O Boneco do Fofão

Muitos crimes simultâneos chocam o sul do Brasil. Nenhuma vítima tinha ligação entre si. Nenhum suspeito. Apenas um detalhe perturbador une todos os crimes: um boneco do Fofão.

7/22/202610 min read

Santa Maria – Rio Grande do Sul

Janeiro de 1986

A família Rocha havia tido um bom Natal. Moira comprou uma nova máquina de costura, Carlos um Del Rey 1984 e deram para a filha Aline um boneco do Fofão. Costumavam a ser uma família tranquila, Aline era uma criança mais do que perfeita e Moira esperava o segundo filho. Tudo corria perfeitamente bem, até agora.

Moira estava sentada nos degraus em frente a antiga casa de fazenda dos seus pais, com um rosário entre as mãos e o corpo todo trêmulo. Apenas um cão lhe fazia companhia, o restante da família andava pela propriedade. Um vizinho tinha ido até a cidade chamar a polícia. Aline estava logo ali, no fundo do pátio brincando, de repente, desapareceu. Moira gritou, chamou, procurou. Nem sinal. Pela primeira vez na vida passou uma noite longe de Aline.

— Já se passou um dia inteiro — ela disse sem perceber enquanto mudava de conta no rosário, em uma oração que não era contínua para combinar com a fé já acabada. Sabia que Aline não seria encontrada. Não viva.

O grito de desespero veio do quintal dos fundos.

Ana não entendeu por que o irmão Mateus pediu ao Papai Noel um boneco do Fofão. Já achava aquele sujeito horrível na televisão, uma coisa que não se sabia se era humano ou animal, pessoalmente então, devia assemelhar-se ao próprio capeta. Escondeu-se embaixo da mesa assim que Mateus tirou aquilo do embrulho. A mãe passou trabalho para convencê-la a sair de lá.

O problema era que dividia o quarto com o irmão e o boneco foi parar justamente lá, na prateleira de brinquedos. A menina, de apenas quatro anos entendeu o que era o medo. Não dormiu nas noites seguintes e conseguiu convencer o irmão a manter o boneco de costas para eles, o que não adiantou muito.

Mateus não ia contar para a mãe, mas estava decepcionado com o boneco. Ele não era fofo coisa nenhuma, era cheio de bolinhas dentro e quando ele o abraçava sentia uma coisa dura em seu interior. Dessa forma, o Fofão ficou em um canto, atirado. O interesse se perdeu bem mais rápido do que em outros brinquedos.

Em uma madrugada qualquer, uns dez dias depois do Natal, Ana acordou-se com um barulho no quarto, sentiu um leve peso sobre sua cama, perto dos pés. Enfiou a cabeça embaixo das cobertas, mas pôde ouvir o ruído na porta. Encorajou-se e olhou a prateleira de brinquedos. A luminária de peixinhos projetava um aquário móvel nas paredes do quarto, através da luz, ela notou que o boneco não estava em seu lugar. Saiu correndo das cobertas e enfiou-se na cama dos pais. Automaticamente, a mãe chegou para o lado e Ana dormiu ali, segura e tranquila, uma última vez.

Na manhã seguinte, Mateus estava calado. Comeu o cereal com leite que a mãe colocou em uma tigela, sem falar nada com ninguém. A mãe sempre preparava o café para a família antes de irem para a escola, mas estavam de férias agora e aquele seria o dia da viagem ao zoológico de Sapucaia, o maior do estado. Nenhum deles chegou lá.

O policial Fausto Lima estava em uma cena de crime, algo que esperou nunca presenciar na vida. Bem, não cenas de crimes, a brigas de bar, tiroteios, bêbados faqueados estava acostumado, aquilo ali, não. Uma família inteira estava morta. Pai, mãe, três filhos e um cachorro. A casa trancada pelo lado de dentro, sem sinal algum de invasão. No pescoço do pai encontrava-se cravada uma estaca preta, como se fosse uma adaga, a possível responsável por ceifar todas as vidas ali dentro. Não havia suspeitos, não havia motivos. O que indicava era que, uma daquelas pessoas ali era a responsável pela chacina e pela própria morte.

Fausto andou até o quarto das meninas, no fim de um corredor. Estava religiosamente organizado. Na parede um pôster do Roxette, o sinal de que uma adolescência fora interrompida ali. Em cima de uma cama, um boneco do fofão, estranhamente escorado em um travesseiro, Fausto tocou nele e sua cabeça separou-se do corpo, que caiu sobre a cama, virando algumas bolinhas de isopor do seu interior.

— Estranho.

— Inspetor Fausto, o delegado pediu que o senhor deixasse os demais aqui e fosse até outra cena do crime.

— Outra?

— Sim senhor, disse o policial novato parado na porta. Aconteceu… bem… é melhor o senhor ver com seus próprios olhos.

Era uma residência a cerca de meia hora dali. Pai, mãe e dois filhos caídos na cozinha de sua casa. Tigelas de cereal e xícaras de café viradas. Cada um jazia no chão próximo ao outro. Das bocas escorria uma substância estranha, rostos vermelhos, olhos arregalados.

