Crianças em casa

Enquanto tenta se adaptar ao novo lar e aos filhos recém-nascidos, uma mulher percebe que a casa guarda um segredo que insiste em chamar sua atenção.

7/23/20267 min read

Caixas de todos os tamanhos.

Coisas fora do lugar.

A família Linhares estava feliz na nova residência. Roberto queria se mudar desde que Aída anunciou a gravidez de gêmeos. Mas Aline e Alisson não puderam esperar todas as reformas ficarem prontas e assim que nasceram foram logo avisando que seriam prioridade absoluta, de forma que os pais levaram meses para conseguir habitar a nova casa.

Aída sentou-se na escada e olhou para o piso inferior. Caixas de todos os tamanhos. Coisas de outro lugar que agora ficariam ali. Os próximos dias seriam cruéis. Entre uma mamadeira e outra, um colinho e outro, entre as trocas de fraudas, Aída driblaria a dor crônica que tinha nas costas e tentaria colocar as coisas no lugar.

A vida não estava fácil para ela, não sabia que ser mãe seria se culpar por tudo. Se culpava pelas crianças terem nascido prematuras, se culpava por não conseguir amamentá-las e se culpava por se sentir tão cansada, afinal, ela amava os filhos e faria tudo por eles, disso não poderia restar dúvida alguma.

O marido trabalhava demais, pouco ficava em casa e quando chegava estava sempre cansado, de forma que apenas brincava um pouco com as crianças e dormia. Era como se eles tivessem se tornado estranhos morando sob o mesmo teto.

Aída era uma estranha no próprio corpo, estava se sentindo flácida, escabelada, cheirava a leite e suor o dia todo, antes costumava a ser uma mulher vaidosa, agora mal conseguia tomar um banho rápido e havia se tornado a fonte de sobrevivência de duas crianças e só. Mas ela pedia perdão a si mesma cada vez que pensava isso, afinal, era uma benção ser mãe e ela não podia, nem mesmo no seu inconsciente, demonstrar qualquer tipo de arrependimento. Em suma: tudo terminava com mais culpa.

Na sala, deitou cada criança no seu tapete de atividades, deixou-os sorrindo e dando tapinhas nos peixinhos suspensos, ligou uma música tranquila em volume baixo e dedicou-se a abrir caixas. Havia dormido mal. Várias vezes olhou a câmara da babá eletrônica. Os gêmeos estavam tranquilos. Ela não. Não tinha se adaptado com a casa, ali era tão frio e ela se sentia uma intrusa. Pensou que havia de passar, era muita mudança brusca para pouco tempo. De repente, ouviu um choro de criança. Contornou o sofá, os gêmeos brincavam tranquilamente, estranhou, mas voltou para as caixas. Não era de se admirar que já estivesse ouvindo coisas.

Toalhas de banho. Enfeites. Álbum de família. Aída ia tirando tudo das caixas e tentando organizar em seus novos lugares. Parou por apenas alguns minutos para trocar a frauda de Alisson, quando voltou, havia uma foto em cima do álbum de seus filhos. Uma que ela não conhecia e que tinha certeza de que não estava ali quando saiu. Era um retrato antigo, de uma criança vestida com uma roupa branca, deitada em um berço rebuscado. Quem era aquele bebê? Virou a foto e leu no verso: Leonor Bianchi.

Quando Roberto chegou, não deu a mínima para a história da esposa. Disse a Aída que aquilo era uma bobagem e certamente seria de uma família que morou ali algum dia e não havia nada de errado nisso.

Quando foi deitar os gêmeos, Aída reparou na janela. O quarto onde seus filhos estavam dormindo hoje, de frente para o seu, era onde aquela foto foi tirada. A mesma janela, no mesmo lugar. Ao sair, Aída reparou no batente da porta, riscos na madeira, como se marcassem o crescimento de uma criança. Agachou-se e observou as iniciais talhadas ao lado de cada marca: LB, só podia ser a menina da foto, mas a família não deve ter morado ali por muito tempo, já que as medições não ultrapassavam alguns centímetros na porta. Definitivamente, Aída não estava gostando daquilo.

Na madrugada, custou a pegar no sono. Não gostava dos ruídos que aquela casa fazia, não eram como os da casa onde moravam antes, bem, lá não havia. Ouviu a tosse vinda do quarto das crianças. Esse é o maior medo das mães de bebês: que eles se afoguem durante o sono, golfem uma sobra de leite, tussam, se sufoquem com a própria coberta e morram. Por isso as mães de bebês não dormem. Quando olhou pela câmera enxergou uma menina sentada no chão, de costas para a imagem. Usava um vestido que ela supôs ser branco, tinha longos cabelos escuros trançados nos dois lados da cabeça e se sacudia para frente e para trás.

Aída levantou-se correndo e entrou abruptamente no quarto das crianças. Mas lá não havia nada. Apenas dois bebês dormindo tranquilamente. A mulher esfregou as têmporas. Achou que estava apenas confusa, mas suas pernas tremiam de medo.

Nos dias que se seguiram Aída fazia tudo mecanicamente, temendo cada passo que dava no novo lar. Tinha arrancado do marido que aquela casa estava vazia há dois anos, a última família que morou ali se mudou da cidade. A construção datava dos anos 40 e Roberto não tinha registro de quem a construiu.

— Aída, a vida não é um filme! Nós custamos tanto para reformar essa casa e você também gostou dela desde a primeira vez que entrou aqui. Pare de bobagem!

