Cinzas de Verão
Em uma cidade perfeita cercada por pinheiros, estranhos sinais anunciam uma ameaça invisível. Enquanto o medo cresce, uma família descobre que nem todo paraíso permanece intocado para sempre.
7/28/202610 min read

Colina do Sol era uma espécie de paraíso na Terra. A pequena cidade, rodeada de uma imensa floresta de pinheiros, parecia estar em constante harmonia com a natureza.
Diziam que há mais de cinquenta anos, um visionário ambientalista planejou aquele lugar todinho. A cidadezinha foi construída longe das margens das rodovias, escondida pela densa vegetação. Não chamava atenção alguma de quem passava na estrada e de lá não se ouvia barulho de tráfego e nem se sentia o cheiro da poluição veicular.
Em Colina do Sol, o meio ambiente nunca foi preterido ao progresso. O concreto não disputava espaço com o verde. E não parecia que se precisava construir nada além do que já existia.
A cidade era pequena, às vezes até parecia uma vila. Menos de 3 mil pessoas viviam ali. Todos se conheciam, todos tinham boa forma de sustento e nenhum tipo de vontade de ir morar nos grandes centros. A vida tranquila lhes bastava. E, sendo assim, a violência nunca chegava até seus quintais.
Colina do Sol.
O paraíso.
Uma praça central bem florida com um belíssimo coreto. Um hospital bem equipado para o tamanho da cidade e uma única farmácia ao lado. Uma prefeitura com pouquíssimos servidores. Uma única escola. Duas igrejas. Algumas lojinhas e supermercados discretos. Um posto policial onde um guarda tirava serviço de cada vez. Um restaurante. Uma sorveteria. Não havia bar, nem bordel.
A cidade era limpa e organizada. Todo mundo seguia um rígido código de posturas que incluía reciclar seu próprio lixo e manter a frente da casa limpa, apesar de este código nem existir formalmente.
Colina do Sol.
Duas avenidas perpendiculares. Três ruas paralelas. Algumas casas no meio rural. Sem ocorrências, sem brigas, sem sequestros, sem assassinatos, sem música alta. Um lugar de sossego e silêncio.
Não há imóveis à venda em Colina do Sol.
Val era dona de casa. O marido Sidiney ganhava bem com a construção civil, em uma cidade não muito longe dali. Como boa parte dos moradores de Colina, a casa da família não tinha cerca e dava fundos para a floresta. Os filhos Júnior e Aline, agora adolescentes, se criaram brincando ali. A filha caçula, Ana, ainda dividia o quintal com Marie, sua vizinha e melhor amiga desde a maternidade.
Sarah, mãe de Marie, tinha um comércio no pequeno centro e não raro, deixava a filha para Val cuidar. E Val, por sua vez, deixava Ana no comércio de Sarah quando precisava ir à cidade vizinha. Era de praxe as pessoas por ali se ajudarem muito, tinham confiança umas nas outras.
Bicicletas, patins, skates e até carrinhos de lomba eram seguros, pois o lento movimento nas ruas bem pavimentadas não trazia perigo a ninguém. Crianças ainda cresciam brincando nas ruas, longe de eletrônicos, nenhuma mãe gritava para correrem para casa ao anoitecer, pois à noite a cidade continuava sendo segura.
A maior parte da alimentação local era produzida em casa, evitando a industrialização. Talvez por isso a expectativa de vida de Colina de Sol estava entre as maiores do país.
Não há imóveis à venda em Colina do Sol.
Val estendia roupas no varal, enquanto Ana e Marie brincavam de casinha no quintal. O cão da família latia desesperadamente para a floresta. Val adentrou a mata seguida do cão furioso, mas nada viu. Aparição de animais perigosos não eram comuns ali, mas, como viviam no local da natureza, achou por bem permanecer no quintal e observar as meninas. Passou uma tarde sem incidentes, apesar de o latido frenético do cachorro a deixar com dor de cabeça.
