Os desaparecidos
O novo morador parece inofensivo, até que um policial da vizinhança percebe acontecimentos inexplicáveis na horta comunitária e decide investigar.
7/24/20267 min read

“O Brasil registra cerca de 200 desaparecimentos por dia. Em 2021 foram 65.255 desaparecidos...”. Dizia uma repórter qualquer; de uma emissora qualquer; em uma televisão qualquer; ligada em um bar qualquer. Os clientes, entre martelinhos de cachaça, copos de cerveja e partidas de sinuca nem se quer ouviram.
Era uma vizinhança tranquila, até aquela manhã.
Não tinha bem clareado o dia quando a polícia chegou. Silenciosamente. Muitas viaturas, sem sirene ou giroflex. A senhora da casa 14 acordou-se quando o aríete encontrou a porta pela primeira vez. Logo, os vizinhos todos estavam em frente à casa. Abordaram Clécio, um policial aposentado que fazia as vezes de coordenador da vizinhança, uma espécie de xerife sem remuneração.
Clécio pensou se deveria falar. Os vizinhos ficavam impertinentes conforme a polícia tirava de dentro da casa caixas de plástico, barris, produtos químicos e por fim alguns corpos.
— Meu Deus! Igual naquele seriado do canibal! — uma mulher gritou.
— Não, não... — Clécio achou melhor falar, antes que os vizinhos imaginassem coisa pior ou soubessem pela imprensa — nosso vizinho aqui estava trabalhando com o desaparecimento de corpos.
Breve silêncio na pequena multidão.
— Aqui?
— Ele estava matando gente?
Clécio balançou a cabeça. A menina da casa 18 correu e vomitou na esquina, Clécio a tinha visto aos amassos com Enzo. Ontem um jovem descolado, hoje um bandido.
— Como o senhor descobriu, seu Clécio?
—Encontrei alguns fragmentos de ossos na nossa horta comunitária.
Agora o silêncio foi maior.
Clécio resolveu dizer toda a verdade de uma vez só e acabar logo com aquilo.
— Eis o que sei: ele nunca foi Uber, pegava corpos em algum lugar, trazia para casa, dissolvia em recipientes de plástico e jogava o que sobrava na nossa horta comunitária. Não sei como, quantos ou para quem trabalhava, mas vou até a polícia tentar descobrir e se me deixarem acompanhar conto para vocês.
Clécio deu as costas e saiu. Os vizinhos preferiam fingir que não tinham comido os vegetais da horta, que outrora fora até notícia de jornal, mas agora era adubada com restos humanos. A senhora do 14 fez um comentário mórbido antes de rumar a passos curtos à sua casa:
— Por isso as beterrabas cresceram tanto.
Uma vez policial, sempre policial. Foi o que disseram a Clécio quando ele chegou na delegacia. E deixaram acompanhar o interrogatório, afinal ele dedicou 35 anos de sua vida aquele local e agora foi o responsável por capturar o delinquente.
Clécio entrou na sala acompanhado de um policial, os demais assistiam pelo vidro espelhado.
O jovem estava nervoso, levantou as mãos secas até onde as algemas fechadas na mesa permitiram. Ele tinha letras tatuadas nos dedos, algo que Clécio não entendeu: OZZY.
— Não matei ninguém! Nunca matei! — ele dizia na defensiva, como se algum policial fosse lhe agredir. Clécio pensou se já teriam agredido naquele dia, mas uma olhada no rosto do jovem não demonstrava nada, além da feiura natural.
— Calma jovem, quer uma água ou um café quem sabe? Vai poder nos explicar tudo direitinho...
— Um cigarro, eu preciso de um cigarro.
O policial ao lado de Clécio tirou do bolso um mata-rato qualquer e acendeu na boca do jovem. As mãos dele eram extremamente trêmulas quando tirou o cigarro da boca para dar a primeira baforada. As algemas chegavam a fazer barulho.
— Eu estou ferrado, né, seu Clécio?
Aquilo era bom. Apesar de Clécio ser o responsável por colocar Enzo ali, ele ainda nutria um respeito e uma familiaridade pelo rosto do vizinho, que conheceu há tão pouco tempo.
— Bem, dizer que não matou não será suficiente. Na sua casa foram encontradas seis caixas grandes com corpos em decomposição. Dois corpos enrolados em lonas, material suspeito como serras, solventes e balcões que estão sendo analisados e claro, os fragmentos de ossos encontrados na horta comunitária.
— Maldita guerra da Ucrânia!
— Como?
— O solvente, entendeu? O bom, o que não deixa vestígios, está em falta no mercado por causa dessa maldita guerra!
Clécio estava surpreso. Soube que havia algo errado com Enzo desde que ele pisou naquela vizinhança, mas não achou que passaria de um pouco de maconha ou até drogas sintéticas. Dissolver corpos humanos? Aquele rapaz não tinha cara nenhuma de que era capaz disso. Enzo pareceu ler o pensamento do vizinho.
— Eu não queria entrar nessa, seu Clécio, não acho legal. Foi preciso, eu tinha uma dívida...
— De drogas?
— Sim. Não. Bem, não por usar. Eu vendia, um dia ganhei uma surra de uns moleques numa esquina e perdi todo o produto. O dono cobrou, muito mais do que valia e depois que me colocou no hospital com uma perna quebrada eu precisei achar um jeito de pagar. Eu conto tudo, se tiver algum tipo de benefício.
Silêncio na sala.
— Vai me julgar, senhor Clécio?
— Você será provavelmente julgado, meu filho, não por mim. Fique sabendo que no seu julgamento será usado o fato de você ter colaborado com a polícia.
