Um lugar na barca
Quando um pregador reúne um exército formado apenas por crianças, a esperança se transforma em uma marcha sem retorno. A estrada para Jerusalém guarda horrores maiores que qualquer batalha.
7/28/20268 min read

“Sois livres de todo mal, mártires da Santa Igreja, que quem morre em tal peleja merece paz eternal.”
Auto da Barca do Inferno – Gil Vicente
Estevão de Cloyes falava alto, fazendo uma pedra como palco em um vilarejo francês. Os homens que vinham com ele, acompanhados de dezenas de crianças, difundiam entre as comunidades muitos milagres realizados por aquele pastor cristão.
— Em nome de Deus — dizia Cloyes — temos que tomar Jerusalém de volta para os cristãos! Quem me disse foi o próprio Cristo, irmãos, que eu deveria liderar os puros de coração até Jerusalém, e o senhor nos dará a graça de recuperarmos o lugar que é nosso por direito!
O fervor religioso cresceu rapidamente pelas regiões por onde eles passavam e espalhou-se pela Europa como se o povo necessitasse daquilo. Cloyes denegria os judeus por terem uma crença diferente e amaldiçoava os muçulmanos por estarem no controle daquela cidade onde Jesus foi morto pelos romanos e ressuscitou. Afirmava com entusiasmo que o Santo Sepulcro, maior símbolo da fé cristã, somente poderia ser tomado pelos puros de coração e por isso pedia que as famílias lhe entregassem as crianças menores de 14 anos.
Após ouvir os discursos, algumas crianças se voluntariavam, para orgulho dos pais, outras eram enxotadas de casa e obrigadas a se juntarem àquela multidão e acompanharem aqueles homens estranhos. As famílias mais numerosas ficavam felizes em atender ao chamado de Jesus doando um filho e, tinham uma boca a menos para alimentar.
Porém, nem todos ficavam convencidos. Não que quisessem viver em pecado, mas muitas mães pensaram em pedir perdão a Deus por não darem os filhos à causa, ele havia de entender. Essas, escondiam os filhos na mata, em alçapões nos assoalhos das pequenas casas e até mesmo embaixo da própria saia. E esse era o trabalho de Serge.
Serge era órfão, ladrão, vivia um pouco em cada lugar e nem sabia onde nasceu ou sua idade. Já não tinha alguns dedos em uma mão por ter sido pego roubando e era grato por não terem lhe decepado a mão inteira. Assim que conheceu o pastor Estevão, encontrou um rumo para sua vida. O homem falava em Guerra Santa, dizia que matar um infiel não era assassinato e que Deus perdoaria qualquer pecado daqueles que estivessem ao seu lado, travando a sua batalha.
Não que Serge alguma vez na sua existência miserável tivesse pensado em pedir perdão a Deus por alguma coisa, ele nem mesmo tinha certeza de que Deus existia, mas enfim, os homens que auxiliavam o pastor tinham comida e vinho assegurados todos os dias e ainda podiam matar casais que se recusassem a entregar os filhos e estuprar as mulheres, afinal, estavam se opondo à vontade de Deus e Serge, que agora era seu servo, tinha obrigação e puni-los.
Em poucos meses o grupo já havia reunido milhares de crianças. Andando de terra em terra, de vilarejo em vilarejo, de cidade em cidade, por bem e por mal, foram aumentando seu exército puro. Levavam crianças a partir de 5 anos, mas no meio daquela multidão não havia como ter certeza que não tinha nenhuma menor. Ainda ganhavam doações de armas e alimentos para que fossem vitoriosos em Jerusalém quando chegassem com os puros de coração, aqueles que não tinham nenhum pecado.
Quando acharam que já tinham um exército suficientemente grande, iniciaram a peregrinação à Terra Santa. Pelo caminho, pequenas aldeias eram saqueadas e queimadas para treinamento dos soldados, e a viagem tornou-se infernal aos pequenos guerreiros.
As pernas cansavam. Os braços não tinham força de carregar as lanças, espadas ou estandartes, os pés viravam carne viva. Montados em cavalos, os homens batiam nas crianças menores, nas mais lentas. Serge gostava de castigar com cortes nas orelhas aqueles que choravam, para servirem de exemplo aos outros.
