O último verão
Quando o inverno toma o planeta, restam apenas estradas vazias, cidades abandonadas e uma voz repetindo uma promessa de salvação. Alice e Charles decidem acreditar nela.
O RUGIDO DA TERRA
7/28/20267 min read

As paredes do apartamento estavam geladas, não tinha mais energia elétrica. Os alimentos findavam-se, por sorte ainda tinham água. Decidiram deixar o apartamento, era difícil, poderiam morrer tentando sair dali, mas certamente morreriam se ficassem.
Alice e Charles eram estudantes. Alugavam um apartamento confortável em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Estavam sozinhos, não tinham nenhum contato com as famílias há semanas.
Em frente à porta, Charles beijou os lábios da amada com delicadeza e afirmou:
— Nós vamos conseguir.
Conseguir o que? Era isso que eles não sabiam.
Alice juntou tudo que achava que iriam precisar na jornada. Toda a comida que dispunham e água. Vestiram-se com a máxima quantidade de roupa que puderam. Fizeram o sinal da cruz e saíram.
Santa Maria era uma cidade castigada pelo frio, é claro, somente no inverno.
Alice lembrava de acompanhar nos noticiários: o solstício de inverno açoitava o hemisfério norte. Verão no hemisfério sul, um verão ardente. De repente, as mínimas batiam recorde em cima de recorde nos países do norte, não havia previsão de esquentar, mas era normal, era inverno. Na sequência, os noticiários informavam mortes por frio. Não era de todo incomum, até que o número de mortos pôs a população em alerta. As autoridades pediram que ninguém saísse de casa, então aconteceu o previsível: o caos. Cidadãos estocaram comida, tentaram deixar seus países em busca do calor. O tráfego intenso parou estradas, aeroportos foram fechados e, as pessoas começaram a matar umas às outras, em busca de sobrevivência.
O mundo tinha os olhos voltados para os países do hemisfério norte, cientistas não conseguiam explicar. Meteorologistas não previam o final do inverno, até que, previram que a massa de ar frio tomaria o hemisfério sul. Alguns não acreditavam, outros correram para encher as despensas e garantir que pudessem ficar em casa se fosse preciso. O frio chegou rapidamente. Veio invadindo a América do Sul pela Argentina, Chile e dominou os estados do sul brasileiro em pleno fevereiro, no ápice do verão.
A princípio, as pessoas levaram a vida normalmente, o sul estava acostumado ao inverno, mas a mudança de temperatura foi muito drástica. As doenças respiratórias chegaram rápido. Os hospitais estavam lotados, mercados vazios. E a massa de ar frio ia fechando o globo de cima para baixo e de baixo para cima. Quando esfriou no nordeste, a população já estava em pânico por todo o Brasil. Nos lugares que não se conhecia frio, a catástrofe fora ainda pior. A população não dispunha de roupas adequadas e não tinha onde comprar, sendo que muitos, nem mesmo teriam recursos. As moradias não eram preparadas para o frio. Pessoas morreram. Milhares. O norte e o nordeste brasileiro, juntamente com os países que fazem divisa e a América Central foram dizimados.
Alice chorou quando os apresentadores do telejornal desejaram boa sorte a todos e anunciaram que as transmissões seriam encerradas. Não havia previsão do clima esquentar em nenhum lugar do globo terrestre. Sem notícias, as coisas ficavam um pouco piores.
Charles e Alice aguentaram um mês, mantinham o apartamento fechado, isolados, assim como muitas famílias. O país parou com a primeira nevasca. Era cada um por si. Em sequência acabaram a internet, energia, sinal de telefone.
Para as pessoas restava esperar e morrer ou morrer tentando sobreviver.
A ideia de Charles era ir andando aos poucos, ficando expostos ao frio o menor tempo possível, tentar sair de Santa Maria ou encontrar um lugar com comida e água em que pudessem esperar o frio passar.
Pelas escadas, desceram até a garagem e conseguiram entrar no veículo. O tanque estava pela metade, dava para chegar a algum lugar. Logo na saída da garagem um carro atravessado complicava a passagem do casal. Charles encostou na traseira do veículo e o empurrou, conseguindo passar sem muitos danos.
