A última badalada

Em um remoto vilarejo argentino, um sino anuncia tragédias há décadas. Determinado a romper a tradição, um jovem padre enfrenta a superstição que governa a vida dos moradores.

8/2/20267 min read

O padre Tomás Figueroa não estocou a barriga de seu cavalo uma única vez, em toda aquela longa viagem pela Patagônia. Foi ordenado, com certa pressa, para assumir a comunidade de San Miguel de las Campanas, mas a pressa era do bispo, não dele. “Tudo no tempo de Deus”, disse antes de sair e levou a sério. Partiu sem se despedir de ninguém, e sob o olhar desconfiado de boa parte de seus colegas seminaristas.

O próprio bispo lhe convocou com palavras que mais pareciam uma intimação: “Pense nos seus votos. Atender o chamado onde quer que um filho de Deus esteja necessitado”.

O bispo achou que ele reclamaria, mas o jovem padre não o fez. Tomás não iria se recusar, sabia que já estava há tempo demais no seminário após os votos, mas sua ordem de mudança para aquele vilarejo parecia mais um castigo. Esperava ir para uma comunidade mais cosmopolitana e não ficar isolado no fim do mundo. Um padre sozinho carregava a fé de um vilarejo nas costas e Tomás não se sentia preparado.

Viajou devagar, no passo do cavalo e quando apeava de noite, olhava para aquele belíssimo céu estrelado do Sul da América e tinha a certeza de que havia alguém, quem havia assinado aquela obra de arte, morando lá em cima. Rezava e pedia ajuda.

O pároco da comunidade, padre José, viveu e morreu em San Miguel, mas Tomás não queria ser como ele, portanto solicitou educadamente ao bispo que lhe enviasse a outro lugar, dentro de alguns anos. Apesar da resposta afirmativa, não confiou no olhar frio do eclesiástico.

Ele já tinha ouvido falar, afinal, os seminaristas vindos de todas as partes da Argentina comentavam sobre todos os assuntos possíveis e improváveis. Não se sabia ao certo se o nome deu a fama ao local ou se o local que acabou sendo batizado por causa das circunstâncias. Ele não queria ficar por tempo o bastante para descobrir.

Ao longe avistou o campanário, o único torreão de pedras, tingido pelo branco da neve que recentemente caíra ali. Tomás nunca gostou de frio, mas quanto mais se aproximava da vila mais a achava bonitinha. Era organizada, suas ruazinhas bem desenhadas, muitas árvores e até flores. De longe, San Miguel de las Campanas parecia um belo lugar. Só de longe.

Quando chegou, dias depois, foi muito bem tratado. Exceto pelas beatas que não confiariam as filhas jovens a um padre recém ordenado e tão belo. Tomás não era desse tipo, mas sabia que não poderia convencer ninguém com palavras, talvez, com atitudes, mas não pretendia permanecer ali por tempo suficiente para provar.

As acomodações eram melhores do que ele estava esperando, até melhores do que no seminário. Meio longe do vilarejo, Tomás estava mais perto do cemitério do que das pessoas vivas e nem se incomodava em dividir a maior parte do tempo com os mortos. Pelo menos eles eram silenciosos.

Lhe deixaram muita comida e da boa. Muito vinho Malbec, seu favorito, e os aposentos foram limpos e perfumados. Tomás se sentiu bem na igreja que agora era sua missão cuidar. Ele retribuiria o carinho da recepção, com a fé e a dedicação profunda, enquanto estivesse naquele lugar. Esperava que não por muito tempo, mas ainda assim, faria o seu melhor.

Em sua primeira manhã, saiu para apresentar-se às famílias que ainda não conhecera e ficou um bom tempo olhando para o sino. Aquele sino.

E este foi o assunto quando andou pelo vilarejo. Em todas as casas: o sino, a badalada noturna e a morte do Padre José.

— O homem viveu 87 anos, já estava na hora de habitar o reino dos céus — repetiu Tomás nas primeiras cinco casas, antes de desistir e só escutar os clamores dos moradores.

Parecia uma espécie de aversão que as pessoas tinham com aquele sino. O jovem padre ouviu isso muitas vezes. Nas missas, nos batizados, nos casamentos e até mesmo no confessionário. Via os olhos dos fiéis espiando o campanário e desviando o olhar sempre que chegavam na igreja. Soube que deveria fazer algo em relação àquela situação medonha.

Afinal, a única Casa de Deus em centenas de quilômetros, o único receptáculo de fé, não poderia ser local de medo e superstições. Os fiéis deveriam se sentir seguros ali.

Certa tarde, colocou uma escada no campanário e subiu. Não havia nada. Nenhum mecanismo, nenhuma corda, nenhuma marca, exceto um ninho de alguma ave de grande porte, vazio em um canto. O padre Tomás entendeu que não teria controle sobre as badaladas do sino e talvez este fato fosse o que mais preocupasse os moradores: um sino sobrenatural que se tocava sozinho e anunciava a morte de alguém. Que besteira!

Na missa de domingo o padre deu um sermão em todos sobre acreditar em crendices e trazer superstições para a Casa de Deus. E repetiu o sermão, cada vez com mais vigor, até que as pessoas começaram a evitar aquele assunto na sua presença.

Padre Tomás era um homem de fé. Fé em Deus, em Jesus, na Santa Igreja Católica e sua obra. E em nada mais.

Durante alguns meses, uma satisfatória tranquilidade pairou sobre aquele vilarejo. Tomás estava até gostando do local e das pessoas, bem como de seu novo posto, até que o sino deu uma única badalada em uma noite qualquer.

