Quando o céu se abriu
Depois de uma sequência de perdas e decepções, Dara decide resolver algumas pendências familiares. Mas certas despedidas podem esconder muito mais do que aparentam.
9/5/20268 min read

Naquele dia ela queria ouvir black metal. Escolheu a playlist mais pesada que tinha feito no aplicativo, mas parecia que nada do que tocava era bom o suficiente. Ela queria vozes inumanas proferindo palavras indecifráveis, queria homens gritando a plenos pulmões.
A cadência das pernas acompanhava a música nos ouvidos. Corria rápido, em uma velocidade que nem ela mesma sabia que era capaz de alcançar. Passou em frente ao supermercado, atravessou a rua e foi retirada de seus pensamentos pela buzina do carro, acompanhada de alguns palavrões. Era um homem ao volante, mais um, que lhe destratava.
Deu de ombros, mas decidiu pegar a entrada para a praia e correr na areia, por segurança. Estava distraída demais para prestar atenção ao trânsito, mesmo em um local tão pacato como aquele.
Sentiu o vento frio na face e um arrepio pelo corpo todo assim que chegou à beira do mar, mas não se importou, precisava correr um pouco mais. Queria que o corpo todo doesse, assim, o sono não demoraria a chegar de noite. A areia molhada lhe facilitava a corrida. Não fossem os homens gritando nos fones de ouvido, ela poderia ouvir as ondas quebrando na praia, no entanto, só imaginou.
Estava tudo errado na sua vida, tudo. Ela havia perdido o controle e já nem se reconhecia mais depois de tantas mudanças.
Tantas decepções.
Não é que morresse de amores por Júnior. A máscara que ele usou durante os últimos anos havia se partido de forma irrevogável. E a face do homem que se revelou por trás não lhe agradava. Havia desistido, naquela manhã mesmo, enquanto amarrava os tênis antes da corrida.
Foi quando uma música do Venom começou a tocar no seu fone, que ela sentiu um gosto metálico na boca e o céu se abriu em branco.
Abriu os olhos algum tempo depois, nem sabia bem quanto. Estava deitada na ambulância.
— Olá... — tentou dizer o atendente.
— Mas que sorte a minha! — disse Dara, revirando os olhos e levantando da maca — eu tenho uma coisa para resolver.
Saiu andando da ambulância, deu uma pequena tropeçada no primeiro passo, mas depois recuperou as forças e seguiu a passos largos.
Mirtz
— Dara! Que susto! — Mirtz deixou cair a xícara que carregava, ao dar de cara com a nora sentada no quintal.
— Você quer um chá ou...
— Eu não vou me demorar.
Um silêncio constrangedor pairou no ar entre as duas mulheres, antes que Dara continuasse:
— A senhora sabe, a senhora não é burra. Só percebeu tarde demais. Nos seus setenta e sete anos, a senhora já viu isso acontecer muitas vezes. O Théo vai acabar dividido entre duas famílias, a senhora sabe que esta mulher não vai cuidar bem dele. Nem ela e nenhuma outra, elas não vão se importar porque ele não é filho delas, ele é um estorvo, na verdade. Logo, o Júnior se junta com alguém, tem outros filhos e o Théo vai sobrar. A senhora percebeu que é a única avó dele? E a senhora está preparada para cuidar do seu neto?
Uma lágrima molhou a face de Mirtz, mas Dara permanecia impassível.
— Ora, Dara, eu nunca quis que nada disso acontecesse...
— Não é bem verdade. A senhora o encorajou, disse que ele deveria ser feliz, que era muito jovem para ficar enfurnado em um apartamento cuidando de uma criança e de sua mãe louca. O que a senhora achou que iria acontecer?
— Mas Dara, você não melhorava. Perdeu o emprego. Estava consumindo todas as finanças dele com médicos e remédios. Meu filho não estava feliz.
— Depressão é doença, Dona Mirtz, mas a senhora vai entender quando acontecer consigo e se arrependerá por ter me julgado tanto. Eu não esperava por isso, Dona Mirtz, afinal, no dia do velório da minha mãe, a senhora me disse que faria o papel dela, mas não me serviu nem como madrasta. Lamento informar, mas a felicidade vai andar bem longe da sua família, por um bom tempo.
— Eu errei Dara, todos erramos. Mas ainda podemos consertar, o Júnior não está mais com aquela mulher...
— Nada será consertado. Não há mais tempo. Eu não vim aqui para falar sobre aquela mulher, lhe fiz uma pergunta e espero uma resposta: a senhora está preparada para cuidar do seu neto?
