua espécie, quando estão prontas elas piscam uma única vez e então os machos se aproximam e acasalam. Harper olhava ao seu redor no bar, todas as mulheres estavam escoradas no balcão, bebendo. Os homens jogavam sinuca e desfilavam para lá e para cá. A moça ao lado deu um único sorriso para um rapaz e ele veio pagar uma bebida.
Depois daquela noite, Harper nunca mais foi convidada para sair com Ana e começou a fazer horas extras no trabalho de noite. Chegou no apartamento, depois de um dia igual, regressando para sua vida onde os dias eram sempre iguais. Quando abriu a porta do quarto levou um susto. Em sua cama dormia um homem, completamente nu. Ficou escorada na parede, observando aquele corpo, na penumbra. As pernas grossas, as costas bem torneadas, os braços musculosos.
Lembrou-se que Ana havia comentado que seu primo a visitaria, ele devia ter confundido o quarto. Saiu de fininho e deitou-se no quarto de hóspedes. Inutilmente, tentou dormir. Pensou no corpo branco que repousava na sua cama, um contraste com seu lençol lavanda. E se lhe ela desse um sinal? Negou para si mesma e pegou no sono.
Na manhã seguinte seu quarto estava vazio. Na cozinha Ana e Renato tomavam café da manhã. Ana riu assim que Harper entrou e providenciou uma apresentação.
— Oi, desculpe por ter dormido na sua cama.
Ele sorriu e depois piscou. Harper não teve atitude nenhuma. Estava cedo para responder o sinal, aquele ali talvez, não fosse exatamente da sua espécie. Era preciso que ele piscasse mais.
Naquela mesma noite após o trabalho, Harper fechou os olhos e respirou fundo. Abriu o bilhete e releu.
“Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo”.
Renato havia escrito versos de Carlos Drummond de Andrade? Analisou o bilhete e notou que no verso dizia: Piquenique no parque, quinta-feira, 18 horas.
Mas ele morava na cidade vizinha. A cidade que Harper não conhecia. Colocou o bilhete na gaveta e deitou-se na cama que ele tinha usado na noite anterior. Tinha o cheiro de Renato, um cheiro balsâmico e viril, mais um sinal deixado por um macho.
Na manhã seguinte, Ana a encorajou a ir ao encontro. Contou que Renato não parou de falar nela o dia todo e pediu a amiga que desse uma chance ao seu coração e ao dele. Harper respondeu que não iria.
Na sala de telemarketing começou a rotina que odiava. Atender telefonemas com milhares de reclamações, empurrar planos telefônicos a pessoas que não queriam conversar ou tentar convencê-las a mudar de operadora. Amarrou os cabelos em um coque e colocou o telefone auricular.
No meio da tarde uma ligação inesperada lhe deixou perplexa.
— Harper?
— Quem é?
— Oi docinho. Até que enfim caí na sua linha, estou tentando há horas.
Docinho? Ela ficou em silêncio.
— Amanhã, está bem? Te espero.
— Renato?
— Acredita em amor à primeira vista?
— Nem se quer acredito em amor.
— Eu vou te fazer acreditar. Só preciso que me dê uma chance.
A cidade vizinha era linda, pitoresca e todos os lugares onde Harper passou mereciam um cartão postal. Não foi difícil encontrar o parque. Renato a esperava em um banco na entrada e deu um grande sorriso quando a viu. Caminhou até Harper, enlaçou a sua cintura e não teve dúvidas, lhe beijou os lábios de forma demorada e sensual. Harper tremeu na base. Aquele beijo lento havia percorrido um caminho rápido em seu corpo e instalado uma sensação inesperada no baixo ventre.
Quando acabaram o beijo, ambos estavam um tanto descompensados. Ele tinha uma cesta de piquenique. Conduziu Harper pela mão até a beira de um lago. Abriu a toalha xadrez de vermelho e ambos se sentaram entre roseiras floridas. Tirou de dentro queijos, chocolates e uma garrafa de vinho.
Conversaram por duas horas, até que só tinham a iluminação dos postes. Em seguida os beijos começaram a ficar mais quentes, com gosto de vinho. Harper sentia arrepios, sua alma estava em chamas.
— Você é uma mulher linda, estou tão feliz por estar aqui comigo. Eu estou apaixonado por você, eu sei… vai achar que é loucura porque mal nos conhecemos, mas eu tenho a sensação de que já te conheço de muito tempo.
Ele colocou uma rosa branca atrás de sua orelha. Harper deu um pequeno sorriso, um sinal. Ele continuou, como ela já esperava que fizesse.
—Quer conhecer o meu apartamento?
Quando chegaram, beijaram-se loucamente. Ela tirou sua camiseta com pressa, estava decidida a curtir o momento.
Ele acordou algemado à cama, tentou se soltar, mas era inútil.
— O mesmo papinho de sempre. Piquenique, florzinha atrás da orelha. Não me surpreendi, Renato.
Ele tentou falar, mas Harper nem ouviu.
— Eu fiz a minha lição de casa, falei com as suas últimas três candidatas à namorada, porque namoradas mesmo, você nunca teve. Passa o mesmo xavequinho em todas, até levar para cama. Eu facilitei para você, não podia esperar.
Renato arregalou os olhos quando Harper tirou uma faca da bolsa. Ela se aproximou e lhe fez um único corte na jugular. Juntou um pouco do sangue que escorria em um copinho, não mais do que um pouco.
Esperou Renato parar de se sacudir na cama, não demorou. Ela tinha nojo do sangue, mas tomou um gole. Colocou o copo em um saco plástico na bolsa. As fêmeas vagalume exterminam as espécies imperfeitas e se banham em seus restos para afastar os predadores. Tinha funcionado com Harper, desde que fez o mesmo ao filho do fazendeiro e devia funcionar por mais uns anos agora.
Voltaria para o trabalho, onde uma amiga segurou aquelas horas, para todos os efeitos nunca tinha saído. Seria um álibi ruim, mas o risco valia à pena.
Darwin era quem discorria sobre a evolução da espécie, Harper só estava ajudando.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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