Mais tarde, Sarah buscou Marie. Sidiney chegou do trabalho. Júnior e Aline voltaram da rua. Val serviu almôndegas no jantar, a carne era comprada no açougue Carnes de Colina, com produção local, fresca e não embalada e os vegetais que acompanhavam o prato principal tinham saído de sua própria horta.
Sidiney levou Bob para passear, pois achou o cão muito estressado. Mas a estratégia pouco funcionou, pois Bob latiu à noite toda, fazendo com que Sidiney se levantasse duas vezes durante a madrugada.
Na manhã seguinte, na hora do café, Sidiney comentou que havia dormido sua noite mais difícil desde o nascimento de Ana, enquanto isso, Bob estava esgotado, jogado ao chão, no quintal.
— Não sei — disse Val — ele não age assim, ele quer dizer alguma coisa.
Sidiney riu.
— Tá velho e caduco, isso sim — levantou-se e beijou Val, quando saiu para a frente da casa em direção ao carro, a cor do veículo não era mais a mesma.
Sidiney passou a mão na lataria, teria que utilizar a mangueira antes de sair de casa, pois mal via onde estavam os vidros.
— Que isso? — perguntou Val.
— Cinzas — Sidiney respondeu olhando para a própria mão.
Ao sair para pegar a mangueira e ajudar o marido, Val percebeu que a grama não estava tão verde quanto no dia anterior. A areia onde as crianças brincavam estava de outra cor, as árvores nos fundos da casa e até o telhado estavam opacos. Durante a noite, uma fina camada de cinzas encobriu toda a vizinhança.
— Val, viu nas notícias se falava em incêndio na floresta?
— O de sempre no verão, poucos focos, longe daqui. Mas a seca está grande este ano, Sarah andou na beira do Rio Guaracy semana passada e disse que nunca viu tão pouca água.
— Vou ligar para os bombeiros voluntários assim que chegar ao trabalho e te aviso se houver qualquer notícia, mas o vento deve ter carregado estas cinzas de muito longe. Dei uma volta pela mata, não há nada incomum por aqui nas proximidades.
Mas nem mesmo Sidiney acreditou nas próprias palavras quando passou pelo centrinho de Colina. Até o gazebo da praça estava de outra cor, a camada de cinza que caiu sobre a cidade não era tão fininha conforme aparentava.
Mais tarde, depois de falar com os bombeiros voluntários, Sidiney ligou para Val e disse que ela poderia ficar tranquila, pois havia um incêndio na mata, mas muito longe de Colina e estava sob controle.
Val não se tranquilizou. Morava ali desde criança, em todos os verões havia incêndio nas matas, mas nunca caiu cinzas por toda a cidade. Logo depois da ligação de Sidiney, uma grande revoada de pássaros passou apressada por cima de sua casa, indo para longe da floresta, claramente, fugindo de algo. Val pensou se não deveriam fazer o mesmo.
Naquele dia, as cinzas caíram como neve escura, aumentando a camada que havia sobre a cidade. Bob latiu para a floresta o tempo todo, de forma que Val ficou com dor de cabeça. Pela primeira vez em anos precisou de um remédio.
Não se encorajou a pedir aos filhos maiores que fossem até a farmácia e nem permitiu que eles saíssem naquele dia. Disse, para a estranheza de todos, que até que aquelas cinzas parassem de cair, deveriam ficar todos juntos. Foram andando até a farmácia e o que viu estampado na face das pessoas fez com que Val sentisse medo de morar em Colina pela primeira vez.
Chegou no comércio de Sarah, acompanhada por todos os filhos.
— Quer eu leve Marie para passar a tarde?
— Não. Eu vou fechar minha loja e vou sair da cidade, alguns dias na casa da minha mãe. Vocês querem vir comigo?
— Acha que tem necessidade, Sarah? Sidiney ligou para os bombeiros, o foco do incêndio está muito longe daqui.
— O Ticiano viu através de um drone que o fogo está há uns 10 quilômetros do rio, mas eu estou com uma sensação ruim. Vem comigo, Val.
