Uma lúgubre Milonga
Em uma noite embalada pela milonga, um encontro inesperado transforma um simples baile em uma história que desafia a própria morte.
7/22/20264 min read

Cachoeira do Sul - Setembro de 2023
O fandango de encerramento da Semana Farroupilha precisou ser transferido para o Ginásio da Fenarroz. Tanta gente comprou ingresso que nenhum CTG comportaria a quantidade de prendas e peões preparados e animados para bailar ao som de Os Mateadores.
Tanta gente.
A ambulância do Samu saiu em disparada pela rua Conde de Porto Alegre, quase na hora em que a fila de carros começava a se formar no principal portão de acesso. Alguns vizinhos saíram para frente de suas casas com olhar assustado. Outros, carregavam baldes com água e se punham a esfregar a calçada. Era quase meia noite.
Táxis e carros de aplicativos largavam os gaúchos e prendas em frente ao portão. Os homens metiam as mãos nos bolsos das bombachas para conferir se traziam os pilas do trago, as mulheres nas pequenas bolsas estavam à procura de ingressos e gloss labial.
Tanta gente. Se alguém viu, não reparou.
Amanda não tinha boas lembranças dos bailes dos Mateadores. Lembrava-se de um fiasco anos antes, em um CTG quando uma prenda pediu que a banda mandasse os homens saírem da copa e tirarem as mulheres para dançar. E para sua tristeza, o recado, de nada havia adiantado. Estava cada vez mais difícil arrumar companhia para dançar. Tinha se emperiquitado, estava feliz na nova saia azul-caribe, mas não sabia se aquela seria mais uma noite em pé, parada, olhando casais felizes deslizarem pela pista de dança.
O fandango estava lotado. Amanda foi acompanhada de um casal de amigos. Mal os gaiteiros tinham aberto as gaitas e a sala já enchia. Ela viu um rapaz andando calmamente em sua direção, mas não acreditou que poderia ser tirada para dançar, nunca fora, assim, de vereda. Chegou a olhar para trás quando ele parou na sua frente e lhe estendeu a mão. Mas era com ela e fora ensinada desde cedo a não dar carão. Lembrava da mãe dizendo que nos bailes de interior os gaúchos pegavam uma maçaroca de capim e punham dos pés da prenda deseducada que lhes negara uma dança. Feliz, Amanda foi para a pista.
A dupla acertou o passo de cara. Logo, a saia azul esvoaçava pelo salão em voltas animadas e a prenda dentro dela sorria. Na quarta vaneira Amanda queria saber o nome do seu par; no xote queria convidar o moço para o churrasco da família no dia seguinte; depois dos chamamés queria logo lhe pedir em casamento.
Ele era quieto, limitou-se a dizer que se chamava Mateus, ela disse seu nome, mas nem sabia ao certo se ele havia perguntado. Seu hálito não cheirava a cerveja e ele não suava. Amanda já não sabia há quanto tempo estavam dançando, ela sentia os pés latejarem dentro da sapatilha, mas ele seguia inabalável. Suas mãos estavam geladas.
Amanda ia pedir para fazer uma pausa, queria lhe apresentar para seus amigos, tomar uma água e voltar para a pista até clarear o dia, mas escutou dos violões a batida inconfundível de uma milonga. Mateus pareceu ler seus pensamentos, chegou um pouquinho mais para frente, ela aninhou-se no seu peito viril e dançaram para frente e para trás, sem errar um passo.
Acomodada no peito de Mateus, sentindo o aperto firme de sua mão e a forma sutil como lhe conduzia habilidosamente, Amanda via sua curiosidade aumentar mais e mais. Fitava aqueles olhos azuis de baixo para cima, olhava a boca delineada e pensava se era possível apaixonar-se assim, por um completo estranho e de tão poucas palavras.
Ela fechou os olhos quando Mateus começou a sussurrar os versos da música em seu ouvido. A milonga logo se acabou. Mateus fez Amanda dar um giro e lhe concedeu o cumprimento tradicional dos peões. Enquanto o gaiteiro iniciava mais uma vaneira, ele atravessou com ela aquele mar de gente de pilcha, acompanhando-a até exatamente o lugar onde havia lhe tirado para dançar mais cedo.
— Onde é que tu tava? — Priscila perguntou.
Amanda sorriu animada, queria lhe apresentar Mateus. Mas quando se virou para trás ele não estava mais lá. Amanda olhou entre toda aquela peonada, ficou na ponta do pé, mudou de lugar, mas não teve nenhum vislumbre dele. Uma sensação de tristeza tomou conta de si e ela soube que jamais o veria novamente. Aquele baile até parecia um sonho, mas seu ouvido ainda estava quente do hálito de Mateus entoando uma melodia clássica do Grupo Rodeio:
“A solidão, irmã gêmea da saudade...”.
Amanda não dançou mais, nem quis. Passou o restante da noite olhando para a pista de dança a procura do seu peão. Sua decepção era tanta que Priscila e o namorado foram obrigados a encerrar a noite mais cedo e levá-la para casa.
— Ele nem me deu tchau — ela dizia como um murmúrio lamurioso.
Não dormiu. Queria passar a noite pitando e tomando trago, como não fumava e nem bebia, restringiu-se aos tristes pensamentos.
Quando o dia clareou, ela notou a sujeira na barra da saia, parecia manchada. Aproximou-se para analisar se teria compostura, parecia sangue, parecia que Amanda havia pisado em uma poça de sangue. Colocou a saia de molho e cevou um chimarrão.
Estava decidida a vasculhar a internet em busca de todos os Mateus do Rio Grande do Sul e nem foi preciso procurar. Assim que abriu o Facebook, o perfil do Jornal do Povo estampava uma triste notícia:
“Jovem é morto a facadas na entrada do Fandango”. Havia uma foto do seu belo peão e abaixo dizia: “Tentativa de assalto ceifou a vida de Mateus”.
Amanda começou a chorar. Pensou na ambulância do Samu que vira subindo a rua, pensou nas pessoas com caras de assustadas em frente à Fenarroz, pensou no chão escuro onde desceu do carro.
Achou que devia ir ao velório, mas não teve coragem.
Dias depois, caminhou até o Cemitério Municipal e localizou o túmulo, com a ajuda dos trabalhadores do local. Deixou flores e chorou a morte do rapaz que ela jamais conheceu vivo. Depois agradeceu a ele pelo prazer daquelas danças e pediu que não voltasse mais a assombrá-la. Mateus pareceu obedecer.
Amanda nunca falou nada disso para ninguém, sabia que não haveria quem acreditasse. Evitou pensar em Mateus e não foi a bailes por muito tempo.
Cachoeira do Sul - Setembro de 2024
Amanda usava uma saia vermelha. O Fandango era no Arrozão, desta vez quem embalaria eram Os Serranos.
Estava parada, olhando seus amigos dançarem quando sentiu a mão fria tocar na sua, a voz melodiosa sussurrou em seu ouvido:
— Me concede esta dança?
Ela virou-se para ver o brilho daqueles olhos azuis.
Tinha aprendido desde cedo a não dar carão.
Gisele Wommer
O terror nunca acaba.
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