Por partes

Mais de um século depois, Jack, o Estripador, continua um mistério. Esta narrativa imagina quem realmente se escondia por trás daqueles crimes.

7/24/20265 min read

Mais de cem suspeitos. Não tinha como não rir. A figura tomava seu café da manhã tranquilamente em Londres, certa de que jamais seria pega. Pintores e escritores famosos estavam na lista de investigados. Pobres artistas, poderiam até ilustrar ou escrever sobre a morte, mas teriam mesmo coragem de matar?

As matérias seguiam afirmando que o assassino era um homem forte, com conhecimentos em medicina e que tinha problemas mentais, além de uma raiva descontrolada das mulheres, talvez por ter sido maltratado pela mãe na infância. Quem sabe a mãe não era prostituta e por isso ele as matava de forma vil e cruel? Havia outra teoria de que o pai cometia abusos contra o menino, que cresceria e se tornaria assassino mais tarde.

Problemas mentais? A figura franziu as sobrancelhas, será que teria, afinal, a pessoa nunca sabe quando tem. Balançou a cabeça e soltou outra gargalhada. Não se incomodava de rir alto na cafeteria, com o jornal nas mãos, até provocava olhares desconfiados das pessoas ao redor, mas estava tranquila, acima de qualquer suspeita.

Sua mãe morava na Irlanda, fazia pouco tempo que a figura tinha se despedido dela para viver em Londres. Sua mãe era uma mulher casada, dona de casa, mãe de família e tratava muito bem os seus filhos, por que a culpa tinha que ser sempre das mães? A sua tinha ouvido falar dos assassinatos em Londres e mandou-lhe uma carta para lhe alertar. O pai existia, era um trabalhador, dava um dura para não deixar faltar nada em casa, era um homem religioso, não abusava dos filhos, tampouco batia neles.

Dias depois, os jornais publicaram aquela carta.

A figura sabia que não tinha escrito carta alguma.

Quando começou a atacar mulheres nos becos escuros de Londres, jamais imaginou que aquilo tomaria tal proporção. A mídia, sedenta por tragédia, propagou o escândalo aos quatro cantos do mundo e a figura achou que assim estava mais divertido.

Preparou-se para aquela noite, era sexta-feira, fazia tempo que não ia a Whitechapel. É claro que não morava lá, mas não tinha um lugar melhor para quem queria cometer um assassinato. Lugar pobre, escuro, com muitas opções de vítimas pelas esquinas. A figura tinha certeza de que não fosse a barbárie com a qual matava e o interesse massivo da mídia, demorariam muito mais para perceber as semelhanças e tentar caçar um assassino. O fato é que ninguém se importava com aquelas mulheres. Eram prostitutas, problemáticas, algumas tinham doenças venéreas, outras roubavam e ainda tinha as que haviam abandonado os maridos e os filhos. Verdadeiras vergonhas na sociedade inglesa conservadora.

O que assustava a população era o fato de que o seu Jack saísse daquela região, de que atacasse as moças nobres e de família na rua e, o pior, era expor os problemas sociais que tomavam forma, tinham nome e sobrenome na periferia de Londres e fazer de trouxa a melhor polícia do mundo: a Scotland Yard.

As mortes sangrentas geraram a desordem na bela Londres, onde cidadãos colocavam a culpa nos imigrantes por propagarem à pobreza e abrir a porta para aquela situação, além de hostilizarem os judeus. A figura sabia que os judeus nada tinham a ver com isso, mas, quanto aos imigrantes não podia fazer nada. O assassino era mesmo um deles.

O alerta na mídia devia ter dificultado a ação de Jack, mas isso não aconteceu, como a figura já previa. As mulheres ligaram um alerta para todos os caras altos e fortes que viam caminhando pelas ruas, assim como a mídia o descreveu, aqueles que poderiam lhe causar qualquer dano, mas jamais suspeitavam de uma mulher com 1,60 metro e 45 quilos.

Anne McNally fingia chorar desesperadamente nos becos sombrios de Whitechapel, sempre alguma mulher parava para oferecer ajuda. Era nessa hora que Anne tirava a pequena faca de baixo do lenço e começava pelo pescoço. Depois de esfaqueadas, todas elas perdiam as forças, assim era fácil empurrá-las até o canto mais escuro dos becos. Era lá que o trabalho se dava.

