De sangue e terra
Um assassinato brutal transforma uma esquina comum em um lugar temido. A partir daquela noite, um destino sombrio parece rondar cada uma das casas.
7/23/202611 min read

Algumas relações nascem de formas improváveis. Esta foi uma. Esta era misteriosa. A culpa foi do Paulo Roberto, a culpa de tudo, na verdade.
Paulo Roberto nunca valeu nada, nem uma pataca. Na infância já era uma criança problemática. Na adolescência já era bêbado, drogado, vagabundo e claro, mimado pela mãe, dona Idalina. Virou um homem e continuou assim, nunca soube o que é trabalhar. Mas, para sua mãe, ele sempre foi um anjo imaculado e ela tratava de arrumar desculpa para todas as suas falhas. Idalina amava o filho.
Só ela.
Brigas de bar eram comuns na periferia onde moravam. Naquele bairro humilde, esquecido por uma sucessão de governos, no coração de uma grande cidade, a diversão do pessoal era encher os botecos nos finais de semana. Para alguns, como o Paulo Roberto, em dias de semana também era o melhor lugar para se passar a noite.
Naquela noite exageram.
No álcool, no pó e nas pauladas. Ninguém sabe ao certo o motivo de início da confusão, nem quantas pessoas estavam envolvidas. O que se sabe é que o Paulo Roberto acabou com o corpo esticado na esquina, cerca de uma quadra de distância do bar, com um dos olhos saltados para fora da cara.
Um corpo estendido no chão.
A notícia se espalhou ligeiro. Fazia tempo que não matavam ninguém, todo mundo correu para ver, fotografar e postar o miserável morto nas redes sociais. Idalina saiu apressadamente com um pressentimento ruim, só confirmou suas suspeitas quando as pessoas começaram a lhe pedir que ela não se aproximasse do corpo. Assim soube que se tratava do seu Paulo Roberto.
As tentativas de mantê-la afastada foram inúteis. Idalina observou o seu filho: o corpo sujo de terra do chão estava esticado na diagonal da esquina. A cabeça apontava para uma casa, os pés para outra. E os dois braços abertos em cruz, sinalizavam as duas casas diagonais.
Idalina agarrou a cabeça do filho, colocou no seu colo e chorou, gritou desesperada naquela esquina. As pessoas tentavam lhe afastar, diziam que a polícia ia investigar e que ela estava comprometendo a cena do crime.
Idiotas, inocentes.
Idalina sabia muito bem que a polícia não ia investigar nada. Pobre, preto, bêbado e drogado, saindo de um bar. Todo dia morria gente assim por aí. Paulo Roberto seria apenas mais um. Uma morte banal. Iam comentar no início, depois não iriam se demorar em esquecer.
A velha ficou sentada na sarjeta, esperando que os policiais fotografassem, depois removessem o corpo do filho. Na sequência eles conversaram com a vizinhança. Todos estavam em casa, mas ninguém havia visto nada. Como assim? Eram dez da noite, verão, as casas estavam abertas. Ninguém foi capaz de socorrer Paulo Roberto, nem mesmo chamar a polícia. Eles permitiram que o rapaz morresse, para Idalina, eram tão criminosos quanto quem o tinha matado.
A polícia foi embora.
Os vizinhos se recolheram.
Idalina ficou sentada na sarjeta, sozinha, a noite inteira, olhando para o sangue do filho empossado no chão sobre aquela terra.
Por volta das quatro da madrugada, o corpo de Idalina permanecia ali, ainda que ninguém pudesse ver, ela não estava mais sozinha. Seus olhos se reviraram e ela ficou um bom tempo em pé na esquina, pisando na poça de sangue. Em seguida, se abaixou e fez uma cruz de sangue e terra. Exatamente onde estava o corpo do filho.
Cada extremidade da cruz apontava para uma das casas. As casas daquelas pessoas que não haviam ajudado o seu filho. Idalina levantou os olhos, olhou para cada casa, depois fitou cada extremidade de cruz e disse: morte, morte, morte, morte.
Voltou a sarjeta e ficou lá, proferindo palavras que não existiam em língua alguma, até amanhecer. Depois foi embora, vagarosamente, encolhida, cabisbaixa.