Mirtz agora chorava copiosamente.
— Sim, Dara, eu sempre estarei aqui para o Théo, eu o amo demais.
Dara agradeceu e levantou. Sem se despedir, contornou a casa e saiu pelo portão.
Armando
Dara adentrou o escritório do sogro nos fundos do comércio que ele mantinha, sem ser anunciada.
— O senhor sente falta, né? Da época áurea, afinal, hoje em dia com a internet o senhor não está conseguindo bater a concorrência. O negócio vai de mal a pior. Os filhos poderiam lhe ajudar, mas ninguém se interessa.
— Dara?
Ela sentou-se de frente para o sogro, na mesa imponente de cedro que ele mantinha no escritório antigo, cheirando a mofo e com excesso de pilhas de papéis.
— Não é culpa sua se o senhor nunca gostou de mim. Na verdade, o senhor nunca teve muito tempo para pensar sobre suas noras e genros. Mas agora o senhor convenceu o Júnior a me pedir perdão.
— Ele lhe falou?
— Não. Só que o senhor não está preocupado comigo, nem com o seu filho. É aquela mulher que foi empurrada para cima dele pela sua própria filha que está lhe tirando o sono. Foi um amigo seu, de confiança, que lhe contou o que ela faz da vida. Uma vergonha para a sua família...
— Como você sabe dessas coisas?
— Será que o senhor conseguiria imaginar? Não creio que saiba o que é empatia, mas pense, só por um minuto: o senhor e sua esposa mortos em um acidente de carro, ao mesmo tempo, uma das suas filhas em depressão profunda, sem conseguir sair da cama, sem vontade de pentear o próprio cabelo, e um dos seus genros decidindo que era muito difícil suportar a dor da própria esposa, e partindo para a farra? E depois, o restante da família inteirinha culpando sua filha, por não ter conseguido lutar sozinha contra um trauma.
“Não, o senhor não consegue imaginar. Afinal, na sua cabeça, não há ninguém mais importante do que si próprio. Mas quando a Mirtz descobrir que o senhor consumiu todas as finanças da família em uma mesa de poker, ela vai conhecer a dor da depressão.
“O senhor pode fazer como seu filho e trocá-la por outra qualquer”.
Dara levantou-se e, da mesma forma como chegou, saiu da sala, deixando Armando sem palavras.
— O senhor é um homem ruim, seu Armando, me alegra o fato de não precisar lhe ver nunca mais.
Beatriz
Beatriz vinha chegando ao seu apartamento quando encontrou Dara sentada no chão, em frente a porta.
— Dara? Você está pálida. Entra.
Dara entrou, mas não sentou.
— Eu vim pedir os brincos de safira que lhe emprestei, vou usá-los hoje à noite.
Beatriz assentiu e em poucos minutos estava de volta à sala do apartamento com os brincos em mãos.
— Posso saber onde você vai?
— Você vai receber o convite.
Beatriz ficou confusa.
— Você sempre foi minha amiga de verdade e é a melhor pessoa nesta família.
— Ah, Dara. Se eu pudesse passava uma borracha em tudo isso, eu realmente te pediria para perdoar o meu irmão, mas acho que você não deve.
Dara sorriu, e encaminhou-se à porta.
— Bia. O Théo vai sofrer. Você é madrinha dele, vai precisar ajudar.
— Claro. Um divórcio é sempre difícil para uma criança na idade dele, mas ele sempre poderá contar comigo. E você também.
Beatriz se aproximou para dar um abraço na cunhada, mas ela já havia cruzado a porta.
Cida
Cida viu Dara pelo vidro da academia e, como a cunhada estava lhe olhando de forma estranha, decidiu sair da esteira e ir até a rua, irritada por ter seu treino interrompido.
— Dara, você está bem? Está estranha.
— Obrigada por perguntar, Cida. Na verdade, estive em depressão profunda, causada pelo choque da morte dos meus pais. Mas eu já me recuperei e não terei mais problemas agora. Um pouco tarde para você querer saber de mim, né?
Cida ficou confusa.
— Bem, mas eu não fui procurar você...
— Aqueles 25 mil da nossa sociedade, quero na conta do Théo.
— Eu posso esperar o banco abrir e transferir mais tarde, meu aplicativo não tem este limite.
Silêncio.
— Ora, Dara, não está achando que eu vou roubar de você ou do meu sobrinho, né? Se toca garota, eu nem preciso deste dinheiro.