— Veneno — Fausto disse — meu Deus do céu! Uma família inteira envenenada! — o homem colocou as mãos na cabeça.

Fausto havia largado o cigarro há mais de um ano, mas agora seu corpo gritara por nicotina, ou fumaria um ou teria um troço. No mesmo dia, duas famílias mortas, nunca se incomodou com cenas de crime, mas a barbárie imperou naquele dia. Pareciam crimes isolados, porém havia algumas coincidências. Ambas as casas estavam fechadas pelo lado de dentro e segundo depoimentos de conhecidos, nenhuma daquelas famílias tinha inimigos ou motivo algum para serem brutalmente assassinadas.

O delegado suspendeu as férias de alguns policiais para atuarem nos crimes. No período pós-natalino as coisas costumavam a ser tranquilas, eram as épocas dos afogamos nos pequenos rios e açudes e de alguns acidentes de trânsito com morte, já que o uso do cinto de segurança não era obrigatório. Aquela nunca foi a época da chacina, na verdade, época nenhuma era.

Na delegacia Fausto analisava as poucas fotografias de ambos os crimes, não podia descartar as coincidências entre eles, ainda que se tratasse de casos isolados, aparentemente. Na casa dos envenenamentos não pareceu que o menino morto estava abraçado em um boneco do Fofão. Nome da criança: Mateus. Como Fausto não viu aquilo quando estivera lá? Procurava nas fotos da outra família se havia alguma do boneco quando foi chamado ao Instituto Médico Legal.

Não queria entrar lá. Ele tinha dois filhos, depois do divórcio pouco os via, mas os amava e não tinha como evitar pensar neles quando via corpos de crianças. “E se fossem os meus?”. Deixou os pensamentos toscos de lado e foi trabalhar. O legista tinha muita coisa a dizer.

— Sobre a primeira família. O objeto perfurocortante preto encontrado no corpo do pai foi utilizado em todas as vítimas, como estava no pai e ele tinha sangue em abundância nas roupas, é possível afirmar que matou a família inteira e se matou.

— Ninguém interveio?

— Há ferimentos de defesa nas mãos da mãe e uma das crianças. A mulher também tem um hematoma grande no rosto, ela pode não ter tido condições de fazer nada. Ainda estou trabalhando para tentar entender quais mortes ocorreram primeiro, mas, como o intervalo entre elas deve ter sido mínimo, será difícil precisar.

— Jesus.

— É, parece que ele andou esquecendo essa cidade. A segunda família foi envenenada com chumbinho, é comum nas casas das pessoas e fácil de comprar. O perito forense afirmou que o leite estava envenenado, os adultos o ingeriram com café, as crianças com cereal.

— Parece que não tem ligação.

— Então, também me parecia exatamente isso inspetor, mas encontrei bolinhas de isopor no interior de todos os corpos. Não sei como explicar, mas parece que todas essas pessoas comeram uma quantidade significativa de pequenas bolinhas de isopor, o que poderia até ter sido letal se não fossem os demais fatores.

E o médico pôs-se a levantar todos os lençóis e mostrar corpos brancos, lavados, com o Y talhado na pele, ao lado de cada corpo, um saco com bolinha de isopor.

— E por mais estranho que pareça, essa garotinha que chegou aqui um dia antes, também tinha isopor em seu estômago.

Fausto gelou ao olhar mais uma criança morta, acomodada naquela mesa fria, devia ter uns sete anos, a idade do seu filho mais velho.

— Aline Rocha. Estava no interior com os pais, desapareceu, foi encontrada um dia depois dentro de um poço.

Fausto foi embora. Aqueles dias já tinham sido pesados demais. Como entender as bolinhas de isopor nos corpos? Por dias a fio andou como um cachorro atrás do rabo. A investigação não evoluía, não tinha nada a provar e estava próximo de desistir. O pai esfaqueou a família ponto. Alguém pôs veneno no leite na outra casa, ponto. O colega que dividia a responsabilidade pelos casos concordava, mas o inspetor sabia que tinha alguma coisa erra ali.

E o sono começou a lhe faltar na mesma medida que as guimbas de cigarro abundavam em um cinzeiro, na mesinha de centro, em sua sala. Na televisão preto e branco passava um filme de assassinato, Fausto levantou-se e trocou de canal. Madrugada. Uma igreja evangélica tinha um programa quase sensacionalista. Um pastor gritava na tela:

— O inimigo destrói a sua família. Ele dá um jeito de entrar na sua casa e destrói sua família por dentro. Não abra a porta para o inimigo!! Agora ele está usando as crianças! Não compre esse boneco para os seus filhos!!

E o pastor expôs para a câmera um boneco do Fofão, arrancou a cabeça do corpo e mostrou que ela era suportada por um objeto pontiagudo. Na televisão sem cores, Fausto notou que era um objeto escuro.