Os vizinhos se assustaram ao ver a cruz de manhã. Um deles encheu um balde de areia, foi até a esquina e despejou sobre o desenho, acabando com a poça de sangue, mas menos de uma hora depois o sangue jorrava, brotava de baixo da terra.
Um mistério.
Uma semana depois, já haviam feito várias tentativas de acabar com o sangue, inclusive raspando o chão e ainda assim ele brotava.
A vizinha da casa para onde apontaram os pés do defunto estava lavando roupa, no sábado de tarde, pouco mais de uma semana após o assassinato. De repente parou, ficou quieta. Os olhos vidrados. Largou o serviço que estava fazendo pela metade, abanou as mãos molhadas, secou na blusa e saiu a andar, sozinha.
Caminhou por cerca de dois quilômetros, como se não soubesse onde estava indo. Os filhos chegaram em casa, o marido também. A casa estava aberta, ela havia deixado o celular, para onde fora sem avisar? Não era de seu feitio. Começaram a procurá-la desesperadamente.
Nos trilhos do trem ela pegava o ar puro no rosto em cima de um viaduto. Abriu os braços e não hesitou. Pulou para baixo, fazendo um estrondo seco quando caiu. Um homem vinha caminhando longe e ficou pasmo com o que viu. Parou em cima da ponte e pôs as mãos na cabeça. O trem de carga se aproximava rapidamente. De qualquer forma, não havia como aquela mulher sobreviver. Quando o trem passou, lhe decepou os pés, pois somente parte das pernas haviam ficado em cima dos trilhos.
A notícia do suicídio havia chocado os filhos, o marido e os vizinhos. A mulher não estava em depressão, sempre fora uma ótima mãe de família e não havia motivos para se matar repentinamente. Se não fosse o homem que testemunhou o fato, a família acharia que ela havido sido forçada, jogada da ponte.
A família estava desolada, queria ir embora dali. Não conseguiam olhar para as coisas da mãe, tudo que ela havia deixado no lugar, parecendo que retornaria para casa a qualquer minuto. Seu funeral havia sido de uma tristeza sem par.
Aquela morte chocou o bairro e parte da cidade.
A de Paulo Roberto não.
O sangue permanecia lá, ainda que pessoas e veículos passassem pelo lugar todos os dias. Uma semana, duas mortes e a tendência era piorar.
O vizinho da casa para onde Paulo Roberto morreu apontando o braço esquerdo não estava se sentindo bem desde a morte do rapaz. Sentia falta de ar e pontadas agudas no pulmão. Estava com dificuldades para respirar e escondeu da família que escarrava sangue. Era um senhor de idade, mas até aquele dia tinha uma saúde de aço.
No triste velório da vizinha, onde as pessoas se ocupavam de comentar os detalhes sórdidos mais macabros, curiosos em como os pés haviam sido acomodados no caixão, ignorando a dor que traumatizaria para sempre aquela família, o velho se sentiu mal e desmaiou.
Foi levado ao hospital pelos seus familiares e os médicos constaram câncer fulminante no pulmão esquerdo, estavam admirados de não terem aparecido os sintomas. Ele ficou hospitalizado por vários dias e depois foi mandado para casa. A família sabia que não havia muito que os médicos pudessem fazer por ele, era triste, mas havia sido mandado ao lar para morrer.
Exatamente o que aconteceu. No sábado, uma semana após a morte da vizinha, havia sido sua vez. Depois de sofrer um bocado, o homem fechou os olhos para não abrir nunca mais. Mais uma vez, os vizinhos estavam em um velório. Mais uma vez a tristeza havia se abatido sob aquela esquina.
É claro que a morte de um velho não causava nem metade da comoção do que o suicídio de uma mulher saudável, mãe de família. Ainda assim, as pessoas estavam entristecidas com a partida repentina de um vizinho tão querido. Ainda assim, se preocuparam e se chocaram muito mais do que com a atrocidade que havia acontecido a Paulo Roberto.
Os bêbados que participaram do espancamento de Paulo Roberto ouviram falar das mortes e que a velha Idalina havia jogado uma maldição. Rapidamente, se mandaram da cidade, um para cada lado. Nunca mais se teve notícias deles. Ainda que as pessoas não os identificaram, eles sabiam bem o que haviam feito e estavam loucos de medo de Idalina e dos boatos que a cercavam após a morte do filho.
