O último Halloween
A festa mais aguardada do ano promete reunir toda a comunidade. Ao amanhecer, ninguém consegue explicar o que realmente aconteceu naquela noite.
7/24/20265 min read

— Não vai vir ninguém nesta festa.
Eduardo tinha repetido aquela frase mais vezes do que conseguira contar. Maiquele não respondeu. Já havia feito isso várias vezes. Venderam dois lotes de ingressos, o segundo foi impresso às pressas, não tinham achado que venderia tanto.
Os dois eram sócios em uma boate, tinham conseguido o próprio empreendimento depois de trabalharem de promoters para outras pessoas por anos. Mas então veio a pandemia, o fica em casa, a proibição das festas. Por um ano, quase dois. O resultado foi que não puderam manter o negócio e tiveram que vender a um preço bem abaixo do mercado porque não havia gente com dinheiro o bastante para negociar.
Sobreviveram.
Arrumaram empregos que detestavam, mas o que sabiam fazer bem eram festas.
Recomeçaram.
Era Halloween, sua primeira, o retorno.
A festa era rural. Folk Horror. Uma estradinha de chão, um pavilhão de uma igreja. A decoração era feita por espantalhos, abóboras, caveiras e feno. E tinha até mesmo na frente da igreja, o que tornou o pequeno lugar sacro um tanto macabro.
O ingresso prometia dois ambientes. O primeiro era o pavilhão, o segundo surpresa.
Havia desvantagem em fazer festas distantes da cidade, era a localização e a forma como as pessoas teriam que chegar lá. Mas tinha o lado bom: o sossego, a calmaria, a quantidade de ambientes imagináveis disponíveis, não tinha hora para acabar. A venda de bebida aumentava, a de entorpecentes rolava solta. Eduardo e Maiquele começaram desta forma e recomeçaram também.
Era tarde quando os primeiros carros começaram a chegar. Logo, o pátio da igreja lotou, o salão ficou cheio. A festa estava bombando. Homens e mulheres, em sua maioria jovens, usavam as mais variadas fantasias. Às três horas da manhã seria a abertura oficial da segunda pista. Ninguém tinha ido embora até então.
Quando chegou a hora marcada, iniciaram uma contagem regressiva, uma virada macabra. Os portões do fundo do salão se abriram e a música do lado de fora veio mais alta do que a de dentro. Todos correram para lá, as luzes neon iluminavam um cemitério, não um falso, mas um cemitério verdadeiro que ficava ali nos fundos da igreja.
O gelo seco em excesso formou uma espessa névoa por cima das sepulturas, como um filme de terror.
Era assustador.
Era halloween.
Estava perfeito.
Um que outro participante não gostou muito da ideia. Era estranho andar entre os túmulos de gente que repousava ali de verdade, perturbar o seu sossego.
Um que outro participante se perguntou se os donos da festa tinham pedido permissão aos mortos, a resposta era óbvia, não tinham.
Conforme a música começou a tocar, conforme a bebida subia para a cabeça acompanhada de outras coisas, todos curtiram a festa e dançaram entre os túmulos e sobre eles.
Eduardo, enfim, relaxou. Estava alto e feliz com o dinheiro que entrava naqueles caixas, ansioso para a festa acabar e ele enfim poder contar o lucro. Relaxou um pouco demais, talvez, porque não percebeu a movimentação no muro dos fundos do cemitério.
Atrás daquele muro havia um barranco e abaixo dele passava o rio que abastecia a pequena cidade. Escorado no muro, um sujeito. Aquele que tinha comprado a boate de Maiquele e Eduardo.
O cara que não queria concorrência.
Aos poucos ele chamava os convidados da festa. Dizia que tinha um presente, cortesia dos donos, e abria a mão cheia de pílulas coloridas. Chamava a atenção até de quem não usava. Os jovens o seguiam, alguns de curiosos, outros para buscar sua oferta. Mal sabiam eles que eram apenas as cápsulas vazias, compradas em uma farmácia de manipulação.
Ele pulava o muro, ajudava bruxas e vampiros a fazerem o mesmo, depois davam três passos até um pequeno altar no chão, com duas velas e uma abóbora esculpida, recheada do seu dito presente. Quando os jovens se abaixavam para pegar, ele simplesmente os empurrava.
Eles gritavam sim, mas numa festa com duas pistas de dança, quem ouviria? Nem os gritos e nem o barulho dos corpos caindo no rio.
