Morte na curva
Chamado para atender ocorrências cada vez mais estranhas, um bombeiro inicia uma investigação solitária e descobre que algumas respostas cobram um preço alto demais.
8/2/20265 min read

O som da sirene do caminhão de bombeiros ainda não era comum para Jonas. Sentado na cabine, equipado, ele parecia um amado super-herói infantil e não apenas um garoto franzino que realizara o sonho de ser bombeiro cedo demais. Jamais ele contaria aos colegas, não queria ser motivo de chacota, mas, na sua primeira ocorrência que não era treinamento, estava com muito mais medo do que empolgação.
— Acidente grave em estrada do interior — rugiu o rádio segundos antes de todos largarem o baralho e correrem em direção ao imponente caminhão.
Chegaram em um pouco mais de quinze minutos, a noite se aproximava. O carro deveria ter sido vermelho algum dia, mas agora era marrom, tingido pela terra solta que parecia ser o motivo de ter ido parar ali, jogado no barranco logo depois da curva brusca naquele pacato local.
Os socorristas da ambulância já tinham gritado que não parecia ter sobreviventes, mas não puderam chegar ao interior do carro. Um deles estava bem acima do peso, se tentasse, era certo que passaria de salvador à vítima. O outro, simplesmente não parecia estar disposto.
Foi então que lembraram do bombeiro Jonas. Jovem e bem de preparo físico. Poderia tentar acessar o local. Ele foi de boa vontade, ou pelo menos tentou aparentar. Desceu o pequeno barranco, pôs metade do corpo dentro do carro pelo para-brisas quebrado. Avistou uma mulher e um homem pendurados pelo cinto de segurança. De ambos os corpos um restante de sangue vertia. Não era preciso tocá-los, Jonas sabia que não tinha mais como ajudar.
— Estranho — ele disse aos colegas quando voltava para a central — os corpos tinham perfurações arredondadas como se alguma coisa os tivesse milimetricamente atingido.
Lima, um bombeiro mais velho sorriu.
— Ainda não viu nada, Jonas. Cenas de acidentes não costumam a ser bonitas. As pessoas morrem de todas as formas possíveis dentro de veículos.
— Mas o que causaria aquele tipo de ferimento?
— Ferragem, galhos, ataques de animais… pedras que se soltam em alta velocidade, até objetos no interior do veículo. Vai se saber o que mais. A minha dica é não pensar, não fique imaginando coisas, isso só atrapalha.
Jonas preferiu não falar nada, mas que aquilo pareceu intencional, pareceu.
O acidente chocou a pequena cidade no interior, mas o desaparecimento de uma jovem amiga do casal era ainda mais comentado. Os pais juravam que ela pegaria carona com eles para regressar do sítio dos avós, porém, não havia mais ninguém no carro. As teorias eram várias: gravidez, fuga com o namorado, suicídio pela morte dos amigos. Nunca passaram de teorias, pois não se teve notícias da moça nunca mais.
Uma semana depois, o bombeiro estava a caminho de seu segundo acidente, em uma estrada vicinal muito próxima à da fatalidade anterior. O carro, dessa vez, estava jogado de lado na estrada. Um sujeito que, aparentemente, caíra para fora do veículo, jazia morto com marcas arredondas na nuca e cabeça. Outro homem estava morto, esmagado dentro do carro.
Jonas estava convencido de que havia coisa errada naquele cenário e pôs-se a andar pela estrada de chão. Marcas imponentes de pneus estavam desenhadas na poeira, próximas aquelas que deviam pertencer ao compacto Citroen AX. Um rastro pelo chão indicava que algo havia sido arrastado pelo solo.
A polícia civil compareceu ao local. Um sujeito atarracado com bigodes tingidos de nicotina, chamado Ricardo, cumprimentou os bombeiros. Jonas perguntou se a polícia estava investigando os acidentes, afinal, já eram dois.
— Na verdade, não, meu jovem, estamos voltando de uma fazenda onde foi registrado o desaparecimento de uma mulher. Agora descobri que é filha do homem morto dentro do carro. Muita desgraça em uma família só.
— Em outra, não?
— O que quer dizer?
— O senhor não acha estranho a forma como aquele homem morreu na grama?
— Ora, meu jovem, alguma coisa deve ter se desprendido do carro e atingido a sua cabeça. Como bombeiro, você devia saber mais do que eu.
