O tripulante Português

Impedido de seguir seu maior sonho, Martin encontra no oceano um pesadelo muito mais antigo do que qualquer tempestade.

BESTIÁRIO DAS TREVAS

7/19/20266 min read

Martim Coimbra Gama navegava pelo oceano e chegava lentamente ao Porto de Leixões, na cidade de Porto, em Portugal, como sempre sonhou em sua vida. Na mão esquerda trazia um tesouro: o mapa cartográfico feito à mão, que teria sido desenhado pelo seu ascendente distante, o navegador Vasco da Gama.

As pessoas reuniram-se no cais para ver a chegada de Martim. Muitos anos depois, ele estava de volta a Portugal.

Martim Coimbra Gama cresceu com o sonho de ser um grande navegador. O pai dizia ser descendente de Vasco da Gama, Martim passou a infância tentando contar as sílabas de tatatatataravô… acabou desistindo.

A crendice no parentesco distante era tão grande que os descendentes daquela família, todos homens, deixavam de legado aos filhos o sobrenome, a profissão de marinheiro e um pedaço de papel escrito com uma caneta tinteiro. Era um mapa cartográfico, no qual o próprio navegador teria feito seus registros há mais de 500 anos.

Martim passou a infância admirando aquele desenho. E tentando interpretar qual parte da costa continental ele representava, podia ser qualquer lugar no mundo. O pai lhe contava que os antigos navegadores viam o oceano como um infinito de mistérios, o que justificava os buracos negros e monstros representados ali.

Tanto o menino manuseava aquele pedaço de papel, que o pai mandou plastificar, na esperança de salvá-lo para as próximas gerações. Ninguém nunca se certificou de nada naquela história, nem do parentesco e nem do mapa, mas a crença de toda aquela família fez com que os fatos se tornassem mais do que reais.

Quando olhava o mapa, o menino não entendia um desenho pontual, quase um rabisco. Era como se, de dentro do oceano, surgisse um mastro e no borrão preto ele enxergava uma caveira. Martin ficou vidrado naquilo, passou a fazer parte de seus desenhos escolares e de seus sonhos.

Quando ele tinha mais ou menos oito anos se descobriu que talvez, não poderia ser marinheiro. O primeiro em incontáveis gerações, além do grave estrabismo, Martim tinha dislexia. Um transtorno de aprendizagem. O pai se tocou que ele jamais seria capaz de passar nas provas e a decepção foi maior do que amor que nutria pelo filho.

O divórcio veio logo após aquela descoberta. A mãe tentou convencer Martim de que a culpa não era dele, mas sua teoria caiu por terra quando o pai parou de vez de lhe procurar e apareceu em sua casa, anos mais tarde, para pedir o mapa. Queria deixar de herança ao novo filho recém-nascido, esse sim era um garoto sadio, e poderia se tornar marinheiro, o navegador do Século XXI.

Martim escondeu o mapa e se escondeu do pai. Nunca mais eles se viram, se quer notícias um do outro tiveram.

Sua mãe morreu tragicamente poucos anos mais tarde. Martim ficou jovem e de herança não havia nada. Suas dificuldades visuais e de aprendizagem lhe dificultaram a vida escolar, assim, nem os estudos terminou.

Acabou arrumando um emprego qualquer como serviçal de carga em grandes navios. Era o homem que ajudava a carregar e descarregar. Pelo menos estava no mar, onde sempre sonhou estar. Em seus pertences, sempre tinha o mapa cartográfico, sua única herança e lembrança de uma época feliz.

Mas cansou rápido do emprego que não era dos sonhos. Era um trabalho braçal, pesado e lhe recompensava pouco. Foi quando conheceu Tebogo, um rapaz órfão, natural da Somália. Em pouco tempo se tornaram melhores amigos, Tebogo lhe ofereceu vaga em um emprego que pagaria um tanto mais e traria mais emoções do que ficar escondido no escuro no porão de um navio qualquer. Não necessitava estudo, nem formação em nada. Sua dislexia não seria problema.

Em algum lugar na África, que Martim nunca soube identificar exatamente qual, aprendeu a atirar. Usava armamento pesado: metralhadoras, fuzis. Os homens, que agora eram seus colegas de trabalho, falavam mais de dez idiomas. Não entendia-se uma palavra se quer, mas a violência falava a mesma língua. Para Martim, aqueles sujeitos eram o mais próximo de uma família que ele já teve em anos. Sem pensar no que estava fazendo, por ali, arrumou paragem.

Seu trabalho voltou a ser no mar. Não em grandes caravelas como o ancestral, tampouco em modernos barcos de marinheiro. Navegavam mar adentro em embarcações que mal suportavam um vento mais forte. Cobriam os rostos com camisetas e nas mãos portavam armamento pesado. Martim agora era um pirata da Somália.

