Fama Póstuma

E se o maior mistério criminal do século XX finalmente tivesse uma resposta? Uma ficção que revisita o enigmático caso da Dália Negra.

7/24/20266 min read

Os tabloides noticiaram sem parar a morte de Elizabeth Short, mas não deram uma única linha sobre o suicídio de Dorothy Byrne. Isso porque ninguém ficou sabendo de qualquer ligação entre as duas mulheres.

Uma semana depois que descobriu o que aconteceu com a amiga, Dorothy afogou-se nas águas escuras do Rio Hudson. Não usou nenhum peso para ficar submersa, o que lhe manteve no fundo foi exclusivamente o peso da culpa.

O corpo de Elizabeth fora encontrado extremamente limpo. No de Dorothy não havia limpeza em parte alguma, se fosse possível examinar, descobririam que o que ela trazia de mais sujo era a consciência. Mas Dorothy não matou Elizabeth, claro que não, ela jamais seria capaz de tamanha brutalidade, este fato, porém, não lhe abstém de culpa.

Por algum tempo, elas foram amigas. Ao menos pareciam. Ambas tinham em comum o sonho de serem atrizes de renome, de se tornarem famosas. Elizabeth deixou a família em Boston e Dorothy em Nova York e partiram para Los Angeles em busca da fama, vencendo o primeiro desafio de suas vidas: o de tomarem conta de si mesmas sozinhas, em uma sociedade onde o machismo imperava de tal forma que as mulheres apenas saíam do domínio do pai para passar ao domínio do marido.

A vida dos artistas já era debatida naquela época. Pessoas excêntricas, sem limite, despegas de regras sociais. Poucos pais sonhavam com este futuro para os filhos, mas esta era a vida que seduzia os jovens, principalmente as mulheres.

Determinadas, corajosas, visionárias. Coincidências que as aproximaram, somente essas, pois, na realidade, eram mulheres diferentes. Elizabeth precisou trabalhar como garçonete para viver em Los Angeles, Dorothy não. A família de Elizabeth se orgulhava de sua coragem, a de Dorothy não. E o que acabou as afastando de vez: Elizabeth era talentosa no palco, Dorothy não.

Enquanto Elizabeth gastava preciosas horas dos seus dias atrás de balcões atendendo pessoas no restaurante onde trabalhava, Dorothy recebia dinheiro da sua família e repousava na bela casa onde vivia sozinha. Descansada e cuidando constantemente da beleza, Dorothy sempre se achou muito superior a amiga, porém, quanto mais o tempo passava, mais os holofotes se distanciavam dela.

Nas vezes que conseguiram fazer algum teste para pequenas peças teatrais, Elizabeth sempre teve o melhor desempenho. Dorothy passava horas em frente ao espelho treinando, matriculou-se em cursos de teatro. Em sua mente estava pronta para atuar, mas quando chegava o momento de provar isso, o nervosismo sempre a atrapalhava. Ou talvez, não fosse o nervosismo, talvez ela não houvesse nascido para aquilo mesmo, simplesmente não era boa atriz. Apesar de a ideia de desistir ser a mais fácil, Dorothy não cogitava.

Uma pequena companhia abriu testes para atrizes que quisessem compor o elenco da peça A Dama das Camélias. Clássico da literatura internacional, as jovens amigas enxergaram naquilo mais do que uma oportunidade, enxergaram um sonho.

Dorothy sabia que a família morreria de desgosto se ela viesse a interpretar Marguerite Gautier, uma mulher promíscua, mas não havia no mundo uma aspirante a atriz que não sonhasse com aquele papel uma única vez na vida.

No teste, fora péssima, como sempre. Sentados de frente para o palco, os produtores não deixaram nem que ela terminasse as falas, pouco lhe deram atenção, praticamente a dispensaram antes mesmo que abrisse a boca. Ela devia ir embora, mas ficou escondida nas coxias. Quatro mulheres foram testadas antes de Elizabeth e quando foi a vez dela, tirou de letra, fora a única a ganhar atenção total dos produtores.

Ninguém nunca ficou sabendo se Elizabeth conseguira ou não o papel, mas não havia dúvidas de que ela era de uma beleza rara. A iluminação do palco favorecia sua pele branca, os cachos negros pareciam desenhados a pincel de tão simétricos, a voz imponente enchia todo o teatro e a postura dela parecia a reencarnação da própria Marguerite. Sem falar que, na vida real, Elizabeth não deixava de ter comportamentos semelhantes a personagem que buscava interpretar.

Dorothy foi embora pisando firme no chão, para ver se a raiva se esvaia em cada passo. Estava tendo uma crise de ciúmes e inveja ao lembrar dos olhos brilhantes do diretor da peça fitando Elizabeth.

Não havia andado meia quadra quando encontrou um sujeito. Era um homem alto, belo, bem-vestido, de bons modos. Ele passou a acompanhá-la pela rua e lhe fazer perguntas casuais. Disse que se chamava Paul e em pouco tempo, ele e Dorothy se tornaram amigos.