Por dias os fiéis sumiram da igreja, as pessoas estavam reclusas às próprias casas, não aparecia ninguém nem para se confessar, até que no sétimo dia, o padre celebrava o ritual das exéquias.

Dali um mês, o sino soou de madrugada. Em sete dias mais um funeral.

E por mais que Tomás dissesse que uma morte por afogamento não poderia ser atribuída ao badalar de um sino, não havia quem pudesse convencer aquelas pessoas de que aquilo não passava de coincidência.

Durante um jantar com uma família o padre perguntou por que não iam morar em outro lugar se achavam que o sino viria buscar um de cada vez.

— A madrinha da prima da minha cunhada foi embora anos atrás e quando o sino soou aqui, ela morreu sete dias depois, lá no Uruguai. Não há como escapar, padre Tomás.

O padre achava que aquilo mais parecia uma histeria coletiva, havia lido sobre isso em um livro uma vez, mas não lembrava direito como se diagnosticava. Foi então que teve uma ideia.

No dia seguinte enviou uma carta a um antigo colega de escola, que havia se mudado para Buenos Aires para estudar medicina.

Três meses e cinco funerais depois, Armando chegou a San Miguel de las Campanas. O padre Tomás apresentou-o como um médico, velho amigo seu, que ficaria um tempo no vilarejo e ajudaria com a saúde da população.

Armando foi mais bem-vindo do que o próprio padre. A maioria daquela gente ali nunca nem tinha visto um médico de perto. Arrumaram-lhe um quarto em uma casa de família, trataram de lhe empanturrar de comida e não saíam de seu consultório improvisado um minuto sequer, fazendo-lhes perguntas e exigindo exames para todas as dores.

— É este o sino? — perguntou Armando a Tomás, depois da missa de domingo.

— Sim. Tem um ninho de corvos lá em cima. Creio que quando os pássaros entram e saem acabam batendo no sino e o fazendo badalar. Mas eles jamais acreditariam em mim, estão tão cegos com esta ideia de maldição que não consigo dissuadi-los.

— Sabes que eles não irão aprovar isto que queres fazer, não é?

Tomás assentiu e depois respondeu:

— É preciso.

— Bem, — disse Armando — espero que eles não acabem nos linchando.

Quando ia completar duas semanas que Armando havia chegado ao vilarejo, o sino soou de noite. Em alto e bom som, o próprio Armando acordou assustado.

Sete dias depois, estava ao lado de um corpo, na sala da sacristia da igreja.

Armando olhou para Tomás, que assentiu.

O padre precisou sair para vomitar duas vezes até o médico terminar a autópsia. No fim, estavam os dois e a sala, mais sujos do que o açougue de qualquer açougueiro inexperiente.

— Me diga que sabe do ela morreu, Armando!

— Coração. Com certeza sofria de alguma condição cardíaca completamente anormal.

— Então não tinha nada a ver com o sino.

— Na verdade, tem sim.

— Até você, Armando?

— Eu vi o comportamento deles, Tomás. Quando o sino tocou todo mundo mudou drasticamente. Muita gente não conseguiu dormir, nem se alimentou bem. É tanto medo que eles têm, que alguém acaba morrendo. Li num livro, não muito conceituado, se chama efeito nocebo. Quando alguém acredita que está tão mal, acaba ficando mal mesmo. O placebo é o contrário, faz bem mesmo sem ser remédio... mas isto é mais estudado nos manicômios, creio que eu não sou a pessoa mais indicada para ajudar aqui.

No dia seguinte houve uma reunião na igreja, com todos os moradores do povoado. Padre Tomás tentou explicar que a senhora falecida tinha um problema cardíaco. Houve muita discussão quando os moradores perceberam que o médico havia aberto o corpo da moradora. E a profecia de linchamento de Armando só não se concretizou porque estavam dentro da igreja.

Alguns moradores ameaçaram denunciar Tomás para a diocese, outros bradaram que o médico não estava autorizado a profanar seus corpos e nem dos seus familiares em caso de falecimento. E havia quem pedisse que Armando deixasse San Miguel antes de anoitecer.

— Ele ficará por uma semana — falou Padre Tomás, calmo e taxativo.

Todos ficaram olhando quando Tomás saiu apressado pelo corredor de igreja e arregalaram os olhos quando o sino começou a tocar.

Ao saírem para a rua, encontraram padre Tomás em uma escada, escorada no campanário, batendo sem parar no sino com uma marreta. Apesar de pedirem para o padre não fazer aquilo, Tomás só desceu depois que deu a 52ª badalada.

— Pronto — anunciou o padre suado, após colocar os pés no chão — foram cinquenta e duas badaladas, exatamente o número de pessoas que vivem aqui. Se a superstição de vocês estiver correta, em sete dias estaremos todos nós mortos. Armando fica para atender alguém que ache que vai morrer.

Armando foi embora após dez dias, sem atender ninguém, pois não houve morte alguma na comunidade. Com o tempo, a superstição foi perdendo força e foi sendo esquecida até virar somente uma lenda, depois somente um rumor e sumiu completamente, pois as mortes aconteciam de forma natural e não mais estavam ligadas ao sino.

Alguns anos depois Tomás foi chamado de volta à civilização, mas resolveu ficar, para a surpresa do bispo.

Cinquenta e dois anos depois de desafiar o sino, Padre Tomás fechou os olhos pela última vez. Naquela mesma madrugada, uma única badalada rompeu o silêncio de San Miguel de las Campanas.

Desde então, ninguém mais soube dizer se o padre havia vencido a superstição... ou se apenas adiara seu encontro com ela.