Um lugar quase infeliz
Uma jovem parece amaldiçoada: todos os homens que desejam se casar com ela acabam mortos. Apenas sua mãe conhece a origem da tragédia que atravessa gerações.
8/15/202614 min read

Amelie levou a tela e o cavalete para o quintal. Embaixo da árvore frondosa, tudo que via era o mar franco. Aquela pintura era a maior que já tinha feito e estava perfeita em detalhes, tal qual o desenho em sua mente. Combinou as cores para fazer o tom exato do telhado daquela casa em específico. Parou e admirou a própria obra, estava tão real que quem conhecesse o lugar se sentiria em casa. Fechou os olhos por alguns instantes e parecia que a brisa que soprava em seu rosto vinha de longe dali. Foi remetida há alguns anos atrás, quase podia ouvir a voz do pai. Quase.
Vincent von Terzaghi era o jurista de um dos pequenos ducados austríacos localizados em terras alemãs pelos quais a França e a Prússia ainda derramariam muito sangue para ter controle. Em 1869, após a Prússia ter vencido a Áustria na Guerra Austro-Prussiana, todo o cidadão daquele ducado pagava impostos aos prussianos pelo direito de continuar vivendo ali.
Amelie Von Terzaghi via o pai reclamando e praguejando aquela gente toda a vez que desembolsava generosas quantias em dinheiro, mas nunca entendeu porque ele simplesmente não ia embora, afinal, por que todo mundo não ia embora? Uma vez deu essa ideia ao pai e a resposta dele foi uma risada alta e a afirmação de que mulheres e política era a pior combinação do mundo.
— O que seria de nós se mulheres como você governassem os ducados, minha filha?
Amelie era a filha mais velha, tinha dois irmãos e duas irmãs. O pai jurista, Elisa, a mãe, esposa do pai. Com os meninos o pai debatia questões militares, ensinava-os a cavalgar e explicava a logística de uma casa e o papel do homem em comandá-la. Às meninas era reservado um lugar a sombra ao lado da mãe para bordar, coisa que Amelie sempre detestou, mas era dada a arte das pinturas desde criança. Apesar de viver em uma casa cheia, sempre se sentiu só, não fosse a companhia de Gale, uma coruja de estimação, pouco ouvira a própria voz dentro de casa.
Ela tinha quinze anos quando o pai chegou em casa certa tarde e anunciou que havia lhe arranjado um noivo. Olhou para a mãe buscando socorro, mas ela sorriu de felicidade. Atreveu-se a dizer:
— Não penso me casar, meu pai!
— Ah não? E queres o que para tua vida?
— Morar em uma cidade de verdade, ver muitas pessoas e pintar os meus quadros.
A resposta veio em forma de um tapa no rosto e a ordem para retirar-se da sala. Seu destino estava escolhido. Ela parou na escada para ouvir o pai reclamar com a mãe que nunca deviam ter dado estudo às meninas, elas ficavam cheias de ideias e tratavam de envergonhar a família.
Isso que Amelie não lhe disse nem a metade da verdade. Queria ir embora daquele vilarejo, era o seu sonho. Queria pintar o que bem entendesse e ter a chance de expor suas obras em locais onde as pessoas soubessem apreciá-las e queria muito, acima de tudo, morar com Jana. Jana estava em todos os seus planos. Jana estava em seu pensamento. Jana estava em seu coração.
Tinha acontecido há algum tempo. A mãe ordenou que Amelie fosse até a costureira experimentar seu novo vestido, porém, Leny não estava e deixou a filha Jana trabalhando em seu lugar. Amelie ficou com as vestes de baixo, enquanto Jana, delicadamente a vestiu com o tecido macio. Tocou sua barriga para ajustar a peça e aquela mão foi passeando pelo seu corpo a cada alfinete que precisava colocar. Jana era alta, tinha os cabelos escuros e os mantinha em um coque estranho no alto da cabeça, o que revelava um pescoço branco e longo, adornado por um medalhão verde que era exatamente da cor de seus olhos. Amelie se sentiu tão atraída que doeu em algum lugar incomum no corpo. Ainda mais quando viu Jana sorrindo e lhe elogiando através do espelho.
Elas se tornaram amigas, confidentes. Jana visitava sua casa quando o pai não estava, o que acontecia com frequência já que ele ia a outros ducados e vilas a trabalho. Algum dia, enquanto andavam pelo quintal, as duas sentaram-se na sombra de uma árvore.
