O bucheiro

A chegada de um desconhecido desperta desconfiança em um vilarejo do interior gaúcho. Entre violência, preconceitos e segredos, nem tudo é exatamente o que parece.

8/1/20267 min read

De forma estranha e repentina aquele sujeito chamado João Joaquim havia se mudado para o pacato povoado dos Olhos D’água, na estrada da Mineração, interior de Cachoeira do Sul. Chegou em um dia, já ninguém sabia precisar qual, quando entardecia, depois de uma chuva de verão que refrescou a pampa e umedeceu a mata.

Ele chegou conduzindo uma carreta puxada por dois bois, um cavalo trotava amarrado na parte de trás, um cusco ovelheiro sentado ao seu lado, desfrutando de sua confiança mais do que qualquer pessoa poderia vir a desfrutar. Dentro da carreta trazia tudo o que ele tinha na vida, que não passava de meia dúzia de coisas. Não deu bom dia nem boa tarde para ninguém pelo caminho por onde ia, nem mesmo cumprimentou com a cabeça, e desta forma ganhou a antipatia do pequeno povoado.

Apeou em uma tapera, atrás do cemitério local, uma casinha que teve muitos donos, porém ninguém parava ali por causa das assombrações. Dizia-se aparecer de tudo: noivas flutuando entre os túmulos, crianças que choravam nas noites, velhos vestidos de terno que esperavam frente às portas dos mausoléus. João Joaquim nunca se importou, certa feita disse a algum abelhudo que conhecia homens demais para ter medo de fantasmas e foi só o que se soube que ele disse, era um homem extremamente calado.

E os boatos logo começaram a tomar formato. Uns diziam que ele tinha vindo das bandas de Cruz Alta, foragido de uma cadeia. Outros diziam que ele era de Laguna e vinha vagando de lá, de tapera em tapera, após ter assassinado um homem. Havia quem dissesse que veio de Rio Pardo depois de ter matado a família toda. Ele mesmo, nunca dizia nada, nem quando perguntado.

Mas entre todos os boatos, todas as especulações, o final da história era sempre o mesmo: João Joaquim era um homem violento. Talvez ninguém nunca tivesse ciência de suas façanhas anteriores, mas ele tinha um olho vazado e um taio no meio da cara, certamente não tinham sido adquiridos ajudando nenhum padre a rezar missa.

Os fazendeiros da região não puderam se importar, a mão-de-obra estava cada vez mais escassa, com o povo todo resolvendo morar na cidade. Logo descobriram que João Joaquim tinha força, habilidade para a lida do campo e que não tinha preguiça. Poderia muito bem trabalhar de sol a sol sem dizer uma palavra de reclamação.

Batiam em sua tapera de noite, quando viam o lampião aceso e o contratavam de boca. Logo, o homem foi ficando com poucos dias vagos. A casinha foi reformada, nos fundos ganhou uma horta e ele andava pela vizinhança trocando sua colheita, as mães até pararam de mandar as crianças entrarem quando ele passava na rua.

As suas mais belas hortaliças guardava para Suyane, uma vizinha cujo a casa era a mais próxima na via lateral do cemitério, uns 400 metros. Ele não sabia por quê. Talvez fosse porque nunca tinha visto uma mulher de olhos tão azuis, pele tão clara, cabelos tão loiros. Ora, é claro que tinha visto muitas, as descendentes de alemães eram comuns por toda a parte no sul, como a maioria delas, Suyane mal falava o português, ele talvez não tivesse encontrado nenhuma com uma cintura tão fina dentro de um vestido. Era bela, até demais, mas sua beleza não combinava com os olhos constantemente roxos, os braços lanhados, os passos mancos ou as mãos calejadas de quem trabalhava demais.

Ele começou a fazer pequenas visitas semanais, deixava-lhe repolho, couve-flor, abóboras de pescoço. Ela retribuía com compotas de pêssego, que ele amava, às vezes marmelada, que devorava em alguns instantes ou com seus doces de abóbora de casca durinha e interior macio, ele poderia muito bem se acostumar aquilo tudo.