Val disse que ligaria para o marido, havia a sede da firma dele com alojamentos, onde poderiam se abrigar se fosse necessário, mas prometeu a Sarah que se preciso fosse, lhe encontraria na casa da sua mãe.
Ao retornar para casa notou que podia olhar para o sol. Aquela grande esfera deslumbrante no céu estava extremamente visível a olho nu, podia olhar, não lacrimejava e nem doía os olhos.
Às duas da tarde parecia que estava entardecendo, foi quando o cheiro invadiu a casa: fumaça.
Quando Sidiney chegou, o casal discutiu pela primeira vez em anos. Val queria pegar as crianças e sair de casa, Sidiney dizia que era seguro, que custaria muito para o fogo chegar até ali e se chegasse, daria tempo de sair. Val notou que Ana começava a tossir e que o ar puro ao qual eles estavam acostumados há anos, já não existia mais.
Um grupo de homens, que incluía Sidiney e Ticiano, o bombeiro voluntário, decidiu caminhar pela floresta até a beirada do rio, para ver se visualizavam o fogo. A mata estava estranha, escura, estralava, as cinzas continuavam a cair, mas não havia fogo. Nem sinal até as margens do rio.
Sidiney tentou tranquilizar Val, mas para isso precisou desligar a televisão e o rádio, pois as notícias chegavam desencontradas. Alguns falavam em grande incêndio, outros diziam que não era nada e mais gente deixava sua casa em Colina do Sol.
— Val, alguma corrente de vento deve ter trazido estas cinzas e a fumaça, mas não tem fogo por aqui, eu vi com os meus próprios olhos, eu não deixaria você e as crianças em um incêndio. O fogo não vai cruzar o rio, fica tranquila Val, logo tudo voltará ao normal.
E, de fato, na manhã seguinte a fina camada de cinzas não estava mais caindo sobre a cidade. Um vento forte havia levado embora o cheiro da fumaça. Val respirou aliviada.
Um dia normal. Os filhos maiores comemoraram a volta da liberdade de sair para a rua, cada um sumiu em disparada na própria bicicleta. Val tentou limpar as cinzas da caixa de areia de Ana no fundo do pátio e deixou que a filha voltasse a brincar no quintal. Voltou a ser um dia normal para todos, exceto para Bob, que continuava a latir incessantemente em direção à floresta.
Val fazia um novo tapete de crochê no quintal, enquanto observava Ana brincar e se irritava com os latidos de Bob, foi quando, de repente, um redemoinho se formou bem em sua frente, fazendo folhas secas girarem no ar em formato de espiral. Ela não acreditava em sacis ou almas penadas como dizia sua falecida avó, aquilo ali não passava de um encontro de ventos frio e quente. O vento, em Colina do Sol, havia mudado de direção.
Casualmente ou não, nesta hora as luzes se apagaram. Em alguns minutos a névoa de cinzas voltou à cidade, desta vez mais densa e bem mais intensa. Val teve dificuldades em sair para a rua e pegar Ana, pois as cinzas acumularam-se em seu cabelo e lhe dificultaram a visão.
Dentro de casa, o cão da família já não latia mais. Estava encolhido em um canto, choramingando sem parar. Pela janela Val ouvia estouros de madeiras se partindo e o cheiro de fumaça começou a dificultar sua respiração. O incêndio estava ali, ela tinha certeza, ainda não era visível, mas estava ali e não era longe.
Por alguns instantes, Val não soube o que fazer. Deveria utilizar a mangueira e molhar o telhado da casa? Era assim tão grave e tão urgente? Lembrou de ligar para o marido, depois percebeu que mais cedo havia deixado os filhos saírem, mas por que foi fazer aquilo?
Pegou o celular. Não havia sinal. Val sentiu um leve formigamento nas pernas e o coração acelerou descompassadamente. O que faria se não pudesse encontrar os filhos?
Mas seu temor logo se acabou quando os gritos de mãe começaram na frente da casa. Ela abriu a porta apressada, com Ana no colo. Júnior e Aline estavam cinzas de fuligem. Eles começaram a falar, quase que ao mesmo tempo:
— Temos que sair, mãe. Lá no centrinho estavam todos indo embora!