Em uma família de navegadores e marinheiros, era o primeiro pirata. Junto com aqueles sujeitos, rendia grandes embarcações solitárias no oceano e as obrigava a atracar. Tomavam conta dos navios e cargas e levavam até a Somália, onde tudo que estava sendo transportado tomava outro destino.

Em pouco tempo estava rico. Nem se quer tinha onde guardar o dinheiro e nem onde gastar. Não raro, distribuía altas quantias para mulheres e crianças pelas ruas de diversos países africanos.

Estava há quase um ano naquele arriscado e ilegal trabalho quando começou a enxergar um barco no horizonte, nas mais variadas rotas. Conforme sua pequena embarcação aproximava-se, o barco sumia, como uma miragem no oceano.

Martim nunca ligou. O pai disse para a mãe antes de ir embora que ele era um menino louco e disso nunca duvidou. Talvez os sinais fossem ficando mais constantes com o tempo.

O jovem português já não era mais o mesmo. A pele agora tinha a cor judiada do sol constante. Manchas inexistente há pouco tempo, passaram a macular sua face, costas e mãos. Os cabelos negros estavam crescidos pelos ombros, queimados pelo sol, chegavam a ser claros nas pontas. Fumava, bebia rum para celebrar uma tradição antiga dos pitaras. Comia pouco. Martim era mais magro do que os mastros dos navios que costumava sequestrar e saquear.

Nem sempre o trabalho era muito fácil. Às vezes as vítimas não se entregavam rapidamente, nessas horas o uso da força era inevitável. Eram tiros, mortes, corpos jogados ao mar. Martim acostumou-se aquilo e depois de certo tempo também fazia.

Em uma tarde qualquer estavam a ponto de encontrar um navio francês cujo a carga trazia obras de arte já encomendadas por um comprador. Partiram da costa da Mauritânia. Avistavam de longe a costa Marroquina quando uma tempestade se formou bem a sua frente. Assustado, o pirata no comando da embarcação tentou voltar, sabia que não havia condições de cruzar por tal fenômeno, porém o motor fraco parecia decidido a não lhe obedecer. Martim enxergou o grande redemoinho no qual já se encontravam dentro, que fazia a tempestade ficar ainda mais próxima.

Em minutos já não viam nada além de raios e da chuva densa que não se tinha certeza cair do céu ou respingar das ondas gigantes. Homens gritaram de medo. Ao lado da embarcação, uma fenda abriu-se no oceano e da escuridão daquelas águas, emergiu um mastro comprido, que na verdade era a proa de um grande navio. Abaixo dele, um esqueleto humano fazia as vezes de decoração.

Era o desenho de Vasco da Gama. Martim enfim entendeu que o ancestral esboçara o famoso Holandês Voador. Nenhum marujo acreditou na visão diante de seus olhos. Um cheiro pútrido dominou a atmosfera. Concentrados na visão assustadora esqueceram-se da chuva, do redemoinho e tampouco notaram a onda gigantesca, que virou o barco.

Martim sabia nadar, mas não o fez. O mar lhe conduziu para baixo do Holandês Voador. O casco era de madeira apodrecida, não havia como aquele navio não naufragar. Uma mão invisível lhe puxou para dentro, tão logo ele saiu do madeirame.

O silêncio imperava na embarcação. Não havia ninguém por ali. Martim chamou pelos companheiros, sem sucesso. Gritou várias vezes no convés, e assim, de portinholas, de trás de mastros eles começaram a surgir.

Eram piratas. Não como aqueles que Martin conhecia, porque seus companheiros costumavam estar vivos, aqueles ali estavam todos mortos. Para alguns faltavam membros enquanto outros eram apenas ossos. Martim devia sentir medo, mas não sentiu. Sabia que agora era como eles, pertencia a eles. Caminhou até seu lugar próximo ao mastro e começou a içar as velas. Navegaria agora com o Holandês Voador, em breve seria parte do navio como todos os outros tripulantes. Um pirata pela eternidade, antes a roubar cargas, agora almas. O Holandês acabava de ganhar um tripulante, esse oriundo de Portugal.

Martim Coimbra Gama navegava pelo oceano e chegava lentamente ao Porto de Leixões. As pessoas reuniram-se no cais para ver a chegada de Martim. Muitos anos depois, ele estava de volta a Portugal.

Removeram seu corpo das águas. Estava inchado, mordido de peixes. A mão esquerda, onde os dedos permaneciam intactos pairava sobre um estranho desenho plastificado.

O corpo de Martim retornou boiando à Portugal. Sua alma pereceria pela eternidade a bordo do temor dos mares: o Holandês voador.