Certo dia João Joaquim foi chamado na Fazenda Esperança, o dono planejava fazer uma grande carneação. Logo que chegou foi interpelado por um sujeito robusto e corpulento, que falou com João a apenas alguns centímetros de distância de seu rosto.

— Tu tens visitado minha mulher?!

Ele seguiu fumando palheiro sem hesitar, largando a fumaça na cara do patrício.

Respondeu depois de um tempo proposital, sem alterar a voz:

— Não visito mulher alguma, senhor.

— Não mente! Vi os repolhos na cozinha.

— Eu troco o que produzo na minha horta com toda a vizinhança, senhor. Sou sozinho, cozinho mal, então levo a colheita pelas casas, em troca aceito qualquer coisa. Quem seria a sua esposa, senhor?

— Está fazendo que não sabe com quem sou casado?

— Desculpe, senhor. Não o conheço e nem a sua esposa, não sou um homem dado a conversas de lavadeiras — o peão ao lado deixou escapar um sorrisinho.

— A minha mulher é a alemoa. Não quero que tu chegues mais na minha casa quando eu não estiver!

— Sim, senhor. Peço que me desculpe, nunca imaginei que causaria problemas.

O homem foi embora sem nada dizer, então o rapaz que acompanhara a cena lhe contou que Suyane costumava a ser ainda mais bela, logo que chegou das colônias acompanhando Mauro, mas que o homem andava irritado ultimamente, queria ter filhos e ela nunca engravidava, então tinha passado a gastar as noites nos bolichos se enchendo de cachaça e Suyane sofria quando ele chegava.

O rapaz ainda acrescentou que era o segundo casamento de Mauro, a primeira esposa repousava no cemitério local, sua morte misteriosa nunca foi esclarecida e sua mãe, que recentemente passou a repousar ao lado, morreu acusando Mauro de matá-la, porque não puderam ter filhos.

João Joaquim nada disse. Caminhou com o rapaz até a sombra, onde dez vacas esperavam em uma mangueira e sete homens afiavam facas, amarravam cordas e ganchos. O patrão anunciou que o sangrador tinha adoecido e não poderia comparecer à carneação. Perguntou qual dos homens se voluntariava, era a tarefa mais difícil, nenhum deles se pronunciou.

— Eu sangro — disse João.

O patrão lhe alcançou a faca carneadeira com um sorriso que mais era um desafio. Porém lhe deu dois tapinhas nas costas quando João perfurou a primeira traqueia com um único golpe. A faca fez o caminho certeiro logo abaixo da mandíbula do bicho, atravessando traqueia, esôfago e a jugular, permitindo que o sangue escorresse livremente.

— Tu sangras porco também? — perguntou o patrão.

— Ainda mais fácil — respondeu João — eu vivo de changa, senhor, faço o que tiver pra fazer.

João Joaquim bem que se divertiu naquele dia com aqueles homens, carneação era quase que uma festa para aquela gente, mas em cada vez que afiou a faca, cada vez que meteu em um pescoço, lembrava do tal de Mauro, o valentão entre as mulheres. Teria a mesma coragem quando se tratava de homens? João Joaquim estava certo de que algum dia saberia.

No fim do dia o patrão lhe presenteou com os miúdos do gado, além de um bom pagamento.

— Conheces o ofício de bucheiro, João?

— Fiz muito quando mais novo, senhor. Posso dividir o lucro...

— É para ti, já peguei o que queria. E te chamarei mais vezes, faz tempo que não aparece ninguém bom de serviço por essas bandas.

João assentiu e agradeceu. Buscou a carreta, acondicionou buchadas, patas, fígados, corações e rins bovinos. A carreta ficou cheia e pesada. Conduziu-a pelas ruas de chão do povoado, ia gritando: “olha os miúdos” por onde passava. Rapidinho foi vendendo boa parte do que se encontrava na carreta. Os bolsos foram pesando de moedas, os vizinhos ficaram sorridentes com as iguarias que preparariam gastando pouco. Há tempos não viam um bucheiro.