— Nunca falamos sobre garotos — Jana disse.
— Não me interessam — respondeu Amelie e ao falar em voz alta concretizou o que gritava em silêncio no seu interior — nenhum deles Jana, sei que é estranho e errado, mas também sei que não sou a única. Se eu puder, jamais beijarei um garoto na boca em toda a minha vida.
Jana sorriu e pegou a mão de Amelie.
— Nem eu — ela disse.
Elas ficaram um tempo longo se encarando de forma estranha, Amelie não sabia exatamente o que estava acontecendo ali. Jana levantou-se para ir embora, mas antes, virou-se para trás e perguntou a Amelie se poderia visitá-la durante a noite. Amelie teve um calafrio e pensou que a mãe jamais permitiria, mas bem, ninguém precisaria saber. Lembrou-se do pinheiro exuberante plantado nos fundos da casa, cujos galhos batiam na janela do quarto e disse a Jana que deixaria a janela aberta.
Mal tinha escurecido quando ouviu as folhas balançando. Ajudou Jana a entrar no quarto. E então aconteceu. O primeiro beijo, o primeiro romance. Com Jana, Amelie não tinha medo de nada. E os encontros passaram a ser frequentes. Jana entrava pela janela e ali ficavam as duas aos beijos e carícias por algumas horas, até que Jana ia embora em segurança pela escuridão.
Agora, sentada em seu quarto prestes a casar com um estranho, Amelie sentiu medo de que tudo aquilo que vivia com Jana estivesse perto de chegar ao final. Escreveu uma carta e entregou à Gale, que estava acostumada ao endereço de Jana. Na noite seguinte, o pai viajaria e já havia anunciado que Niklas, o filho do pastor, viria conhecer sua noiva assim que ele retornasse de viagem.
No anoitecer seguinte, Jana bateu na janela, mas não quis entrar.
— Hoje quero te levar a um lugar.
Aquilo ela arriscadíssimo, mas Amelie foi. Andando pelo escuro, de mãos dadas com Jana seguiu cada passo seu e surpreendeu-se quando ela bateu na porta lateral do atelier de costura de sua mãe, uma portinhola abriu-se e elas entraram.
Dezenas de mulheres do ducado encontravam-se ali e algumas que Amelie nunca tinha visto antes. Elas jogavam cartas, bebiam, fumavam. Algumas escoradas pelos cantos liam exemplares de obras reservadas aos homens. Amelie estava confusa, foi então que Leny as encontrou. Olhou para as duas de mãos dadas e sorriu.
— Amelie, querida bem-vinda ao Clube, a regra aqui é só uma: ser feliz. Amanhã, quando saíres na rua, pode encontrar todas essas mulheres e nenhuma delas dirá uma única palavra sobre o que acontece aqui. E fique tranquila, seu lugar é ao lado de Jana, não casarás obrigada, com ninguém.
Leny saiu, sumindo entre as mulheres. Jana beijou Amelie ali mesmo, em público, ninguém pareceu notar. Depois conduziu-a por um corredor que saiu dentro de uma casa, a casa de Jana e sua mãe. Levou Amelie ao seu quarto e amou-a ardentemente, pela primeira vez. Amelie queria que aquela noite nunca acabasse, queria ter Jana todas as noites, por toda a sua vida. Era amor que sentia e seu sonho seria o mais difícil de realizar.
Vincent voltou mais cedo da viagem de trabalho naquela vez. Contou a Amelie e Elisa que Niklas havia sido assassinado, em uma vila perto do ducado. Elisa apenas arregalou os olhos, mas Vincent não deu prosseguimento ao assunto.
— Onde ele estava, marido?
— No bordel, parece que estava excessivamente bêbado, arranjou uma briga e levou várias facadas.
— No bordel do qual era grande frequentador — Amelie encarou a mãe, que não parecia surpresa com a notícia.
— Elisa, não dê ouvidos às criadas, o pastor está sofrendo, Niklas era apenas um rapaz…
— Achei que ele já me devesse fidelidade, achas bonito, meu pai, que meu futuro marido tenha sido assassinado em um bordel?
— Ora Amelie, não exagere, ele era um RAPAZ entendeu, onde ia era assunto DELE. Sorte que, poucas pessoas ficaram sabendo do noivado. Não é necessário vestires o luto, minha filha, pode até ser pior.