A rua estava deserta, a cidade vazia. Não estava nevando, mas havia neblina.
— Para onde vamos? — Charles perguntou.
— Acho melhor que a gente procure não ficar isolado, vamos precisar parar, talvez trocar de carro, achar comida.
— Grandes centros podem ser violentos, eu não faço ideia de para onde dirigir, não sei quais estradas estão dando passagem, e se nevar, temos que parar. Não podemos dirigir, é perigoso.
— Certo, não vamos desanimar sem começar. Vamos tentar sair da cidade e evitar as regiões de serras.
— Vamos usar poucas horas do dia, somente enquanto for claro. Rumo à Santa Cruz?
Alice assentiu silenciosamente. Era a primeira vez que gostaria de evitar uma viagem.
Charles dirigiu por algum tempo, com dificuldade deixou Santa Maria, foi preciso trocar de rua quatro vezes por causa dos carros que bloqueavam o caminho. Alguns cadáveres decoravam as ruas. Desceram duas vezes para revistar os veículos. Encontraram corpos, bolsas e alguns objetos. Charles queria pegar gasolina, mas não tinha nenhum recipiente.
Quando enfim chegaram na rodovia, encontraram um posto de gasolina com algumas pessoas dentro. O dono estava armado na porta e deixou que eles abastecessem sem cobrar. Doou-lhes um galão cheio de combustível e uma mangueira caso fosse preciso tirar de algum veículo. Informou que não poderia ajudar com mais nada e desejou boa sorte.
Com alguma dificuldade, dirigiram um pouco mais. Havia poucos carros parados, nenhum bloqueava a passagem, mas às vezes era necessário fazer alguns desvios pelo acostamento. Nas mochilas que coletaram, Alice achou alguns biscoitos, remédios. Tudo poderia ser útil. A maioria eram bolsas femininas, Alice ia separando tudo que não iriam usar (uma porção de maquiagem, carteiras pessoais e outras coisas), havia uma mulher que tinha a bolsa cheia de pedras. Quando abrissem o carro jogaria fora.
Dirigiram por cerca de uma hora e meia até que estavam em frente a um conhecido café colonial. Encostaram o carro. Estava tudo fechado. Charles colocou as mãos no vidro para fazer sombra e viu que o local parecia intacto.
Esfriava rapidamente na rua. Deram a volta pelos fundos, dois cães de grande porte estavam mortos. Charles conseguiu colocar Alice pela janela do banheiro.
Ela abriu a porta dos fundos.
Inspecionaram o local, tinham muita comida, mas parecia que algumas prateleiras estavam vazias. Os donos deveriam ter saído e levado muita coisa.
Sem energia, o alarme não funcionava.
— Acho um milagre ninguém ter vindo até aqui, Charles.
— Ou as pessoas estão realmente com medo de sair às ruas, ou não sobrou muita gente na região.
Estavam aquecidos e tinham alimento para quase uma vida. Fizeram fogo na lareira e cozinharam uma refeição de verdade. O ambiente era mais frio do que seu apartamento, mas com o fogo, era absolutamente suportável ficar lá.
Improvisaram uma cama com os cobertores que tinham no carro e dormiram confortavelmente em frente à lareira. Tinham lenha em abundância nos fundos do prédio.
Ficaram naquele lugar quinze dias. Charles manteve o carro pronto para partir, carregado de alimentos. Mudou o veículo para os fundos do prédio. Todos os dias, dava partida no motor e tentava sintonizar alguma rádio, sem sucesso.
Era uma tarde fria, havia nevado no dia anterior quando um grupo de homens armados encostou uma caminhonete no café. Quebraram as vidraças das portas da frente e entraram destruindo tudo e gritando palavrões.
Alice e Charles correram para os fundos assim que viram o barulho da caminhonete e entraram em seu carro. Alice tremeu quando Charles fez menção de dar partida. Ele olhou para dentro do café, viu os homens entretidos nas prateleiras de cachaças. Pediu a Alice que se abaixasse, sabia que um homem sozinho tinha mais chances de escapar.
Deu partida no carro e saiu rumo à rodovia. Um dos homens foi até a janela e olhou para fora, mas não pareceu se importar.
Na estrada, Alice trocava as estações de rádio enquanto secava as lágrimas.