Nas outras duas casas as pessoas começavam a se preocupar. Uma morte no meio da rua. Duas mortes de vizinhos. Alguns membros das famílias diziam que não passava de coincidência, mas, pelo sim ou pelo não, uma mulher foi até o meio da rua e acendeu algumas velas na esquina onde brotava o sangue, buscando dar um pouco de descanso aquela pobre alma e um pouco arrependida por não ter ajudado em nada.
Idalina subiu a rua amparada por uma bengala. Observou as velas, riu alto, balançou a cabeça e disse:
— Tarde demais.
A verdade é que Idalina assustava a vizinhança. Havia alguns rumores de que ela mexia com magia negra. Verdade ou não, estava longe de ser uma mulher era normal. Já havia feito algumas profecias anteriormente e acertado todas e, agora com os últimos fatos, a maior parte da comunidade não acreditava ser coincidência.
Taís era uma jovem que trabalhava em uma das casas da esquina. Na verdade, era um pouco explorada pelos patrões, que lhe pagavam uma miséria para cuidar dos filhos gêmeos e fazer todo o serviço da casa. Era uma miséria da qual ela precisava, então aguentava no osso peito.
A moça começou a ter pesadelos desde a morte de Paulo Roberto. Os patrões iriam em um baile naquela noite e pediram para ela ficar tomando conta das crianças. Taís estava lá quando a confusão começou. Todos eles estavam.
Paulo Roberto veio correndo, desesperado, na frente dos seus camaradas, ele bateu em cada casa daquela esquina. Pediu para entrar, pediu para que chamassem a polícia. E foi ignorado em cada tentativa.
Quando ela ouviu os gritos de “me ajudem, por favor” ou “eles vão me matar”, pegou as crianças e correu para os fundos da casa, na esperança de que eles nem mesmo escutassem nada daquela confusão que se formava. Mas ela não pensou que terminaria de forma tão trágica. Achou que os patrões chamariam a polícia, mas eles simplesmente espiaram todo o ocorrido de uma janela. Depois disseram que era menos um vagabundo no mundo, falaram para a polícia que não sabiam de nada e saíram para o baile normalmente.
Taís sonhava com os gritos e chorava, aquilo havia sido horrível. Sonhava com as palavras estranhas proferidas por Idalina e sabia que não era ela que estava falando. Quando foi embora no meio da noite, Idalina estava parada na esquina, quando retornou de manhã cedo, fazia o seu cântico macabro sentada na sarjeta.
Assim que as mortes dos vizinhos começaram, Taís teve certeza de que havia coisa errada e associava Idalina às suas suspeitas. Não falaria com ninguém, não queria arrumar confusão com a velha e nem passar por louca. O patrão dela dizia que era tudo coincidência, que aquilo tudo era bobagem e superstição.
Naquela noite, quando a vizinha acendeu as velas, ela viu Idalina passar e tinha certeza absoluta de que a velha não estava sozinha. Podia enxergar um vulto negro e grande, em formato de um homem, caminhando lentamente com ela. Primeiro pensou estar vendo o fantasma de Paulo Roberto, depois soube que não era isso. Como quem sabia que estava sendo observada, Idalina se virou para trás e encarou Taís. A menina teve um arrepio que percorreu todo o seu corpo e correu para dentro da casa dos patrões.
As pessoas tentavam continuar com suas vidas normalmente, fingindo que os ocorridos na esquina não passavam de uma coincidência.
Os donos da casa onde o braço direito de Paulo Roberto ficou apontado organizaram uma pescaria no final de semana. Cada sábado morria uma pessoa naquela esquina, eles estavam dispostos a acabar com o mito e, por outro lado, estavam loucos de medo de ficar em casa.
Alugaram uma casa na beira do rio, um barco e foram pescar. Pai, mãe e um filho adulto. Estava muito quente, eles se divertiam, quando de repente o pai se levantou para lançar a linha e caiu dentro d’água. Ele era um bom nadador, mas nem se quer subiu para tomar fôlego, simplesmente sumiu nas águas. Mãe e filho ficaram desesperados. O filho queria pular, mas foi impedido pela mãe, que não queria perder os dois.