— Como o que?
— Ein?
— Se alguma coisa tivesse batido na cabeça do sujeito creio que a encontraríamos por perto. Eu já chequei, não há nada.
— Acha que esses homens foram mortos?
— Sim, justamente como aquelas pessoas na semana passada. E acho que uma pessoa foi levada de cada carro.
O homem gargalhou.
— Por isso você é o bombeiro aqui e eu sou o policial. Meu jovem, se alguém deveria ser culpado seria o prefeito por deixar essas estradas em tão mau estado. Acontece.
Dois dias depois.
Novo acidente. Novo desaparecimento. Mais três corpos com marcas circulares. Dessa vez Ricardo resolveu investigar, porém, estava bem atrás do bombeiro Jonas.
O jovem já tinha delimitado um perímetro nas estradas onde os acidentes ocorreram. Com um drone sobrevoou várias propriedades ao redor em busca de uma caminhonete que justificasse as marcas no chão. Conversou com vizinhos, certificou-se de que um homem estranho havia se mudado recentemente.
Ao anoitecer, saiu andando pelos campos, até se aproximar o suficiente de sua propriedade. Chegou até um galpão com grandes frestas na madeira. Ao aproximar apenas um olho, encontrou três mulheres penduradas. Duas estavam com grandes ganchos atravessando as gargantas e o cheiro da morte lhe causou enjoo. Uma terceira estava suspensa no ar, com os braços abertos e ganchos atravessando as mãos. Jonas a ouvia chorar baixinho.
Ele devia ter chamado a polícia, até mesmo um colega dos bombeiros. Mas seu primeiro impulso foi o de adentrar o galpão e tentar tirar a garota dos ganchos.
Jonas notou tarde demais que dois cães negros de uma raça que ele desconhecia dormiam satisfeitos no chão. Quando olhou os pés das três garotas notou a falta de pele, carne e até de alguns ossos e então percebeu por que eles estavam tão sonolentos.
Foi a empolgação que fez com que a vítima que ainda vivia gritasse por socorro e acordasse os cães que, imediatamente avançaram sobre o jovem bombeiro.
Ele acordou-se amarrado em uma cadeira. Tinha ferimentos nos braços, pedaços de carne faltando nas panturrilhas e uma dor latejando o lado esquerdo da cabeça. Um homem desprovido de couro cabeludo, com um olho vazado lhe observava. Os cães estavam ao seu lado, imóveis, como gatos adestrados.
Jonas ficou algum tempo naquela posição. Ele não tinha certeza se chegou a ser um dia. A boca toda estava ressecada, não tinha mais saliva para o ajudar. Os membros formigaram e por fim adormeceram, mas não deixaram de doer. O homem voltou ao local onde ele estava e o arrastou com uma força descomunal. Jogou Jonas no banco traseiro de uma velha caminhonete e pôs-se a dirigir em silêncio. Passou por muitos carros na estrada, Jonas sabia o que ele procurava.
No primeiro carro onde havia uma garota ele manobrou e passou a seguir o automóvel em alta velocidade. Grudou a imponente caminhonete duas vezes, tirando o carro da estrada.
Desceu.
Demorou.
Voltou com uma jovem, arrastando-a pelos cabelos e a jogou na carroceria fechada. Então foi a vez de jogar Jonas no chão e arrastá-lo até o local do acidente. Deixou-o no solo, próximo ao local em que jaziam corpos de um casal. Matou Jonas enfiando um gancho enferrujado em seu peito, várias vezes, depois o desamarrou.
Enquanto tirava as cordas, o homem pegou a carteira que Jonas tinha no bolso. Abriu-a e encontrou uma foto do jovem imponente, parado em frente a um caminhão de bombeiros. Voltou a seu veículo e riu com a ironia, imaginando a expressão no rosto dos colegas quando encontrassem a pequena surpresa que ele deixou ali.
Riu tanto que quase perdeu o controle do carro. Então lembrou-se de que era a hora de partir mais uma vez.
Na casa que não era sua, alimentou bem os cães e colocou-os no carro. Deixou os restos no galpão. Ossos, vísceras e órgãos. Levou consigo somente o necessário.
Não ficava muito em lugar algum, as estradas do interior do Brasil eram cheias de curvas, esperando para serem percorridas.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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