O visitante
Em busca de tranquilidade, um casal recomeça a vida no interior. Mas um velho vizinho revela que a casa guarda uma história que ninguém ousa esquecer.
7/23/20264 min read

Ester se sentia como a sua avó. Nunca imaginou que um dia trocaria a vida na cidade grande pelo sossego do interior. Ramon tinha este plano desde que namoravam, a vida em um apartamento sempre lhe remeteu à imagem de um pássaro na gaiola.
O que convenceu Ester foram as contas e os cachorros. Estava cansada, cansada de trabalhar e o dinheiro nunca ser suficiente no fim do mês e era apaixonada por animais. Queria muito adotar cães de rua, mas morava em uma caixa de fósforos, pela qual nem podia pagar.
Quando seu trabalho se tornou home office, Ramon pediu demissão da fábrica onde era quase escravo. Porto Alegre ficou no passado. Comprara uma casa grande e antiga, no interior de São Francisco de Paula, na serra gaúcha. Tinham água de poço, energia mais barata e Ramon criaria gado e plantaria boa parte da alimentação do casal.
Ester se sentia como sua avó, porém fazendo o movimento contrário do mundo: a primeira era fruto do êxodo rural, a segunda deixava a cidade para viver no campo. Tinha um nome para isso?
De qualquer forma, o casal estava adorando a nova moradia. Haviam se apaixonado pelo centenário casarão de pedra e o melhor: era uma pechincha, cabia no orçamento.
O ar era mais puro e mais fresco, os dias começavam mais cedo e as noites eram mais estreladas no interior. Ester amou os sons do dia, mas se incomodou com o silêncio da noite. Era quieto demais, ela achava que a noite chegava sem aviso, simplesmente caía sobre a casa e lhe oprimia. Não gostava também da pouca iluminação na casa velha e lhe parecia que a mobília contemporânea era uma péssima combinação com as paredes centenárias, mas estava convicta de que isso tudo poderia ser consertado.
Logo, adotou sete cães. Foi quando o vizinho, Geraldo, se apresentou ao casal. Era viúvo e morava em uma casa logo ali na estradinha. De sua janela enxergava todo o casarão.
— Vocês não deviam ter tantos cachorros.
Ester não gostou do comentário.
— Ele vai se incomodar quando chegar. Lamento, vocês não vão conseguir ficar com os cães.
Ester pensou em reclamar, em brigar com o vizinho enxerido, mas sabia que para morar no interior se dar bem com a vizinhança era a primeira regra. E o velho começou a falar tanto no tal de visitante, que o casal pensou que alguma demência tinha encontrado aquele senhor antes deles.
No início, Ester achou que era um jogo psicológico. Tanto Geraldo falou que eles começaram a ouvir barulhos. Primeiro ao anoitecer, depois de madrugada. Começava sempre com uma agitação no curral, os terneiros mugiam alto, os cães começavam a uivar, mas logo tudo parava. Depois os cães começaram a correr do curral até a casa, furiosos, como se estivessem se avançando em alguém. O casal ouvia algumas batidas na porta dos fundos e os sons logo sumiam.
Ramon instalou câmeras do curral até a porta dos fundos e sempre captaram os cães latindo para o nada. Quando os animais começaram a morrer foi a gota d’água para Ester. Em duas manhãs, três cães amanheceram mortos, como se algo lhes tivesse esmagado o crânio. Ela tratou de colocar os outros quatro para dentro de casa em cada entardecer, mas eles latiam tanto, todas as noites, que ela mal podia ficar no mesmo ambiente.
Ramon foi em busca de Geraldo para saber de mais informações, mas o velho não sabia o que dizer:
— Só sei que desde que sou criança ele visita esta casa. Não importa quem mora lá, ele sempre vem. Vocês só não devem abrir a porta.
— Alguém já abriu?
— Oh sim. Um senhor chamado Armando, anos atrás. Se abriu… não tenho certeza… mas disse no boteco que abriria. De fato, na manhã seguinte a porta amanheceu aberta.
— E o senhor? Posso falar com ele?
— Mora perto daqui, mas não fala nada. Está no cemitério, ali bem na curva da estrada de pedra. Foi encontrado jogado no chão da cozinha, com a cabeça esmagada. A porta estava aberta.
Ramon foi embora sem se despedir.
Ester visitou uma feirinha organizada perto de sua casa. Uma senhora lhe perguntou se ela havia comprado a residência Heinrich. Ester percebeu que sim, pois tinha este nome no frontão.
— Ah, querida… se você tivesse me perguntado antes. Eu lamento, mas deves ir embora. Tem gente tão apegada às coisas da vida, que quando morre continua apegada. Quando eu era criança até novenas rezávamos naquela casa, a coisa nunca vai embora. Não adianta, ali é espaço dele, seja lá quem for.
Ester estava pensativa naquela noite, a ideia de ir agora era um desejo. A atividade começou mais cedo daquela vez, mal ela havia encerrado os cães e as batidas começaram na porta, altas e desesperadas. As luzes se apagaram, os cães uivavam ensandecidos, Ramon precipitou-se a acender a lanterna do celular, bem a tempo de ver a parte de baixo da antiga porta holandesa abrir-se de supetão. Os quatro cães voaram pela cozinha e bateram na parede dos fundos. Seus corpos fizeram baques surdos ao caírem no chão e instantaneamente o silêncio se fez na peça.
Quando Ester ia gritar de pânico, Ramon a arrastou pela casa e trancou ambos no quarto do casal. Ele segurou a boca da esposa com a mão, enquanto murmurava em pânico:
— Está entrando. Ele está dentro de casa.
Os dois ficaram em silêncio e ouviram os passos fortes e lentos encaminharem-se pela madeira do corredor. A coisa parou em frente a porta do quarto e começou a bater. Ester escondeu a boca entre as mãos para abafar o próprio grito, enquanto lágrimas jorravam de seus olhos como um temporal.
A porta do quarto fez um ruído alto ao abrir. Ramon iluminou o velho parado do lado de fora, que ficou imóvel observando o casal, suas roupas eram de outra época, puídas, e os olhos totalmente negros, desprovidos de pupila. Um cheiro de podridão se espalhou pela casa. Ele ficou assim algum tempo, depois foi embora.
O casal não morou outra noite na casa para descobrir se ele voltaria a entrar.
Quando a nova família mudou-se para o casarão, anos mais tarde, Geraldo resolveu não avisar nada. Na época em que seu avô fazia este favor, ninguém acreditava, aconteceu o mesmo ao seu pai e depois a ele próprio. Estava velho demais para fazer pessoas acreditarem em coisas que aconteciam bem diante dos seus olhos. Lamentou pela família ter tantas crianças, mas resolveu deixá-los descobrirem sozinhos que aquela casa não podia ser vendida para ninguém. Exceto se estivessem dispostos a morar com o primeiro proprietário.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
Contato
giselewommer@darkgi.com
WhatsApp (51) 9543-3136
Para direitos de reprodução, tradução e adaptações cinematográficas.
© 2017 Gisele Wommer - Histórias sombrias.