Sim, ela havia gostado. Era um belo sobrado, teve muitas ideias de como utilizar os espaços. Agora não mais. A única coisa que queria era sair dali.

Durante semanas, todas as tardes quando tentou ligar a música infantil que acalmava seus filhos, o rádio simplesmente se desligava sozinho. Naquela tarde Aída não tentou ligar. E assim, o aparelho ligou-se. Aída levou um susto que deixou um prato cair e se estilhaçar no chão. Saiu da cozinha e entrou na sala. Os gêmeos estavam deitados no cercadinho. Ajoelhada em frente ao aparelho havia uma menina, apertando todos os botões. Uma menina que não devia estar ali. Uma menina morta. Aída gritou. A criança apenas olhou para ela e sorriu, saiu andando naturalmente em direção a cozinha.

Aída evitou pensar naquilo e permitiu que o cansaço a dominasse assim que a noite chegou. Ela dormia profundamente quando acordou com risadinhas. Vinham do quarto das crianças. Aída chamou o marido e levantou-se apressada. Assim que chegou na porta, enxergou a menina parada no final do corredor.

— O que você quer?!

— Mamãe — a criança disse. E apontou o dedo para Aída, ela virou-se para trás, na escada uma mulher chegava ao segundo piso apressada, com o cadáver de uma criança nos braços.

Roberto acordou com o grito de Aída e não conseguiu convencê-la a não levar os gêmeos para o quarto do casal, tampouco tranquilizá-la. Ela dizia que estava com medo, que via gente morta andando pela casa.

O marido enfim entendeu que Aída precisava de ajuda. Antes da gravidez complicada, ela era paisagista. A casa nova tinha um amplo terreno. Roberto comprou uma muda grande de cipreste mexicano e convidou a esposa para plantar. Um sinal de que a casa agora pertencia a eles.

Os gêmeos tomavam um solzinho no carrinho. Aída estava sentada na escada do quintal, escorada em uma parede, com o pensamento longe. Roberto cavava um grande buraco onde ficaria sua árvore, quando de repente a pá chocou-se com algo de metal. Com dificuldade tirou a pequena caixa de chumbo de baixo da terra. Limpou o vidro que havia na tampa.

— Aída. Você não vai acreditar no que tem aqui!

— Uma menina. Cabelos negros longos trançados, vestido branco.

Roberto olhou para a esposa incrédulo.

— Leonor Bianchi. Morreu nessa casa. A família deve ter a construído.

— Como você sabe?

— Eu a vejo. Todos os dias. Pelos corredores. Desliga o som, me assusta. Tem três crianças nessa casa. Ah, eu vejo a mãe também.

Aída se preparou para o marido repreendê-la, mas ele sentou-se ao seu lado e pegou sua mão.

— O corpo dela está intacto, está ali…inteirinha.

Eles tinham uma criança enterrada em seu quintal. Aída teve um calafrio, nada de bom poderia vir daquilo, nada.

— Quero saber tudo sobre ela.

— Nós vamos dar um jeito nisso.

Com muito custo Roberto conseguiu autorização para remover o pequeno caixão de sua propriedade. A universidade local se interessou pelo assunto. Examinaram a menina. Estava sepultada ali há mais de 60 anos, tinha por volta de três de idade. Havia registro de nascimento dela, mas não de falecimento. Bem como os pais, ninguém tinha notícias deles. A causa da morte havia sido um pescoço quebrado, uma provável queda. E ela havia sido enterrada com todos os cuidados possíveis na época. Por que o corpo não entrou em decomposição? O eterno mistério, o foco do estudo.

Aída entendia. Aquela menina não queria ser esquecida. E tirar o corpo dela dali poderia não ser a melhor solução, pois continuava a vê-la pela casa, cada vez mais agressiva e irritada, agora arremessava objetos e Aída tinha pelo corpo marcas de pequenas mordidas. Sem falar nas flores, as mesmas que adornavam o cabelo do pequeno cadáver, que Aída já estava cansada de juntar pela casa.

Na vizinhança havia uma senhora de mais de oitenta anos de idade, que sempre morou ali. Foi com ela que Aída encontrou respostas.

A mulher magrinha, acomodada em uma poltrona, lhe deu atenção depois de brincar com os gêmeos por mais de meia hora.

— Eles eram boas pessoas, não mereciam que coisas tão ruins acontecessem.

— Quem?

— Os Bianchi. Helena deu à luz pelo menos sete vezes, somente Leonor sobreviveu. Não me admira que a alma daquela mulher nunca encontre descanso. Ela estava tão feliz por ter aquela filha saudável e Leonor simplesmente caiu na escada e morreu.

— A senhora lembra bem?

— Na época houve grande comoção na vizinhança. Mas faz tanto tempo. A esta hora todo mundo já morreu.

— E o que aconteceu com os pais?

— Ninguém sabe ao certo, mas dizem que Helena envenenou o marido e se matou em seguida. Um tio dela contava isso na época, mas ele também já morreu.

— E onde eles foram sepultados?

— Junto com todos os filhos. Nenhum deles nunca deixou aquela casa, nem vivo e nem morto. Ainda os enxergo pelas suas janelas. A criança é uma praga, sempre foi.

Aquilo era bem verdade.

Aída voltou para casa que jamais seria somente sua. Olhou pela porta dos fundos para o grande gramado do quintal e viu que se enganou, tinha mais do que três crianças naquela casa.

Caixas de todos os tamanhos.

Coisas fora do lugar.