Amelie saiu da sala rindo. Não vestiria luto coisa alguma, estava livre daquele compromisso macambúzio, estava livre para sua Jana.
Mas a felicidade não durou tanto tempo. Alguns dias depois, Vincent chegou em casa acompanhado do filho do comerciante, Matthias era o nome do rapaz e o apresentou a Amelie como seu noivo. Sentada no sofá da sala, como se fosse uma estranha na própria casa, Amelie observava os homens conversando. Vincent chamou Elisa para a cozinha e nisso Matthias sentou-se ao seu lado no sofá, tocou sua bochecha e cochichou:
— Você poderia me encontrar no estábulo mais tarde, boneca.
Amelie gritou e entrou cozinha adentro dizendo ao pai que tinha sido desrespeitada dentro da própria casa. Matthias vinha atrás dela se desculpando, afirmando que fora mal interpretado. Após colocar panos quentes na situação e o rapaz ir embora, Vincent entrou na casa aborrecido, perguntando à Amelie o que havia acontecido ali.
— Devia ter ido meu pai, me deitar com ele no estábulo? Achei que as moças deviam manter-se castas até o casamento.
Ele ia falar, mas foi interrompido por Elisa.
— Querido, esse rapaz não. Por favor. Todo o ducado sabe das ervas alucinógenas que ele usa e que ele já foi noivo duas vezes, a primeira moça apareceu enforcada em sua própria casa e a segunda, filha de camponês, foi levada embora machucada… o homem disse que Matthias a desonrou e…
— Elisa, eu já disse que as fofocas da criadagem pouco nos importam. Ele voltará outro dia, quando Amelie estiver mais calma.
Amelie estava decidida, pediria ajuda ao Clube mais uma vez. Teve dificuldades em dormir naquela noite e, logo que conseguiu, acordou-se com gritos na vizinhança. Da janela do quarto avistou fumaça ao longe. Sentou-se na sala com os pais para saber o que acontecia no ducado. Em pouco tempo, um sujeito apareceu com a notícia de que duas pessoas haviam morrido, inalando a fumaça do incêndio. Era Matthias que estava deitado no estábulo ao lado de Paulina de Croÿ.
— A filha do conde?
— Sim senhor.
Vincent fechou a porta e chamou Amelie de bruxa.
— Minha filha mais velha é uma pessoa estranha, cujo a única amiga é a filha de uma costureira que nem pai tem e prefere a companhia de uma coruja às pessoas. Arranjo dois rapazes para casar com ela e os dois morrem de repente, em um condado onde não morre ninguém! Não tente me convencer de que isso é coincidência, Amelie.
— Eu não saí de dentro dessa casa, meu pai. Está me acusando de matar duas pessoas?
— Amelie, eu não vou viajar antes de te ver casada. Casada! Pobre conde, meu Deus, que vergonha..., mas já sei exatamente o que vou fazer!
No dia seguinte a janela do quarto de Amelie tinha barras de ferro. O pai queimou todas as suas pinturas, a proibiu de sair de dentro do quarto e ordenou as criadas que lhe servissem três refeições diárias. Amelie ficou chorando, sendo Gale a sua única companhia. Quando o pai voltou mais tarde, anunciou que ela se casaria em três dias, mas desta vez não lhe disse quem era o pretende. Pegou a gaiola com a coruja e tirou-a do quarto, deixando Amelie aos prantos. Ela não dormiu naquela noite, ficou observando através das grades a lua mudar de lugar. Gale apareceu de repente em sua janela. Amelie ficou feliz da vida em rever seu animal, escreveu um bilhete para Jana dizendo que estava perdida. A coruja levou e trouxe rapidamente a resposta: um coração.
O cárcere durou dois dias. Dois intermináveis dias, Amelie devia estar casada no dia seguinte. Ouviu gritos no corredor de seu quarto, a mãe tentava falar com o pai, que não lhe dava ouvidos. A porta se abriu e ela foi arrancada para fora, com força.
— O convento. Arrumei um lugar perfeito para a senhorita von Terzaghi…
— Vincent, não faça isso com nossa filha!
— E você acha que conseguiremos casá-la com alguém? Somos uma vergonha, Elisa! Vou mandá-la embora antes que alguém apareça aqui querendo colocá-la em uma fogueira.
— O que aconteceu?
