Quatro vozes no escuro
Uma festa de Halloween em uma escola desperta vozes que jamais deveriam ser ouvidas. O que começou como brincadeira transforma-se em um pesadelo impossível de silenciar.
8/2/20266 min read

Era tão tênue a linha que transformava alegria em tragédia.
Sobre isso pensava a professora Selena, sentada naquela cadeira desconfortável da delegacia de polícia, entre bêbados e agressores de mulheres, enquanto esperava a sua vez de ser ouvida.
Ela olhou para os próprios dedos. As unhas ainda guardavam resquícios de sangue. Sangue da colega que ninguém socorreu porque acharam que tinha apenas caído no chão. Sangue que ela julgou ser falso, até que descobriu que vertia da parte de trás de um crânio completamente esmagado.
Selena nunca mais se esqueceria dos olhos de Mirela. A primeira visão que teve quando as luzes se acenderam e provavelmente a última da colega, ainda com vida. As pupilas da garota fizeram um movimento estranho, ela piscou algumas vezes, como se quisesse controlar aqueles olhos claros, injetados. Depois, as írises se reviraram, em um movimento completamente anormal. Antes dos olhos ficarem completamente brancos, Mirela disse uma palavra e Selena entendeu muito bem.
Não diria ao delegado. Provavelmente nunca diria a ninguém, pois sabia que não teria quem pudesse acreditar.
As mãos de Selena tremeram e ela chorou discretamente. Tinha perdido uma amiga que gostava muito naquela data que jamais voltaria a celebrar. Seu coração disparou e ela respirou fundo para controlar.
Estava com medo.
Algumas horas antes.
Era Halloween. A escola de Selena sempre fazia uma festinha, com o tempo, as professoras mais criativas resolveram criar o túnel do terror. Não era mais do que o corredor pelo qual os alunos passavam todos os dias, porém o escureciam completamente. Colocavam decorações sinistras, gelo seco e desafiavam os alunos a chegarem até o final.
Aquele era o dia mais esperado do ano, havia quem morresse de medo e não se atrevesse a passar da primeira cortina; havia quem entrasse dizendo que não era nada assustador, apesar de sair tremendo lá de dentro e havia a parte favorita de todos: os gritos, as correrias, as fugas desesperadas e as risadas no final.
Algumas professoras, funcionárias e monitoras eram as responsáveis pela decoração e por ficar dentro do túnel fantasiadas da forma mais horripilante possível, assustando os alunos e até alguns adultos que se aventuravam junto. Depois saíam pelas salas, perseguindo àqueles que não tiveram coragem de entrar.
A festa acabava com uma boate macabra na quadra da escola. Todo o ano. Sempre.
E os alunos participavam aos montes, exceto aqueles cuja religião não permitia, estes ficavam em casa chorando e implorando aos pais para poderem ir no próximo ano. Quando o Halloween acabava em um ano, as crianças e adolescentes já estavam planejando as fantasias do próximo.
Era divertido, sempre foi, mas não daquela vez.
Selena tinha chegado mais cedo para dar tempo de arrumar tudo. Estava acompanhada de Mirela, Taís e Geneci. Naquele ano, a festa era por conta delas. Arrumaram tudo rapidamente, valendo-se da experiência das festas anteriores. Selena não notou nada de anormal, não até que as luzes se apagassem, não até que a caixa de som entrasse em funcionamento.
Geneci escolheu a trilha sonora e se Selena pudesse culpar algo pelos fatos daquele dia, culparia a música. Uma das canções era entoada por crianças, quase à capela, mal tinha um fundo sombrio, e se assemelhava muito a uma invocação. Era em inglês ou uma língua parecida, Selena não entendeu todas as palavras, mas sabia que elas repetiam “cinzas” logo no início da música.
Quando a música tocou pela primeira vez, nada mais foi igual naquele corredor. Selena se arrepiou toda e sentiu medo, medo de verdade, não encenado. Mas aquilo era Halloween, o corredor era feito para despertar estes sentimentos, como poderia dizer a alguém que queria parar? Que queria sair dali e fugir da própria invenção?
Ela aguentou. Aquela luz piscante que vinha de uma caixa de som enjambrada no fundo do corredor ficou ruim para ela, pois a fazia enxergar os alunos, depois eles sumiam. Enxergava. Sumiam. Selena teve dor de cabeça nos primeiros minutos.
Pela primeira vez na vida ela estava com uma sensação ruim, como se houvesse mais alguém no túnel além dela e das colegas. Alguém que não deveria estar ali. E Selena já havia decidido que no ano que vem não seria mais voluntária para aquela atividade.
A tarde estava quase no final.
