A menina fantasma da Casa de Cultura
Funcionários e visitantes relatam encontros com uma misteriosa menina de tope na cabeça que vaga pelos corredores da Casa de Cultura de Cachoeira do Sul, desafiando qualquer explicação.
8/1/20263 min read

Entende-se por fantasma a manifestação ou espírito de uma pessoa falecida que aparece aos vivos, muitas vezes associado a um lugar específico ou a um evento significativo na vida daquele que já não vive mais. As descrições de fantasmas variam bastante, podendo ser desde uma presença etérea ou uma figura humana translúcida até uma sombra ou energia indefinida. E ainda existem as manifestações: sons inexplicáveis, objetos que se movem e cheiros sem origem totalmente definida.
Na cultura popular e no folclore, os fantasmas são frequentemente retratados como seres que têm algum tipo de pendência ou ligação emocional com o mundo dos vivos, como um desejo não realizado ou uma morte trágica, e, por isso, permanecem presos entre os dois mundos. A crença em fantasmas existe em muitas culturas ao redor do mundo e é um tema recorrente em histórias de terror, literatura, filmes e até em conversas informais entre amigos ou familiares.
Prédios antigos têm suas peculiaridades, em suas longas histórias dificilmente não se encontre relatos de assombrações. Estas edificações históricas, construídas em outras eras, transpassaram as épocas, estão ali, há mais tempo do que qualquer ser humano será capaz de viver, por isso, além de testemunharem a história, guardam energias, vibrações de um tempo que não voltará.
Bibliotecas também guardam seus mitos sobrenaturais, que não são restritos às páginas dos livros. Aqueles volumes que pertenceram a alguém que os amou, que os cuidou e que já não está mais entre nós, pode, muitas vezes, nos levar a crer que o dono, eventualmente aparece para ver se suas relíquias continuam sendo bem cuidadas. Não julgo, tenho o plano de fazer o mesmo quando não habitar mais o mundo dos vivos.
Se prédios históricos são os favoritos dos fantasmas e bibliotecas também, imagine o que acontece quando uma biblioteca funciona em um prédio histórico? O caso exato da nossa querida Casa de Cultura Paulo Salzano Vieira da Cunha, em Cachoeira do Sul.
Basta perguntar aos trabalhadores antigos do local sobre as possíveis histórias de assombração. Vão falar nos pianos que se tocam sozinhos, nos livros que amanhecem fora do lugar, nos barulhos estranhos e até nos possíveis vultos. Mas a história mais impressionante é a da menina.
Existem relatos de que, com certa frequência, uma menina é avistada pelos corredores da biblioteca, entre os livros ou nas escadas que dão acesso ao porão. Dizem que é bela, parece tranquila e na cabeça usa um grande laço decorativo. Não é uma criança pequena, mas uma menina maior, já beirando a adolescência.
As melhores histórias de terror são aquelas com fundo de verdade, quando fatos reais dão veracidade ao sobrenatural. Há um fato real que ronda a aparição desta menina. O palacete da Rua Sete de Setembro, com teto móvel, foi construído para ser a residência do ilustre Dr. Balthazar de Bem. Jornais guardados no Arquivo Histórico dão conta de que a casa ficou pronta em 1917. A família mudou-se para o local, mas não ficou lá por muito tempo, vindo a mudar-se para uma casa na Rua Saldanha Marinho em 1924, mesmo ano em que uma das filhas do Dr. Balthazar faleceu, aos 12 anos.
Do que a menina faleceu? Não há registros. Onde, exatamente? Tampouco. Se teria algo a ver com a mudança da família, desconfia-se. Poderia ser a tristeza de viver sobre o mesmo teto onde se perdeu um ente querido com tão pouca idade ou, quem sabe, se naquela época mesmo, a menina já teria se recusado a sair da casa, assombrando a própria família?
Existem teorias, desconfianças. Há quem diga que uma queda nas escadas do porão foi a responsável por ceifar a vida da jovem, mas também quem acredite que a moléstia bateu à casa daquela família. Se for isto, seria a maior de todas as ironias, o pai da menina, acostumado a salvar a vida de tantas pessoas, teria perdido para a morte a própria filha. Médico ou não, ninguém tem gerência sobre a vida ou a morte, mas também não é algo do qual alguém se recupere facilmente.
As tristezas para aquela família não se terminariam com a perda da filha e a mudança, pois, no mesmo ano, o próprio Balthazar foi morto em uma emboscada histórica. À sua pobre Marina, viúva e mãe de uma filha, restou mudar de cidade, recomeçar a vida que jamais seria completa. Passou a residir em Porto Alegre com sua outra filha.
A família é uma das mais importantes na história da nossa cidade. Legaram nomes de Praças, Escolas, Bairros. Seus feitos jamais serão apagados e me dói saber que sua história é tão pouco conhecida entre as novas gerações.
A casa imponente onde morou Balthazar foi tão bem construída, que se mantêm em pé há tantos anos, mesmo que o investimento para cuidar dela seja insuficiente ou inexistente. Preservar o patrimônio é cuidar da história, da memória. Acreditem ou não, gostem ou não, as lendas, os mitos e até os fantasmas fazem parte da história de uma cidade. E Cachoeira, tão antiga, também preserva os seus.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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