— A carruagem que trazia o conde de Croÿ e seu filho Jonas, simplesmente bateu em um galho e rolou por uma ribanceira. Hoje encontraram os corpos do cocheiro, do conde e de Jonas de Croÿ, que seria marido de Amelie. O conde concordou com o casamento as pressas para acabar com o falatório sobre a filha falecida e o filho do comerciante e agora, estão todos mortos.
Amelie foi jogada dentro de uma carruagem. O pai não deixou que ela se despedisse da mãe, disse-lhe que não precisava de coisa alguma, que teria o necessário no convento. Três dias e três noites, Amelie viajou acompanhada de um cocheiro que parecia mudo, alimentou-se mal por dias e tudo que desejava era tomar um banho. Olhava para as árvores na esperança de que Gale a tivesse seguido, mas não havia sinal dela. Dessa vez, estaria mesmo só.
O convento localizava-se no meio do nada. Amelie não fazia ideia de onde estava. Era um prédio velho, feio, escuro e fedorento. Foi recepcionada por uma freira velha e ranzinza, que lhe entregou um hábito e ordenou que se banhasse. Dali para diante foi como se sua vida tivesse acabado. Amelie não teve um minuto se quer de prazer, sentia falta de Jana, da mãe, de Gale, de suas telas e chorava todas as noites em sua cela solitária.
Ganhou tarefas diárias que incluíam limpeza e oração. Tentaram lhe ensinar muitas rezas, mas não aprendeu nenhuma. Seus olhos vistoriavam o convento noite e dia. Em pouco tempo, Amelie tinha as mãos e a alma calejadas. Eram dias a fio olhando para o nada e sofrendo naquele local ao qual ela não pertencia. Certo dia, a madre superiora a chamou em sua sala.
— Noviça Amelie, serei sincera com você. Estás aqui a pedido do seu pai, pois ele fez uma boa doação para o nosso convento, mas vejo que estás muito insatisfeita, assim como nós. Você está alheia a tudo e não está disposta a abrir seu coração para Jesus. Alguma coisa que deixou fora desse convento está desviando a sua atenção, algo pecaminoso que nem quero imaginar! É evidente que você não pertence a esse lugar, mas gostaria de dizer que quando se acostumares, ficará bem mais fácil. Obviamente, se eu me preocupasse com os sentimentos de cada moça que entra contrariada aqui, restariam poucas no nosso convento e esse lugar nem se quer estaria em pé. Portanto, digo que trate de se resignar pois suas atitudes não lhe levarão a lugar algum.
Amelie não pensou em responder. Mal ouviu metade do que foi dito, quando estava prestes a sair da sala da madre avistou a esperança pousada em sua janela. Gale havia a encontrado.
Naquela noite abriu a janela de sua cela para a coruja entrar, abraçou o animal e chorou com aquele encontro, seu coração se encheu de esperança. As freiras entrariam em oração no próximo mês, Amelie se ofereceria para o turno da noite e, sairia pelo portão dos fundos. Elaborou uma carta para sua amada Jana, na esperança de que a coruja a encontrasse, na esperança de que Jana soubesse onde ela estava. Marcou a noite da fuga e disse que esperaria Jana na floresta que enxergava de sua janela, embaixo da árvore de flores rosas.
Não sabia se a coruja acharia a amada, não sabia se Jana ainda tinha qualquer interesse nela depois de tantos meses de ausência e não fazia ideia do que tinha atrás daquela floresta, a única coisa que queria era ir embora dali. Cortou os cabelos loiros rente à cabeça, embaixo do hábito ninguém notou.
Pôs seu plano em prática. Passou a repetir as orações, melhorou nos serviços, interagiu com as demais freiras. A madre pensou que a conversa tinha adiantado. Amelie se ofereceu para as orações noturnas. Na noite da fuga orou com sinceridade, quando outra noviça chegou para substitui-la, não voltou à sua cela. Escondendo-se nas sombras andou até o portão dos fundos. Escalou-o com certa dificuldade e pulou para o outro lado, para o escuro, para o frio. Teve sorte que a lua deixava o céu claro e assim, pôs-se a andar como louca em direção à floresta, às flores cor de rosa que enxergava de sua janela. Amelie era só medo. Medo de ser descoberta, medo de ser recapturada, medo de se perder na mata, medo de ser atacada por animais e, principalmente, medo que Jana não estivesse lá.
Quando chegou ao ponto de encontro não havia ninguém, Amelie ficou decepcionada, a segunda opção era sair daquela floresta e descobrir onde estava. Ouviu o relincho de um cavalo, ficou estaqueada onde estava, foi então que ouviu uma voz.