Val ficou atônita.
— Mãe — disse Aline — é uma tempestade de fogo. O calor está direcionando as chamas, o Ticiano viu através do drone, está chegando aqui.
— Mãe, vem, agora! — gritou Júnior.
Val ficou um instante sem saber o que fazer, mas quando Ana começou a tossir em seu colo, ela sabia que não poderia ficar ali. Saiu porta afora, com a roupa do corpo, a filha nos braços e seguida de Bob.
— Vamos conseguir uma carona — ela disse aos filhos.
— Liga pro pai! — disse Aline.
— Não tem mais sinal de celular. Vamos andando pela avenida principal e vamos conseguir uma carona.
Mas não conseguiram.
Colina do Sol, que já era quase uma cidade fantasma, estava vazia. Val não via ninguém nas ruas, nem nas casas. Apressada, seguiu com os filhos pelo único caminho que dava para fora da cidade. As cinzas se intensificaram, os estalos na mata se tornaram assustadores, era como se a floresta toda rugisse.
Eles tossiam. Estava cada vez mais difícil enxergar, por causa das cinzas e também da fumaça, mas Val estava achando aquilo tudo muito estranho, pois não via o fogo. Nunca havia ouvido falar de um incêndio sem fogo.
E foi só pensar nele que, quase imediatamente, se mostrou. Estava na copa das árvores, forte e intenso. A floresta toda era vermelha ao seu redor. Os filhos gritaram, a fumaça se tornou preta e já não havia possibilidade de respirar. Barulhos intensos se deram atrás de Val quando as árvores começaram a cair sobre a estreita avenida. E se caíssem em frente a eles, estariam presos em meio ao fogo e a fumaça. Val correu com Ana no colo. Os outros filhos e o cachorro a imitaram, eram 20 quilômetros até a autoestrada, em uma avenida rodeada de floresta pelos dois lados.
Uma avenida que uma vez, Val já achou linda.
Levou quase uma semana para Sidiney conseguir entrar em Colina do Sol. Sem sinal de celular não havia como falar com Val. Ele fez algumas tentativas desesperadas de se embrenhar na mata, mas foi impedido pelos colegas de trabalho, pois apesar do fogo estar sob controle, a floresta ainda fumegava.
Quando as equipes de resgate liberaram a avenida daquela imensa quantidade de madeira queimada que havia se acumulado ali, Sidiney dirigiu sem reconhecer o caminho. Pinheiros centenários haviam desaparecido. Restavam troncos negros apontando para o céu como dedos queimados.
A cidade continuava quase inteira.
Sua casa também.
Correu até a porta, chamando pelos filhos antes mesmo de entrar.
Não houve resposta.
A mesa permanecia posta para o café da tarde. Um tapete de crochê inacabado descansava sobre a cadeira da varanda. Na caixa de areia do quintal, havia apenas um pequeno balde vermelho coberto por cinzas.
Durante aquela semana interminável, ele rezou muito para que Val e as crianças estivessem ali, seguras, mas sabia, pela quantidade de fumaça que chegou até o seu trabalho, que não havia oxigênio disponível em Colina do Sol.
Durante semanas, bombeiros vasculharam os escombros e até parte da floresta. Encontraram carros carbonizados, animais mortos e dezenas de corpos. Muitos jamais puderam ser identificados.
Val, Júnior, Aline, Ana e Bob nunca foram encontrados.
Os moradores que decidiram voltar reconstruíram telhados, pintaram fachadas e plantaram novas mudas de pinheiro. Aos poucos, Colina do Sol voltou a parecer uma cidade.
Só parecer.
Porque, desde então, nenhuma criança brincava sozinha perto da floresta.
E, pela primeira vez desde sua fundação, havia placas de VENDE-SE espalhadas pelas ruas.
Em Colina do Sol, o paraíso e o inferno estavam há apenas um verão de distância.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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