— Precisa. Só ainda não sabe. Mas você vai fazer a transferência para o Théo, ou eu vou voltar e vou pegar o valor.
Cida revirou os olhos.
— Dara, você não pensa que vai aparecer aqui e me ameaçar. Eu sei que você me culpa pela Andréia, mas foi você mesma que não se importou o bastante com a própria vida.
— Eu não vim aqui para falar dessa mulher. Ela não faz parte da minha vida e nem você. Aliás, Cida, não finja que se importa com seu irmão, no fundo você nunca suportou a nossa felicidade, invejava os nossos bens, a nossa boa relação e o fato de termos um filho, algo que você nunca conseguiu. Você só se aproveitou de um momento de fraqueza para destruir tudo aquilo que nunca poderia ser.
“Eu fui traída, Cida. Estava doente, no pior momento da minha vida. Mas quando o Vinícius te contar que vai ter um filho com outra, o filho que você não pode dar a ele, você poderá criar as próprias desculpas”.
Cida abriu a boca para dizer alguma coisa, mas se calou.
— Sim, você desconfia há tempos. Dói muito, eu sei por experiência própria, mas tudo que você ainda vai sofrer é apenas o que você merece. Adeus, sua megera!
Dara saiu correndo, sem deixar que Cida dissesse uma palavra. Imediatamente, ela pegou o telefone e ligou para o marido. Caiu na caixa postal.
Júnior
Júnior vinha saindo do banho quando viu a ex-mulher sentada na sala, que um dia fez parte da vida do casal.
— Dara? Você não tinha me entregado a chave? Fez uma cópia? Bem... isso não importa, eu estava querendo mesmo falar com você.
Quando ele reparou em Dara, ela segurava nas mãos a pasta marrom de couro, que continha os documentos do divórcio.
— Onde você achou esta pasta, eu já tinha guardado.
— Foi tanto que eu sofri quando você me entregou, mas agora foi tão fácil assinar.
— Dara. Não precisa ser assim. Esse acordo não está bom para você e eu não quero mais me divorciar. Eu estou arrependido...
Júnior deu um passo em direção a Dara, mas ela levantou-se abruptamente do sofá.
— Você está arrependido, mas vai ficar muito mais. Não há nada que eu possa fazer em relação a isso. A partir de hoje não somos mais casados. Eu lhe peço que cuide do que vai dizer perto do Théo. Ele é apenas um garoto e você é a referência dele. Aja como adulto, pelo seu filho.
“Quanto a mim, Júnior. Como bem você disse no nosso último encontro: não sou mais problema seu.
“Foi tão fácil deixar de te amar que estou me perguntando se algum dia eu realmente amei”.
Dara foi andando lentamente, mesmo com as súplicas de Júnior para que ela lhe ouvisse. Bateu levemente a porta ao sair do apartamento.
Júnior foi para a sacada e esperou ver Dara saindo pela portaria, no entanto, ela demorou. Logo, seu celular tocou, um número estranho que ele ignorou, mas em seguida tocou novamente e Júnior atendeu.
Júnior chorava como uma criança naquela salinha apertada do hospital. Mirtz, Cida, Bia e até Armando tentavam ampará-lo, desde que se entendem por gente, ninguém o vira nem perto de tanto desespero.
— É um engano! Eu quero ver o corpo! Ela estava comigo quando o telefone tocou, ainda agora, estava no nosso apartamento, não é possível que tenha sido atingida por um raio na beira da praia.
— Sinto muito, senhor — disse um médico de idade — logo o senhor poderá vê-la. Ela chegou a receber primeiros socorros. O paramédico disse que ela sentou de repente na maca da ambulância, e falou que tinha uma coisa para resolver, desmaiou e não voltou mais. Por mais de 20 minutos houve tentativas de reanimá-la. Sinto muito.
Não demorou para toda a família contar sobre a visita que receberam. Não demorou para acessarem sistemas de câmeras nos locais onde estavam e descobrir que Dara esteve em cinco lugares ao mesmo tempo; no entanto, nunca saiu de dentro da ambulância.
Toda a família foi conduzida até a sala do necrotério, onde Dara jazia em uma mesa de inox, usando enormes brincos de safira. Os olhos, acusadores, estavam abertos e os lábios levemente rachados pareciam guardar o esboço de um sorriso.
A paz que Dara desfrutava naquele momento não reinaria no que restou daquela família por longos e massacrantes anos.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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