Vinha passando na frente da casa de Suyane quando ouviu gritos em alemão e barulhos que tentou não pensar na origem. Ele ia somente cruzar reto, disse a si mesmo para não se meter, as coisas iam bem naquele local, pela primeira vez ele pensava em firmar residência, talvez arrumar um ofício e deixar de viver de changa. Mas quando ouviu Mauro xingar a mulher com tantas palavras que ele não ouvia nem em casa de chinas, parou a carreta. Ficou pensando no corpo frágil e magro da alemoa, sem chance alguma contra o marido avantajado. Ficou imaginando os olhos azuis arregalados, os cabelos claros manchados de vermelho em uma bela mulher sem vida.

— Oigalê diabo!!!

Abriu a porta do chalé com um único chute. Suyane estava deitada no chão, implorando, metade do corpo embaixo da mesa, o vestido rasgado. Mauro estava agachado, segurando a esposa pelos cabelos. Ele levantou-se rapidamente quando João Joaquim deu passos decididos para dentro da casa, fazendo as botas sujas ecoarem nas tábuas enceradas do chão. O homem abriu a boca para dizer alguma coisa, no entanto a voz virou um guincho animalesco quando João lhe cravou a faca carneadeira, diretamente no coração. Não como fez nas vacas, mas como se faz em porcos. Ele cambaleou uns dois passos e caiu morto, no chão de sua própria casa.

João juntou Suyane. Acomodou-a em cima da mesa, pegou um pano na cozinha, molhou na bacia e pôs-se a limpar seu rosto, suas mãos, seus braços.

Extremamente machucada, ela tremia e chorava, afastava-se de João a cada toque. Sem dizer palavra alguma ele saiu, encostou a carreta na porta da casa, pegou o corpo de Mauro e acomodou por baixo dos miúdos que ainda tinha. Saiu pelo povoado em direção ao matagal. Pelo caminho ainda vendeu mais algumas coisas. Um dos vizinhos comentou que a carneação fora recente pelo sangue que escorria da carreta.

Enterrou Mauro no meio do mato, as buchadas restantes por cima. Voltou para sua casa, se lavou, trocou as vestes, colocou o pouco que tinha na carreta.

Chamou o cusco, amarrou o cavalo. Na saída pegou um grande pedaço de babosa e foi até a casa de Suyane.

No local nem parecia que havia acabado de acontecer um assassinato. O chão estava limpo e encerado, a casa tinha o perfume das camélias que adornavam um vaso de flores na sala, e que João tinha certeza antes não estarem ali.

— Para os ferimentos — ele entregou a folha de babosa para Suyane — estou partindo.

Ela estava limpa, cheirosa. Havia beleza por trás dos cortes, dos inchaços e dos roxos. Aproximou-se e lhe beijou os lábios, de forma doce. Era a primeira vez que lhe beijavam, a primeira vez pela qual não precisou pagar. Ele enfim tocou a cintura que tanto cobiçara.

Mauro foi procurado em casa quando não apareceu para trabalhar, a casa estava abandonada com toda a mobília dentro, não havia nem sinal de Suyane. O rancho de João Joaquim tinha voltado a ser tapera, tão tapera quanto antes dele chegar.

Ninguém nunca ficou sabendo o que aconteceu com aqueles três. Mas os boatos começaram a tomar forma. Uns diziam que Joaquim matou Mauro e Suyane. Outros que Mauro os havia encontrado juntos, matado os dois e depois fugido. Havia quem dissesse, que na calada da noite, a carreta de João Joaquim foi vista silenciosamente nas estradas, com a alemoa sentada no banquinho, repousando a cabeça no ombro do bucheiro, enquanto braço dele enlaçava sua cintura.