Por partes.

Anne McNally não era artista; não era homem; não era forte; não tinha conhecimento nenhum de medicina; vinha de uma família irlandesa tranquila e não era louca.

Naquela noite deu errado na primeira vez, a mulher gritou e Anne não pôde fazer mais do que cortar um pescoço. Ficou sabendo depois que ela morreu, mas não tinha parado por ali. Enquanto o circo era montado ao redor daquela vítima, Anne já trabalhava em outra.

Por partes.

Parte um: cortou a garganta e o sangue escorreu. Anne gostava do cheiro e da temperatura do sangue humano.

Parte dois: ela ainda estava viva quando a faca de Anne rasgou seu rosto algumas vezes.

Parte três: o abdômen, nas vestes Anne trazia uma faca maior, fez com aquela mulher igual via o pai fazer com os porcos na Irlanda, tateou entre as costelas procurando o melhor lugar, então enfiou a faca a rasgou a carne até abaixo do umbigo. Não precisava ser médico para fazer aquilo, nas primeiras vezes não sabia bem como fazer, depois aprendeu.

Parte quatro: revirou os órgãos com as mãos, mexeu no corpo aberto. Pegou o que achava ser um rim, diziam que brilhava no escuro, ela queria ver se era verdade.

Parte cinco: para finalizar de forma diferente, cortou fora uma orelha. Na carta inventada pela imprensa dizia que a orelha da próxima vítima seria retirada, por que não entrar na brincadeira?

Parte seis: cobriu-se com a capa escura e saiu andando lentamente pelas ruas de Londres, carregando o seu souvenir.

Dois dias depois sentou-se na cafeteria, ainda em êxtase, mas um pouco decepcionada, o rim não brilhava tanto quanto ela pensava. Começou a leitura do jornal que havia comprado na banca no caminho entre a pensão que morava e a cafeteria, mas desta vez a leitura lhe deu raiva e não vontade de rir.

Dizia que o assassino tinha levado os ovários da mulher. Já devia ter nascido sem eles, Anne não os tocou. A notícia seguia dizendo o rim foi enviado para os inspetores na Scoltand Yard, outra mentira, estava em um vidro no quarto de Anne. Mas o que lhe chamava a atenção não era nada disso e sim a vontade expressiva da mídia e das pessoas de saber o motivo para os crimes. Se ela pudesse responderia que o motivo era apenas um: ela tinha vontade de matar.

Anne nem terminou o café e saiu pelas ruas de Londres pensativa, por que as pessoas achavam que tudo na vida tinha que ter um motivo? Olhou para o Rio Tâmisa e imaginou que passariam 132 anos e ainda haveria quem estivesse procurando um motivo para Jack, como eles o nominaram, ter saído às ruas e retalhado prostitutas. Anne gostava da beleza da morte, por isso matava. Mas sabia que uma hora pararia.

Três meses depois, uma prostituta de 25 anos foi picada em mais de 100 pedaços, no quarto onde atendia seus clientes. Os jornais culpavam Jack, mas não havia sido Anne, aquilo já tinha perdido a graça para ela e como o assassino tinha se tornado uma celebridade que transporia séculos, não faltava quem quisesse aumentar os seus feitos.

Anne simplesmente sumiu no mundo. Nunca mais fora vista em Londres e nem pela família na Irlanda. Decidiu viver um pouco em cada lugar, poderia ser que cometesse algum crime de vez em quando, mas não queria mais deixar uma marca registrada, já sabia que tipo de problemas assassinatos em série poderiam acarretar e não queria ser imitada.

Alguns anos depois, nos Estados Unidos, uma mulher fora a primeira na história da humanidade a ter pena de morte decretada. Lizzie Halliday foi para a cadeira elétrica por envenenar mais de oito pessoas. Serial Killer do sexo feminino, algo raríssimo, diziam os jornais.

— Veneno?! Que sem graça!

Anne lembrava de Eliza Margaret McNally, sua irmã mais velha, correndo com ela pelos campos da Irlanda. Os jornais deram a Lizzie o título de pior mulher do mundo. Anne meneou a cabeça com um sorriso, colocou o jornal no lixo e saiu andando tranquilamente por Amsterdã.

— Irmã, irmã. Você deveria ter feito por partes.