— Amelie?
Era ela, sua Jana, com Gale sentada em seu ombro. Os olhos de Amelie encheram-se de lágrimas, ela contornou uma árvore e encontrou Jana em uma carroça. Jana desceu assim que a viu. Aquele abraço espantou o frio da noite, os lábios de Jana procuraram sedentos pelos de Amelie.
— Nunca mais, meu amor, nunca mais ficaremos separadas.
Jana colocou Amelie na carroça e balançou as rédeas, tinham que sair dali. Antes de amanhecer, deveriam estar muito longe. Jana estava há horas na floresta, pensou que Amelie não fosse aparecer. Aquilo era a maior loucura que as duas garotas já tinham feito na vida e também era seu dia mais feliz. Na presença uma da outra não tinham medo de nada. Amelie tirou o hábito e atirou-o na floresta, trajou roupas que Jana trouxe. Quando escorou-se no ombro de Jana, ela sentiu falta dos cabelos longos de Amelie. Passou a mão por sua cabeça e sorriu.
— Adorei — ela disse.
No amanhecer Amelie preparou um lanche, ambas o consumiram na carroça, não deviam parar. Jana entregou a Amelie uma carta assinada por Elisa.
Querida Amelie,
não se culpe por nada, eu sempre soube que você não aceitaria se submeter a homem nenhum. Todos aqueles que morreram por você mereceram o destino que tiveram. O conde morreria de qualquer jeito, ele estava prestes a tomar decisões que prejudicariam todo o condado. Seja feliz, minha querida, algum dia a gente vai se encontrar
amor, Elisa.
Junto com a carta Elisa mandava uma quantia generosa em ouro. Leny não tinha como dar ouro à Jana, mas a carroça estava cheia de tecidos e aviamentos e Jana era ótima costureira.
— Minha mãe…
— Ora Amelie, sua mãe fundou o Clube. É membro ativo dele desde sempre. Quem você acha que deu a localização dos seus pretendes? Que planejou a morte de cada um deles? Pode até que as mulheres do ducado pareçam submissas, mas é nas noites que elas decidem tudo o que vai acontecer lá. Não somos as primeiras a receber ajuda.
— Bem, ela nunca conseguiu convencer meu pai…
— Convencer não é exatamente a palavra, mas você está aqui agora, então, o que seu pai queria, não aconteceu.
Amelie nunca havia pensado por aquele lado.
— Jana, estamos aqui, mas onde é aqui?
— Quase na França — Jana sorriu — temos uma longa estrada, minha mãe me disse o caminho. Você queria morar em uma cidade, minha querida? Que tal entre o mar e as montanhas?
E as meninas entraram em uma caravana de viajantes e saíram da Alemanha tranquilamente. Já na França, desfizeram-se da carroça e do cavalo. Pegaram trens e pagaram viajantes que as deixaram em Nice, recém separada da Itália. Foram dizendo as pessoas pelo caminho que eram irmãs e seu povoado havia sido atacado, que estavam em fuga. Duas moças queridas e educadas, encontraram quem as ajudasse pelo caminho e, com sorte chegaram bem a Nice.
Ficaram dois dias em uma hospedaria. Caminharam na areia, divertiram-se na praia. Depois, acharam uma casinha agradável na subida de uma montanha, um local pacato e perfeito para trabalhar. Jana montou seu atelier de costura, onde os cavaletes e telas de Amelie tinham um canto reservado.
Com o tempo, muitas mulheres passaram a procurá-las. Jana virou uma famosa modista e Amelie tinha telas expostas em galerias por várias cidades, fizeram economia e pensavam em conhecer Paris e outros lugares.
Jana abraçou Amelie enquanto ambas observavam aquela imensa pintura pendurada no atelier.
— Amelie, sinto como se andasse pelas ruas do ducado. O que vai fazer dessa tela?
— Vender, é a primeira a qual dou um nome. Se chama Um lugar quase infeliz.
Jana sorriu. Estava na hora de fechar as janelas, colocar o vinho sobre a mesa. Hora de parar de fingir e poder desfrutar de quem realmente eram. Hora de fazer amor com Amelie, um fogo que, depois de dez anos, ainda não havia se apagado.
Que toda a infelicidade e a tristeza da vida ficassem presas naquela tela ou naquele ducado, porque ali, nas montanhas com vista para o mar, todas as noites, eram sinônimo de liberdade.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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