Nem a terra o quis.
Nem a terra.
Ele não lembra mais o nome que um dia teve. Não lembra mais quem foi nem sabe o que é agora e muito menos porque ficou assim.
No passado um homem, no presente um monstro e o futuro é a eternidade para padecer.
Quem o vê tem certeza de que aquilo não tem mais uma consciência, mas o Corpo-Seco lembra-se perfeitamente da face da mãe. A lembrança não vem como um flash, mas sim como uma memória constante que domina seu pensamento enquanto ele está acordado ou tentando dormir.
É um castigo. É seu inferno pessoal. Um dia ele foi humano, hoje é uma carniça condenada a vagar eternamente entre a vida e a morte para que saiba que seus pecados jamais serão perdoados. Todos eles, resumidos na figura da mãe. Aquela que lhe deu à vida e amor e ele sempre tratou com escárnio. Dentre tantas pessoas que ele prejudicou em vida, a mãe foi a que mais sofreu.
Ele lhe zombava, respondia, batia, cuspia em sua face. Há quem diga que ele a matou, o que não é de se duvidar porque ainda era humano quando a pobre desapareceu. Dizem que ela mesma o amaldiçoou, através de orações e benzeduras, pediu aos céus que ele pagasse nessa vida e na próxima e parece que foi atendida.
Praga de mãe é rara, mas pior que praga de madrinha.
Deus tá vendo. Talvez ele devesse ter levado mais a sério esse ditado. Durante toda a sua vida jamais praticou uma boa ação, desde menino se dizia filho do diabo, mas isso também nunca foi. Trouxe para sua vida terrena tudo que era maligno e viveu nutrindo pessimismo e maus sentimentos por vontade própria. Ainda que a mãe implorasse para que ele fosse um bom garoto, não lhe ouvia. Roubou; difamou; bateu; matou; estuprou. Fez questão de que não faltasse cometer em vida um único pecado. Era um monstro quando não devia ser e depois de morto conseguiu ficar ainda pior.
Ele teve muitos funerais. Sua alma foi encomendada incontáveis vezes, porém seu destino já havia sido selado.
Corpo-Seco também não lembra como morreu, se demorou, se doeu, nada disso faz sentido agora, nada. Mas do céu não chegou nem perto, ele sempre soube que Deus jamais o receberia. Sua alma foi mandada ao inferno, mas aquele a quem o homem chamou de pai a vida inteira não o reconheceu como filho e achou uma forma pior de lhe castigar.
Sem ter opção, a alma ficou junto ao corpo morto. Padecendo. Sentindo os vermes destroçarem a carne, a pele se liquefazer. Assistindo toda a sua vida como um filme noir enquanto permanecia inerte, inebriando-se na própria putrefação. Depois foi a vez da terra o expelir.
Ele já havia perdido a noção de tempo, mas apareceu semidecomposto no chão. Permanecer enterrado era um luxo que lhe foi negado. E desta forma, começou a vagar pelo Brasil inteiro. Andando sem rumo, com a imagem da mãe gravada na memória.
Assim nasceu o Corpo-Seco.
Hoje ele não passa da sombra de um homem sem passado. Um cadáver destroçado, apodrecido e decomposto, com os ossos expostos. Ainda assim é capaz de caminhar com certa agilidade em uma macabra peregrinação eterna.
A face é de uma caveira, mas um pouco de carne em mal estado permanece próximo ao maxilar esquerdo. Ainda possui couro cabeludo com alguns ralos cabelos que seriam brancos, não fosse sua sujeira constante. Não tem mais olhos, mas ainda assim enxerga. O tórax é uma ossada assimétrica danificada com alguns pedaços de carne enegrecida, exceto na região abdominal, onde se enxerga sua coluna. Braços e pernas são apenas ossos e ele veste algum pedaço de calça, o que deixa a figura um pouco mais assustadora.
Corpo-Seco costuma a vagar sem rumo. Andar e andar por dias a fio, em vários lugares. Esconde-se em troncos, sarjetas. Às vezes para, deita e parece que esquece. Tem a impressão de que vai encontrar algum tipo de descanso, assim mesmo, atirado em qualquer lugar, como se fosse uma fuga de sua jornada maldita. Como se Deus ou o diabo resolvessem enfim lhe perdoar. Mas logo ele volta a si, lembra da mãe, desperta do sono que nem teve e segue a peregrinação sem fim, em uma prova de que o céu e o inferno se esquecerem dele por aqui.
Muitas vezes foi visto, em muitos anos diferentes. Encontrou gente de tudo que é tipo. A maioria foge apavorada e ele costuma a perseguir e assustar. Só a visão já era o bastante para matar uma pessoa do coração, mas há relatos de que a risada ainda é pior do que o corpo. É um som inumano que impossivelmente sai de uma garganta que já não existe mais. E tem o cheiro, apesar de pouca carne o que se respira já de longe é carniça, como se uma cova com mil homens mortos tivesse sido aberta ao vento.
Alguns o encontraram dormindo. Lhe garantiram um novo funeral, mas a terra o expeliu todas as vezes. Já aconteceu dele se acordar em uma mesa de necrópsia, algum miserável deve ter desconfiado de crime, a polícia tentaria identificá-lo, associar a algum desaparecido, mas ele já não tinha história. Se foi alguém, já não é mais. Assim levanta e sai andando normalmente de volta à sua sina, ao seu castigo.
Apesar de feio e monstruoso, o Corpo-Seco não faz nada além de assustar quem cruza seu caminho. Coincidência da vida encontrar com essa coisa. Aquele castigo é dele, um fardo que não pode largar e nem dividir.
Há quanto tempo vaga? Quem sabe!
O resto de um homem condenado a andar morto pela eternidade.
Nem a terra o quis.
Nem a terra.