Não demorou para que o exército de inocentes começasse a perder soldados.
Os pequenos iam morrendo pelo caminho. Os que caíam mortos eram atirados em qualquer lugar: matas, ravinas, não havia tempo para funerais. Os que adoeciam eram largados a própria sorte.
— É a vontade de Deus — dizia Cloyes em cada morte — estarão todos no reino dos céus.
Quando chegaram à beira do Mar Mediterrâneo, oito meses após deixarem o Reino da França, estimava-se que mais de 300 crianças haviam perdido a vida.
Serge sabia que o pior ainda estava por vir, em seus dias de nômade conheceu muitas pessoas, e algumas que estiveram em Jerusalém diziam que pior que o mar, somente o deserto.
Cloyes parou nas margens do Mediterrâneo, pôs todas as pessoas ajoelhadas, fez uma pequena celebração religiosa, chamou Deus de várias formas, fez com que seu público repetisse suas palavras e então disse:
— É a vontade de Deus que cheguemos até Jerusalém. Hoje, todos aqui testemunharão um milagre! — cravou um bastão no chão e esperou que o mar se abrisse para lhes dar passagem. Nada aconteceu.
Serge perguntou ao companheiro ao lado se o pastor estava tentando abrir o mar, mas o homem apenas lhe cutucou e fez sinal para que prestasse atenção.
— Precisamos rezar com mais fé!
E Cloyes obrigou as pessoas a mais uma hora de celebração religiosa. Serge queria rir quando o homem voltou a cravar o bastão no chão e nada aconteceu, mais uma vez. Decepcionado, Cloyes ficou em silêncio, de repente ouviu uma voz.
— Deseja atravessar?
Levantou a cabeça com pressa achando que Cristo veio em pessoa fazer aquele milagre, mas era apenas um mercador. O homem lhe ofereceu barcos, acomodaram as crianças que restaram e puseram-se a travessia.
Serge batia no bolso e sentia as duas moedas que levava, furtadas em uma casa. Um homem lhe disse uma vez que era costume dos gregos colocar moedas nos corpos dos falecidos para pagar o barqueiro e ser conduzido através do rio que separava os mundos dos vivos e dos mortos. O pastor lhe assegurava que aquele não era um costume cristão e que para ter o corpo intacto na vida eterna um homem tinha que ser enterrado após sua morte, apesar de que não concedeu esta graça a nenhuma criança morta pelo caminho. Pelo sim ou pelo não, Serge carregava as suas moedas. Não acreditava completamente em Deus, mas acreditava que teria outra vida após essa e a próxima havia de ser melhor já que estava redimido dos seus pecados desde que entrou para o exército cristão. As moedas garantiriam seu lugar na barca.
O mar Mediterrâneo não era conhecido pela calmaria das águas. No quinto dia de viagem, faltando apenas um para chegar nas terras muçulmanas, uma tempestade se formou. Um dos barcos naufragou, levando consigo homens e crianças. Quando finalmente chegaram ao outro lado já não puderam computar quantas baixas tiveram.
No início da última parte da peregrinação Serge se divertiu junto com os outros homens saqueando aldeias muçulmanas, atacando caravanas de comerciantes e ensinando as crianças a fazerem o mesmo, mas, logo o deserto mostrou-se impiedoso com forasteiros.
A areia que o vento levemente soprava ajudava a abrir feridas na pele castigada pelo sol. A desidratação era inevitável, a água que tinham acabou-se em poucos dias. As crianças, boa parte descalças, já não tinham força para caminhar. De todo o caminho, a mortandade foi maior ali. Aves carniceiras sobrevoavam o grupo, na espera.
Perderam-se no tempo, fazendo preces para não morrerem a cada dia, e, quando puderam avistar o muro de Jerusalém, o exército das crianças era um terço do tamanho original.
Estavam sem preparo, sem força, com sede, fome e exaustos. Ainda assim, Cloyes ordenou que as crianças empunhassem suas armas e corressem até o portão principal.
— Deus estará com vocês. Até esta noite, estaremos dentro dos muros de Jerusalém!