Todas mudas, até que uma estação trazia uma mensagem:
Sobreviva! Há esperança! Venha para o Parque Nacional da Serra do Tabuleiro, em Palhoça, aqui podemos ajudá-lo, temos uma colônia e estamos bem.
A mensagem só dizia isso, repetidamente.
— Palhoça fica antes de Floripa, vamos tentar — e Charles acelerou o carro.
— Não sei, Charles, isso me lembra aquela colônia do The walking dead, lembra quando eles pegaram os trilhos e no fim era um açougue humano?
— Nós temos que tentar. Vamos ver se conseguimos dar uma olhada antes de chegar de vez.
Alice não estava certa.
Em um dia normal, poderiam levar oito horas de viagem. Naquelas condições de neblina, algumas nevascas e desviando veículos nas estradas, levaram um dia.
Precisaram dormir no carro, escondidos.
Na manhã seguinte, seguiram viagem.
Quanto mais se aproximavam do litoral, mais carros abandonados encontravam.
Muitos tinham portas abertas. Alguns estavam cobertos por uma fina camada de neve. Outros pareciam ter sido deixados às pressas. Nenhum sinal de vida.
A voz continuava repetindo a mesma mensagem no rádio.
Charles desligou o aparelho.
— Se isso for uma armadilha, já chegamos longe demais para voltar.
Pouco antes do anoitecer, avistaram a entrada do parque. O portão estava aberto. Eles estacionaram o carro e foram entrando lentamente, evitando que alguém os visse.
Havia pequenas cabanas de madeira espalhadas entre os pinheiros. Um gerador ainda funcionava. Estufas improvisadas protegiam algumas hortaliças. Um galpão guardava lenha suficiente para muitos invernos. Havia galinhas, coelhos e um pequeno açude que ainda não congelara completamente.
Mas não havia ninguém. Em uma espécie de cozinha comunitária ao final da fileira de cabanas, encontraram um caderno sobre a mesa principal. Uma espécie de diário, com datas:
"Chegaram cinquenta e duas pessoas."
Algumas páginas depois:
"Somos vinte e nove."
Mais adiante:
"Somos onze."
Depois:
"Hoje enterramos Clara."
Na última página, apenas uma frase.
"Quem chegar depois de nós, por favor, mantenha a transmissão ligada."
Charles fechou o caderno lentamente. Na parte mais alta do terreno havia um pequeno cemitério, ao lado de uma igreja. As cruzes de madeira se perdiam sob a neve. Nenhuma tinha nome.
Lentamente, Charles e Alice adentraram a pequena igreja, já imaginando o que encontrariam no interior. Mas foi bem pior do que pensavam. Dezenas de pessoas estavam ajoelhadas. Congeladas. Todas morreram rezando. Uma mãe abraçada ao filho. Um casal de idosos de mãos dadas. Um padre ainda segurando um crucifixo. Nenhum sinal de violência.
Só frio.
Naquela noite, alimentaram a lareira, fizeram uma sopa quente e permaneceram em silêncio. Pela primeira vez em muitas semanas, não precisavam decidir para onde fugir.
Na manhã seguinte, Charles ligou o transmissor.
Gravou a própria voz.
— Se alguém estiver ouvindo... sobreviva. Há esperança. Venha para o Parque Nacional da Serra do Tabuleiro. Aqui você encontrará abrigo.
Alice o observava da porta.
— Você acha que alguém ainda está vivo?
Charles demorou para responder. Olhou para o horizonte completamente branco.
— Eu preciso acreditar que sim.
Os dias passaram. Quando o frio permitia, eles abriam novas covas no cemitério improvisado e enterravam os corpos encontrados na igreja.
Consertaram cercas, cuidaram das estufas, empilharam lenha. Aprenderam que sobreviver também era uma rotina e necessitava de disciplina.
Todas as noites, antes de dormir, Charles ligava o transmissor. Todas as manhãs,
Alice verificava as pegadas na neve.
Nunca encontravam nenhuma.
Mesmo assim, a mensagem continuava sendo enviada e os dois seguiam fortes, sobrevivendo. Pois enquanto mantivessem o fogo aceso e a voz atravessando o rádio, ainda existiria alguém para chamar a Terra de lar.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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