Os bombeiros levaram três dias para localizar o corpo. Incrivelmente, o homem se encontrava com a mão direita agarrada a um galho no fundo do rio. Como se quisesse se manter ali.
Mais desespero no bairro, mais dor na esquina. A essas alturas todos já comentavam que Idalina havia jogado uma maldição naquelas pessoas e que os próximos a sofrer seriam os assassinos do filho. O sangue seguia brotando e as pessoas passaram a evitar transitar pela esquina maldita, como ficou chamado o local. Mesmo os bêbados, quando vinham cambaleando pela rua, lembravam-se e desviavam o caminho.
Na família que ainda não havia sido atingida, justamente para onde se voltou a cabeça de Paulo Roberto, a mulher estava em pânico. Queria vender a casa, ir embora, salvar da morte seus dois filhos pequenos.
— Deixa de frescura! — dizia o marido — É só o que me falta, cada um morre quando tem que morrer, nós não vamos a lugar nenhum.
Taís estava com medo de trabalhar ali. Os pesadelos não deixavam nunca de lhe assombrar. Sonhava com o sangue, com a cruz, com o corpo de Paulo Roberto e, principalmente com a velha Idalina, cujo ouvia lhe chamar de noite mesmo sabendo que aquela não era a sua voz.
A menina cogitou não voltar para trabalhar, não queria mais entrar naquela casa e pensava que o patrão era um ignorante, mas enquanto não arrumasse outro emprego não teria escolha, tinha de continuar indo.
O falatório era grande na vizinhança, mas na casa de Taís ninguém parecia se importar com ela. Era uma moça cheia de parentes e muito solitária. Seguiu indo para o trabalho normalmente, mas estava mais quieta e distante, pressentindo mais coisa ruim a cada momento.
No sábado seguinte, quarto sábado, três mortes na esquina, a patroa trocou o seu turno da manhã pela noite. Taís ficou furiosa, mas isso acontecia de vez em quando para eles saírem, e ela nunca ganhava um centavo a mais.
Entardecia quando saiu de casa, pensava no sangue, na terra. Ela era das poucas pessoas que ainda passava por ali, não tinha mesmo opção. Estava a uma quadra de distância da esquina maldita quando suas pernas simplesmente travaram. Na rua, sozinha, Taís não conseguia andar, parecia estar em um dos seus sonhos. Olhou para o lado e viu o vulto de um homem, o mesmo que acompanhava Idalina. Devia sentir medo, mas foi tomada de uma paz surpreendente. Ele balançou a cabeça em negativa e ela entendeu que não deveria ir trabalhar. Voltou para casa.
Não havia dado três passos quando ouviu o barulho dos tiros. Ficou sabendo, horas depois, que homens encapuzados haviam entrado na casa dos patrões e assassinado todos com tiros na cabeça, inclusive as crianças que ela cuidava e amava.
Taís chorou. Chorou pela maldição. Chorou pelas crianças. Chorou pelo vulto. Chorou pelos pesadelos.
Na manhã do outro dia estava parada naquela mesma esquina, solitária. No chão nenhum vestígio do sangue pela primeira vez, desde o ocorrido.
Dona Idalina chegou por trás dela, de mansinho, e perguntou:
— Você o vê, não?
Ela levou alguns segundos para responder.
— Sim, mas não entendo. Eu devia ter medo, mas não tenho.
— Devia ter medo nada. Ele não se oferece para qualquer pessoa. Sirva a ele e ele servirá a você.
Taís pensou um pouco no que fazer da vida.
— Me diga, menina, quer ir trabalhar para mim? Não sei se posso pagar a mesma coisa que seus patrões pagavam, mas já que tens este talento podemos até fazer alguns atendimentos espirituais e ganhar algum dinheiro.
Taís não pensou duas vezes e acompanhou Idalina. Em pouco tempo, mudou-se de vez para a casa dela, ambas eram mais do que patroa e empregada. Abriram uma banca de atendimentos espirituais e logo ganharam um bom dinheiro. Idalina ensinou muito para Taís e a menina ficou com a velha e a cuidou até a hora em que ela morreu.
Quando Idalina se foi, Taís não se sentia sozinha. Havia herdado os poucos bens materiais, também a maldição e a entidade. Andando pelas ruas da periferia, proferindo palavras que agora entendia, a moça era ainda mais temida do que a própria velha.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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