Assim que as crianças partiram em disparada em direção à cidade com aquele estranho alarido de guerra, assustando as pessoas que ali chegavam e saíam, Cloyes e dois homens de confiança montaram em seus cavalos e saíram em retirada pelo lado oposto, pediriam perdão a Deus mais tarde. Distante, Serge e os outros sujeitos não perceberam, vidrados com aquela cena que não parecia nem mesmo um treinamento para ataque.
Quando o exército curdo percebeu a iminente batalha, saiu para rua em defesa da cidade e surpreenderam-se ao ver que estavam sendo atacados por crianças.
Muitos inocentes, ao enxergarem os muçulmanos trajados de forma estranha, montados nos grandes cavalos, largaram as armas e sentaram-se no chão, pondo-se a chorar. Os que persistiram no ataque, motivados pelas palavras sagradas que os conduziram até ali, foram massacrados pelos sarracenos.
Quando os homens perceberam que o exército de coração puro nem ao menos teve uma chance, procuraram pelo seu líder e não o encontraram, assim, tentaram fugir, mas os soldados árabes os alcançaram e aprisionaram.
Como Cloyes previu, durante a noite estavam todos em Jerusalém, mas como prisioneiros e não como donos do lugar e seus símbolos religiosos. As crianças que sobreviveram choravam, os homens tinham as mãos amarradas, as bocas secas e as faces escoriadas.
Um sujeito magro, de cabelos negros adornados por um turbante e com um belo cinturão dourado apertando a túnica, andava entre os prisioneiros. Serge não tinha certeza, mas devia ser o Sultão Saladino, aquele que devolveu Jerusalém aos muçulmanos anos atrás, acabando com o êxito dos primeiros cristãos que tomaram aquele local sagrado.
O homem falava com os outros em uma língua que Serge não entendia, mas era claro que ele estava descontente, balançava a cabeça e em seus olhos havia algo indecifrável.
— Sultão, me dá a honra de executar um deles — disse um nobre a Saladino.
— Vamos matar as crianças? — perguntou outro.
— Não! — respondeu o Sultão. — Cada vez mais entendo a diferença entre o nosso Deus e o deles. Quando os cristãos tinham Jerusalém nós não éramos bem-vindos, nem os judeus, matavam pessoas indefesas sem motivo algum, mas sempre pensei que não se importavam em massacrar quem não seguia a sua religião, agora, vejo o que são capazes de fazer ao próprio povo. Nenhum Deus de amor ou misericórdia concordaria com uma coisa assim. Nós conquistamos tantas terras, conhecemos tantas culturas e nunca vi um absurdo como esse.
O Sultão deixou o corpo cair pesadamente em uma cadeira enquanto observava o rosto de cada criança. Não mandaria seus homens escoltá-las de volta, já tinha dado a chance de boa parte dos cristãos irem embora quando tomou Jerusalém.
Também não estava certo de que poderia confiar nelas, um dia não seriam mais crianças e ainda que fossem poucas, poderiam tornar-se perigosas.
— O que faremos com as crianças?
— Deixem-nas aí. Façam-nas escravas.
— E os homens?
— Decapitaremos ao amanhecer. Quero as cabeças empilhadas na entrada da
cidade para o assunto correr por todos os reinos. Os francos precisam entender que tiveram Jerusalém por mais de 100 anos, tomaram de nosso povo sem que estivéssemos ao menos preparados para uma batalha. Agora esta terra é nossa e estaremos prontos para defendê-la em cada tentativa deles, por mais absurda que seja.
Quando amanheceu, os homens tiveram as cabeças posicionadas em cima de pedras. Alguns choravam e clamavam por misericórdia, mas Serge estava tranquilo. Travou uma batalha por Deus e não tinha pecado algum, agora que estava ali para morrer em nome Dele, com certeza tinha um lugar garantido na barca, com destino a uma vida sem sofrimento. Tateou o bolso da calça e não encontrou mais as moedas. Aquilo era um mau sinal. Arregalou os olhos e enxergou a sombra de um homem no chão arenoso de Jerusalém, e aquela foi sua última visão.
Foi próprio sultão quem deu início a cerimônia, arrancando a cabeça de Serge do pescoço com um único golpe de espada. Deixou que Alá brigasse com o Deus cristão por aquelas almas, sabia que os homens chegaram ali acreditando na remissão dos pecados, porém, em seu mundo, não haveria destino para eles em outro lugar que não fosse o inferno.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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