— É essa adaga negra que vai acabar com a sua família. Esse boneco é maldito! O ator que interpreta ele fez um pacto com o demônio - e a plateia gritou em alvoroço - é a forma dele espalhar o mal pelo nosso país. Irmãos! Fechem a porta para satanás.

Fausto teria rido, em qualquer outro dia teria rido, em qualquer outra situação teria rido. Contaria aos amigos no trabalho, imitaria o pastor em bares, enquanto tomava uma gelada, porém, não achou a menor graça. Era a adaga negra que ceifou a vida de uma família, justo na casa em que o boneco não sustentava mais a cabeça. Na casa da família envenenada o boneco estava nos braços de um garoto, era o que ligava todos os crimes, porém, ele não fazia ideia alguma de como contaria para o delegado, acabaria sendo xingado e passando vergonha. Bem, talvez não. Poderia ter mais uma evidência a seu favor além da presença do boneco e das bolinhas de isopor nos corpos.

Moira Rocha estava hospitalizada, sofreu um aborto espontâneo logo depois de receber a notícia que Aline estava morta. E tinha achado bom, não era justo ter outro filho, não era justo com Aline que uma outra criança pudesse viver enquanto ela estava morta. A filha querida jamais seria substituída. Moira se preparava para viver infeliz até o dia em que pudesse reencontrar Aline.

— Outro policial — ela disse quando Fausto entrou no quarto — eu sei, eu devia ter cuidado, mas ela estava logo ali e em instantes não estava mais. Nunca imaginei…

— Senhora, onde está o seu marido?

— Foi no cemitério, mas a culpa não é dele.

— Não vim aqui culpar ninguém. Sinto muito o que aconteceu com a sua família, vim fazer uma pergunta, talvez um pouco estranha.

A mulher nada disse, estava medicada, os olhos vidrados, os movimentos lentos.

— Sua filha tinha um boneco do Fofão?

Ela assentiu.

— Ganhou de Natal. Não sei onde está o boneco, policial.

E Moira pegou um envelope ao lado da cama e começou a revirar algumas fotos.

— Foram reveladas recentemente, ainda não tive coragem de olhar. Achei, aqui. Pode levar essa, policial.

Fausto pegou uma fotografia tirada em um grande quintal com árvores no fundo. Aline sorria com dentes da frente faltando, os cabelos estavam bem arrumados. Trajava um vestidinho branco com uma tira azul na cintura, nos pés meias brancas dobradas nas canelas expondo babadinhos e uma sapatilha branca de fivelas. A foto era quase uma pintura, não fosse pelo boneco que ela segurava nos braços.

O policial sabia exatamente onde procurar. Foi até a delegacia e pegou o endereço da fazenda, em menos de uma hora encontrava-se no interior.

Caminhou pelo grande quintal até encontrar o poço. Podia imaginar cada passo da menina com suas meias de babadinhos, andando naquela grama atrás do boneco desaparecido. Qual não foi sua surpresa ao encontrá-lo sentado sobre o poço. Olhou a tábua velha que cobria o poço e a parte que se partiu. Imaginou Aline com as sapatilhas suspensas no ar, o corpinho debruçado sobre a tábua, tentando alcançar o boneco e o momento em que a tábua se partia e os dois despencam, metros e metros chão adentro, naquela imensidão escura, com água fria e parada no final. Fim do poço, fim de uma vida que estava no início.

O boneco estava dentro do poço, inocentemente boiando na água, Fausto precisou de uma lanterna para enxergá-lo. Com o auxílio de uma taquara colocou o brinquedo no balde que servia para tirar água e puxou a corda. A inocente criatura estava em suas mãos rapidamente.

De volta ao carro, Fausto pensou em levá-lo ao delegado, contar de onde o tirou. Pedir que abrisse o interior e descobrisse se ele possuía a adaga negra, bem como o da família envenenada. O que a polícia faria com uma história assim? Assustaria a população, no máximo, passaria vergonha, o que seria pior, mas Fausto estava convencido de que o boneco tinha relação com todos os crimes.

Jogou o brinquedo no assoalho do Escort e rumou à cidade. Vinha passando pela garganta do diabo quando sentiu a direção do carro travar. Fausto tentou controlar o carro, mas de repente, a direção torceu para a esquerda e o motor rugiu com o barulho alto da aceleração que não era causada pelo motorista. Fausto tentou frear, mas não conseguiu. O carro arrebentou o guard-rail e girou no ar umas três vezes até colidir com o solo lá embaixo, acabando com as rodas para cima.

Quinze dias mais tarde

Uma loja de brinquedos na cidade liquidava o estoque que adquiriu demais para o Natal e não vendeu. Panfletos distribuídos nas sinaleiras anunciavam os bonecos do Fofão com cinquenta por cento de desconto. Quando as portas abriram de manhã cedo, eram filas de pais e crianças frenéticas esperando. Adentraram a loja correndo rumo à sessão de bonecos.

O estoque de 100 bonecos do Fofão acabou em duas horas.