Enzo começou a falar. Não perguntou que benefícios falar lhe traria, não pediu um advogado. Clécio achou que o rapaz era burro e língua solta no começo, mas depois percebeu que ele precisava mesmo desabafar. Quase sentiu pena de Enzo, quase. Mas nos seus 35 anos de polícia já tinha visto jovens demais escolherem o caminho mais fácil para ganhar dinheiro, o que eles não sabiam é que este caminho só tinha dois destinos: a cadeia ou o cemitério.
Precisaram dar a Enzo mais dois ou três cigarros. Ele começou entregando o traficante que lhe quebrou a perna, peixe pequeno. Depois explicou que um amigo lhe esperou na saída do hospital e lhe disse como conseguir dinheiro para saldar sua dívida.
Não havia muita coisa que ele pudesse dizer para ajudar. Ele não sabia quem matava aquelas pessoas, nem por quê. Recebia uma mensagem de texto pedindo uma corrida em um endereço qualquer, mas tinha que rumar toda a vez para um galpão na zona oeste da cidade. Dois sujeitos mal-encarados colocavam os corpos no seu carro, enrolados em lonas e ele ia embora. Sem perguntas. Não havia nomes, nem davam boa tarde.
Quando ele pegava os corpos o problema passava a ser exclusivamente dele. Se fosse pego na desova, ninguém ali o conhecia. Ele não podia colocar as caixas fora com os corpos dentro, devia decompô-los totalmente e se livrar do conteúdo, não era para aquelas pessoas serem encontradas, nunca.
O trabalho em casa era o mais difícil. Ele estacionava de ré na garagem, descarregava. Os corpos não cabiam nas caixas, era necessário desmembrá-los. Enzo tinha um ambiente em sua garagem preparado para isso. As bancadas eram altas e fortes, ele forrava tudo com plásticos: chão, paredes. No início usava apenas machadinhas, depois aderiu as serras elétricas, mas devia ser cuidadoso com o barulho. Os vizinhos da casa anterior reclamaram, ele começou a ligar um som, mas as reclamações pioraram. Quando entupiu o sistema de esgoto da casa, precisou se mudar de vez.
Enzo nunca gostou de fazer aquilo. Vomitava algumas vezes quando começou a desmembrar os corpos, era uma tarefa nojenta, tinha o sangue, os músculos, as gorduras que ele tanto detestava e o cheiro. Com o tempo não vomitava mais, mas não tinha realmente se acostumado. Desmembrava no automático, tentando ser o mais rápido possível, e acomodava os corpos nas caixas. Colocava os produtos, datava as mesmas e deixava chegar a época, como uma conserva de pepino. Enquanto isso, trocava todos os plásticos do local, limpava o chão, eventualmente algo respingava. Colocava o material sujo em um saco de lixo, dirigia pela cidade e largava em um container qualquer. Sacos sujos de sangue, sim.
As caixas ficavam embaixo dos balcões da garagem com as datas, em alguns dias devia limpar seus conteúdos e poderia usá-las novamente. Os dois únicos produtos químicos que usava ficavam junto aos demais da casa, na área de serviço. Aparentemente, nada havia para se desconfiar.
Ele despejava os conteúdos em locais diversos: rios, esgotos, até no ralo do chuveiro da própria casa. Fora do plástico, o trabalho de corroer dos agentes químicos acabava. Assim ele teve a ideia brilhante de começar a despejar as caixas na natureza. Pântanos, matos, horta coletiva da vizinhança.
O trabalho ficou menos difícil depois que o dinheiro começou a entrar em sua conta. Três mil por cada corpo. Ele pagou a dívida com juros que nem o banco mais mercenário seria capaz de cobrar, dava um percentual ao amigo que lhe indicou o trabalho e sobrava muito. Podia ter o melhor computador, a maior televisão, assinar quantas plataformas de streaming existissem, colocar dinheiro nos joguinhos de celular e ainda levar as garotas que conhecia no Tinder para jantar em locais caríssimos.
— Tinha a parte ruim do trabalho. E qual trabalho não tem? —perguntou aos policiais.
— Quantas caixas você despejou?
— Juro que não contei. Me tornaria um monstro contar, não é?
Os policiais se calaram. Não conseguiam ver a diferença.
— Por que se mudou para a nossa vizinhança? — quis saber Clécio.
— A casa era maior e a garagem nos fundos, não incomodaria os barulhos.
O policial quis saber quanto as vítimas. Que tipo de pessoas eram, como haviam sido mortas. Enzo respondeu que a maior parte era homem, negros e brancos, não sabia dizer qual vinha mais. Boa parte tinha marca de tiro no corpo, outros estavam esfaqueados, estrangulados, até gente faltando membro tinha.
Por fim, o policial perguntou se Enzo seria capaz de olhar um catálogo com fotos de pessoas desaparecidas e tentar reconhecer alguma vítima. Ele logo concordou.
Clécio sugeriu aos ex-colegas que pedissem proteção para Enzo, o rapaz era dedo-duro, de fácil conversa. Não sobreviveria na prisão.
E não sobreviveu. Enzo foi jogado do terraço do terceiro andar no seu primeiro dia na penitenciária, um local onde os presos não tinham acesso. Porém ninguém viu nada, nem o corpo retorcido, juntando o seu sangue à sujeira do chão.
“Estima-se que o número de desaparecidos chegará a 85 mil até o fechamento de 2022”. Seguia dizendo uma repórter, em uma televisão qualquer, na casa de uma senhora que, jogando no celular, nem ouviu.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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