O monitor foi um dos últimos a entrar no túnel, empurrando a cadeira de rodas do aluno que não podia caminhar. As luzes piscaram, as bruxas infantis recomeçaram a sua invocação. O garoto não gritou e também não se demorou no túnel, pediu ao monitor para sair.
Mirela não se levantou do chão. Ninguém viu como foi que ela caiu, mais uma porção de crianças entrou e saiu. Todos achavam que Mirela estava tentando assustar, jogada daquele jeito, como um cadáver fresco.
Foi Selena quem andou até ela, pediu que Geneci acendesse a luz. Achou que o sangue era falso, mas quando levantou sua cabeça teve certeza de que tocava diretamente no cérebro da colega.
Geneci gritou. Taís saiu correndo para a rua. Selena ficou quando a diretora chamou a ambulância, que precisou carregar Mirela mesmo sabendo que já não habitava mais o mundo dos vivos, e também Geneci, em meio a um ataque de pânico.
Horas depois.
O delegado estava de mau-humor e não parecia ser um sujeito agradável, nem em seus melhores dias. Selena odiava aquilo no serviço público, sempre atendia bem seus alunos, aguentava coisas inimagináveis e voltava com um sorriso no outro dia, mas toda vez que precisou ir a um lugar público, nunca recebeu o mesmo tratamento.
De cara amarrada, cheirando a cigarro, ele começou a falar:
— Como você sabe, sua colega chegou morta ao hospital. O que aconteceu lá dentro daquele túnel?
— Ela deve ter caído, estava escuro e tinha o gelo seco, eu só a vi no chão.
O delegado jogou em cima da mesa uma foto enorme, de um rombo na parte de trás de uma cabeça que Selena julgou ser de Mirela, mas ela desviou o olhar.
— Ela está com o legista agora, mas ele já tem certeza, o que matou ela não foi o tombo. Ela tem... marcas que se assemelham a garras de algum animal, como se, simplesmente, tivessem lhe arrancado um pedaço do cérebro.
— Não entendo...
— Nem eu. Não acho que isso seja obra de nenhum ser humano, professora, uma espécie de animal tem que ter entrado neste tal túnel.
— Bem, alguém teria visto.
— Mas a senhora mesma disse que estava escuro.
Selena voltou para casa ainda mais confusa. Se sentia culpada pela morte da colega e não sabia o que fazer.
Anoiteceu. A noite de Halloween chegou. Selena se trancou em casa e fingiu que não estava. Não queria dar doces a ninguém, não queria mais brincar daquilo. Nunca mais.
O telefone tocou. Era Geneci.
— O que você disse ao delegado?
— Eu não fazia ideia do que dizer.
— Selena, não finja que você não viu... que não ouviu.
Selena fechou os olhos. O garoto na cadeira de rodas, Roberto, do sétimo ano. Ela também tinha ouvido. Ele repetiu cada palavra daquela música de invocação. Entre as luzes piscantes ela o viu levantar da cadeira, mas aquilo era impossível, o garoto tinha paralisia cerebral, as pernas não sustentavam o corpo desde a primeira infância.
Quando chegou até Mirela, foi esta a palavra que ela repetiu em seu ouvido: “Roberto”.
— Selena. Aquela música maldita dizia quatro coisas: cinzas, espelhos, sussurros e sangue.
— Para com isso! É só coincidência, não pode ser.
— Selena, escuta. Alguma coisa possuiu aquele garoto. Ele matou a Mirela e vai vir atrás de nós. Quatro elementos, quatro vozes de meninas, quatro mulheres. Os sussurros... não paro de ouvir a voz dele cantando em meus ouvidos...
Na noite de Halloween a professora Geneci morreu de um ataque estranho, no hospital. Os médicos diagnosticaram como um infarto, mas não entenderam os tímpanos explodidos.
A monitora Taís jantava com a família, alheia aos assuntos do dia, assustada, se sentindo observada. De repente, teve dificuldade de engolir a comida, sentiu um gosto metálico e se engasgou. Quando olhou para o prato, percebeu que estava mastigando o próprio reflexo, misturado ao macarrão, milhares de micropartículas de espelho reluziam. Taís morreu no hospital.
Sem saber de nada, Selena tentava dormir. Mas foi acordada com a canção macabra no meio da noite. Olhou pela janela e lá estava ele, Roberto, em pé. E falou com a voz grossa, e as palavras perfeitas como nunca lhe foi possível pronunciar:
— Noite de Halloween, professora. Tudo o que a senhora chama, realmente vem.
Ele fez uma reverência antes de riscar o fósforo.
Selena ainda o escutou cantar: “Cinzas, cinzas”, enquanto a lavareda de fogo contornava todo o seu pequeno chalé, não lhe dando chance alguma de escapar.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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