O sacristão

Em um vilarejo assolado por estranhos surtos de violência, um padre acredita enfrentar demônios. Enquanto os exorcismos se multiplicam, o verdadeiro mal avança silenciosamente entre os fiéis.

7/28/20262 min read

O padre jogava água benta e repetia as rezas, todas em latim, mas não era suficiente. Já estavam por mais tempo do que costumavam a ficar. Juan, o sacristão, não acreditava que daria certo. Mas não poderia dizer ao padre. Ele provavelmente o acusaria de pouca fé, o culparia pelo ritual estar falhando ou poderia chamar-lhe de herege, como fez na última vez.

O aldeão se contorcia, amarrado naquela cama, seu corpo tremia, fazia movimentos quase inumanos. A boca espumava, os olhos estavam vermelhos. Não tardou e morreu. O corpo ficou ali, em uma cena deprimente e fétida, que se repetia naquela igreja, pela quinta vez seguida.

Juan estava decepcionado com o padre. Por que não lhe ouvia? Por que se dava ao trabalho de atribuir tudo como obra do diabo? Mas ele sabia bem a resposta, para continuar sendo o dono da verdade e poder cobrar mais dízimo dos aldeões.

No escuro, acendeu uma vela naquela noite. Em um pedaço pequeno de papel fez anotações: tremura, corpo descontrolado, olhos vermelhos, boca espumando, medo de água. Notou que todas as vítimas do diabo tinham marcas de mordidas e ferimentos graves pelo corpo. Traçou um mapa da pequena aldeia e encontrou um caminho comum.

O sacristão fez campana por lá, de noite. Não viu que ao sair o padre lhe seguia. Demorou, mas um animal enorme, peludo e feroz saíra da mata. Era um lobo. Juan levantou a lamparina, notou que a boca do bicho salivava e tinha os olhos vermelhos tais quais as pessoas mortas. Suas suspeitas estavam certas, aquelas pessoas morreram de algum tipo de doença, que até então ninguém conhecia.

Pensou em capturar o animal e estudá-lo. Foi bem quando resolvia que atitude tomar, que o padre saiu de trás das árvores.

— Maldito! Eu sabia que era burro, mas não que estava mancomunado com o demônio! Você vai para o inferno, Juan!

O sacristão ia dizer algo. Não deu tempo. Ao ouvir os gritos do padre, o lobo se avançou sobre o eclesiástico. O padre bem que começou a chamar alguns santos e fazer algumas rezas, mas logo foi interrompido pelos próprios gritos de dor. Ele não morreu doente como aqueles que tentou curar, morreu ali mesmo, não rapidamente. O lobo lhe retalhou e colocou suas vísceras para fora, esparramando pedaços pelo redor.

Juan ficou atônito. O lobo não havia feito menção de atacá-lo até o momento em que o padre gritou. Ele não soube como reagir e só ficou observando o animal estraçalhar sua presa e depois fugir pela floresta.

Se aproximou para dar a extrema-unção, mas o padre fez questão de morrer antes, achava mesmo que Juan tinha um acordo com o coisa ruim.

O sacristão lamentou, não pelo padre, nem gostava dele, mas pelo lobo que sumiu floresta adentro e agora não sabia mais se conseguiria encontrá-lo. Perdeu a chance de tentar descobrir o que de fato ceifou a vida daquelas pessoas. Com o clérigo morto e retalhado, a história de que o capeta não respeitava nem a igreja espalharia pânico na pequena comunidade.

Lentamente dirigiu-se aos seus aposentos. Ia pedir ajuda com o corpo e depois decorar o livreto de exorcismos, com certeza se veria obrigado a usar em mais alguém.