Nem o próprio sujeito acreditou que seria tão fácil. Ele ia chamando, dois a dois, quatro em quatro, no máximo, sempre deu certo. Em algumas horas o público da festa diminuiu significativamente.
Amanhecia quando alguns jovens foram embora. Eduardo queria contar o dinheiro, mas estava tonto, achou melhor deixar para o outro dia. Foi com Maiquele até o caixa, procuraria os profissionais de apoio, combinaria o horário de retirada do equipamento, tudo certo.
— Halloween é a melhor época para o nosso retorno — disse Maiquele.
Dirigiram-se para a rua, porém o estacionamento estava repleto de carros.
Maiquele teve um arrepio.
— Cadê geral? — disse Eduardo andando entre os veículos, pensando que alguns casais poderiam ter esticado a noite ou que as pessoas poderiam estar bêbadas, dormindo ali.
Mas não havia ninguém. Apenas carros, de todas as cores, num grande estacionamento no campo.
Maiquele e Eduardo saíram a andar pelo local, pelo pavilhão, pela igreja e até pelo cemitério. Nada.
Quando estavam entre os últimos túmulos, Eduardo avistou um sapato feminino com salto fino cravado no solo, próximo ao muro. Ele caminhou até lá, seguido de Maiquele, pularam o muro para o outro lado. O rio passava ali? Eles não sabiam, que falta fazia as aulas de geografia.
Mas não era o escuro e barrento rio que rodeava a cidadezinha, ele estava agora colorido, repleto de fantasias e de corpos que as vestiam.
Maiquele gritou. Aquele poço que se formava naquela região do rio, tinha impedido os corpos de serem levados, eles ficaram ali, presos, boiando. Eram centenas.
Bruxas, vampiros e famosos assassinos do cinema afogados. A festa dos mortos, no lugar dos mortos chamou a morte.
— Como isso foi acontecer?
— Sei lá, estavam doidões, caíram.
— Mas como vamos explicar isso? Vamos passar o resto das nossas vidas na cadeia!
O cérebro de Eduardo funcionava lentamente, pesado pela noite e os entorpecentes.
— Não é culpa nossa.
— E quem vai acreditar? Vão nos ferrar! Nós não temos alvará, não temos nem licença para fazer festa alguma e quando investigarem o que rolou aqui...
— Simples, é só ir embora, dormir, amanhã a gente diz que saiu cedo.
— Eduardo, nós temos que chamar a polícia!
— Por quê?
— Olha o tanto de gente morta.
— Não é culpa nossa!
— Mas está tudo no nosso nome, a locação do salão, a contratação dos profissionais, não temos como escapar!
— No meu nome não tem nada, está tudo no seu!
Ela pensou em responder, mas não acreditou quando descia aquele penhasco de terra. O corpo batendo contra o solo, a roupa sujando, pelo estralo e pela dor, algum osso se quebrou no caminho antes do rio. Ela caiu no fundo, fundo demais. A água lhe deu um alívio no primeiro instante, como se provocasse no corpo uma sensação de repouso, de cura, mas então ela se tocou que ali estava muito gelado e depois, de que não respirava. Tentou bater os braços, as pernas, mas foi em vão. Algo doía demais. A saia de paetê preto justa dificulta seus movimentos. Ela queria chorar, mas estava em choque. Sempre pensou que morrer por afogamento era horrível e agora teria certeza, mas o que mais lhe doía é que aquele era seu último Halloween.
Eduardo entrou no próprio carro apressado. Bateu em outro veículo para sair do estacionamento, pouco se importou porque seu dono não reclamaria. Engatou a marcha e saiu levantando poeira pela estrada de chão, compraria novamente um carro automático, já que estava com todo o dinheiro da festa no porta-malas.
Ele não pagaria ninguém. A dona da festa estava morta. Aquela bagunça não lhe pertencia. Sentiu uma tristeza repentina, era amigo de Maiquele desde a infância. E se voltasse? E se pulasse no rio? Não. Era arriscado demais e também já não havia tempo.
— Perdão querida, foi só a oportunidade, não era pessoal — ele falou olhando pelo retrovisor, como se ela estivesse sentada no carro com ele, como sempre — no fim você estava certa, muita gente veio à nossa festa. Muitos foram embora, só que poucos voltaram para casa! É certeza que nosso retorno foi inesquecível.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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