Paul fazia truques com cartas. Fazia fogo brotar do meio dos dedos e o apagava. Encontrava moedas no decote de Dorothy. Andava sempre sozinho.

— Podemos fazer na vida tudo o que quisermos, minha querida! — ele disse a Dorothy certo dia.

— Não creio.

— É porque você não pratica a minha religião.

— E qual é?

— É uma religião pouco conhecida, mas muito criticada. Me fale, o que você mais quer e eu vou provar que funciona.

— Eu quero a fama nos palcos e no cinema!

— O que você está disposta a fazer para conseguir?

Ela hesitou somente um instante.

— Tudo!

No dia seguinte ele pediu um nome, Dorothy não devia fazer perguntas, somente dar o nome de uma pessoa e onde encontrá-la.

— Elizabeth Short — ela completou com os horários em que entrava e saía do restaurante onde trabalhava.

Nunca mais voltou a ver aquele sujeito misterioso, tampouco acreditou que ele fosse o gênio da lâmpada e que lhe concedesse desejo algum. Mas sentiu medo quando Elizabeth sumiu no dia seguinte e muito mais medo quando encontraram o corpo dela dias depois.

Dorothy correu até o terreno onde rumores diziam que Elizabeth havia sido encontrada. Antes da polícia chegar e isolar o local, foi a pessoa presente mais desesperada. Era ela, não parecia mais a amiga, mas era. O corpo estava completamente branco e limpo, mais tarde Dorothy descobriu que o sangue fora drenado. A boca havia ganhado um sorriso de orelha a orelha, o que assemelhava Elizabeth a um palhaço. No corpo havia machucados em diversos lugares e o mais horrível: estava partido ao meio, com os intestinos colocados embaixo das nádegas.

O que Paul havia feito? Se é que aquele sujeito se chamava Paul. O que ela havia feito? Estaria segura agora?

Dorothy cogitou ir até a polícia e dizer tudo o que sabia. Mas a mídia apelidou o caso de sua amiga de Dália Negra e a morte dela virou um circo. Dezenas de pessoas confessaram o assassinato, a polícia recebia trotes toda a hora. Se denunciasse corria o risco de que ninguém acreditasse nela ou mesmo que a considerassem cúmplice ou suspeita. E de mais a mais, o que ela poderia fazer? Dar as características de um homem sobre o qual não sabia nada, nem mesmo tinha certeza de que ele havia feito mal a sua amiga, poderia ser somente uma coincidência.

Ela também nunca descobriu se a fama chegaria como lhe fora prometida. Em pouco tempo, não podia mais ficar em Los Angeles. Lembrava-se de Elizabeth o tempo inteiro, dela sorrindo, dela com suas roupas pretas, dela no palco em uma perfeita combinação com Marguerite Gautier. Dormia e sonhava com Elizabeth, no sonho, ela entrava pela porta do seu quarto, e seu corpo era divido ao meio. O torço caía perto de sua cama e as pernas permaneciam em pé, ela acendia o abajur e via o novo sorriso de Elizabeth e então sabia que a culpa seria somente dela, para sempre.

Mas o que mais pesou foi a indiferença das pessoas. O mundo era o mesmo com Elizabeth e sem ela. A mídia queria vender jornais, para isso se aproveitou da brutalidade da morte. Mas, Elizabeth era uma mulher sozinha, queria ser atriz, tinha uma família pobre, poucas pessoas se importavam com ela. Era pouco provável que um dia alguém viesse a pagar pelo crime que ceifou sua vida. Ela não seria a primeira mulher cujo a morte passaria em branco e nem a última.

Os pais de Dorothy exigiram que ela voltasse para casa, uma aspirante a atriz acabava se ser assassinada, Los Angeles não era segura para uma mulher morar sozinha. Lugar nenhum do mundo era.

Ela cedeu. Deixou para trás o sonho de brilhar nos palcos e quando chegou a Nova York não era mais a mesma pessoa. Não tinha mais sonho algum. Pensava em Elizabeth e no corpo sem uma gota de sangue. O que haviam feito do sangue dela? Que tipo de religião sacrificava pessoas e com que fim? Pensou em contar para alguém, depois pensou que seria melhor não pensar mais. Em nada. Assim, caminhou até o Rio Hudson em uma tarde qualquer e pulou para dentro sem pensar duas vezes.

Enquanto se afogava, arrastada pelas águas do rio, Dorothy pedia perdão à Elizabeth. Na hora parecia que ia apenas se livrar de um problema, quando viu a amiga morta entendeu a gravidade de seu ato impensado. Tarde demais para se arrepender.

Nenhuma das duas chegou perto se quer de realizar o sonho da fama nos palcos. Porém, após a morte, Elizabeth ficou conhecida internacionalmente. Dorothy, bem, Dorothy não.