Vítima da Besta 666

Um túmulo real, um cemitério silencioso e sucessivos relatos de aparições levam um policial a investigar sozinho um dos mais enigmáticos mistérios da cidade.

8/1/20265 min read

Nathan não sabia que aquela seria a sua rotina quando realizou o sonho de entrar para a polícia de Salt Lake City, em Utah nos Estados Unidos. Noite após noite de serviço, o jovem policial e sua parceira eram mandados ao cemitério.

Um grupo de jovens costumava a reunir-se ao redor de uma determinada lápide. Vezes eram poucos, vezes eram muitos. Normalmente eles saíam correndo logo que as luzes vermelhas e azuis indicavam a chegada da polícia. Mas a cada dia, as coisas ficavam mais sinistras.

Em uma manhã os policiais acompanhavam o trabalho da perícia e a limpeza que os coveiros promoviam no local. Seguidamente encontravam sangue de animais nas imediações do túmulo, mas naquele dia, havia ali uma mão humana.

— Quem é essa mulher, afinal? — perguntou Nathan à parceira.

— Não sabe? — Lora respondeu — Seria estranho se soubesse, afinal ninguém sabe.

Lily E. Gray faleceu em 1958, aos 76 anos. Porque sua lápide afirmava que ela fora vítima da Besta 666 era um mistério de décadas em Utah. E atraía pessoas: curiosos, religiosos, satanistas. Nas noites de lua cheia dificilmente o cemitério não era invadido para rituais ao redor do túmulo, que estavam ficando cada vez mais sinistros e violentos.

Muitas teorias sugeriam o que poderia ter acontecido à Lily Gray, mas por mais que a história do local fosse revirada, ninguém podia provar nada. Ano após ano, mais pessoas se perguntavam: como viveu aquela mulher e principalmente, como morreu? Seu túmulo começou a chamar atenção e o cemitério virou palco de mistérios e coisas mais macabras do que simples moradas de mortos. Nathan era natural daquela cidade, mas nunca tinha ouvido falar naquilo até que se tornou sua rotina noturna.

Com o passar dos dias, Nathan começou a sentir que o sonho de ser policial desmoronava. Ele odiava a chegada das noites, odiava ir aquele cemitério, sentia que algo muito errado estava acontecendo ali. Já tinha calafrios ao entrar e pesadelos quando estava longe, como se algo o chamasse, o desafiasse a estar com aquelas imagens sombrias sempre em sua memória. Nathan não se reconhecia mais. Em pouco tempo estava melancólico, deprimido.

As noites em que ele e Lora eram chamados para o local haviam se tornado o seu maior tormento. A presença de jovens ao redor da lápide de Lily E. Gray se multiplicava. Ao longe eles ouviam rock, uma música boa, no túmulo encontravam guimbas de cigarro, garrafas vazias das mais variadas bebidas, parecia que os jovens eram chamados para uma festa, não um ritual.

Certa noite, Nathan decidiu ir sozinho ao cemitério, antes da polícia ser chamada, para investigar o que estava acontecendo. Ele se escondeu atrás de uma árvore e observou enquanto os membros do suposto culto não-oficial começaram a fazer seu ritual.

O céu estava escuro como breu, e a luz da lua cheia era a única coisa que iluminava a cena. No início só tinha música, risadas, bebidas. Lily E. Gray era a morta que mais recebia visitas, não teriam ciúmes os demais? Logo Nathan se encolheu quando viu, um homem alto e magro vestindo uma túnica negra, que adentrou ao cemitério seguido de uma jovem pequena, que segurava velas vermelhas acesas. Ele falou em uma língua estranha, então sacou um punhal estilizado, em forma de meia lua, e começou a fazer cortes em seu próprio braço.

Os outros membros do culto se aproximaram, e lamberam o sangue que escorria da ferida aberta, em uma espécie de frenesi. Enquanto os jovens se distraíam, a garota das velas vermelhas andava por trás da pequena multidão, com uma seringa na mão.

Nathan não podia acreditar no que estava vendo. Alguém seria dopado, e se outro pedaço de corpo aparecesse sobre o túmulo? Ele ficou com pena daqueles jovens tolos que nem sabiam do perigo que estavam correndo.

Decidiu agir rápido e pensar depois. Correu em direção aos cultistas, mas antes que pudesse chegar perto o suficiente, sentiu alguma coisa pesada bater em sua cabeça, ouviu o baque surdo, como se algo se quebrasse e tudo ficou escuro.

Quando Nathan acordou, estava amarrado em uma mesa de sacrifícios, cercado pelo homem de roupas negras e a garota das velas. Ele tentou lutar, mas seus esforços foram em vão. O líder do culto se aproximou e disse a Nathan que ele seria o próximo sacrifício para a Besta 666. Ele precisava de sangue, de órgãos e de uma alma, tudo que Nathan poderia lhe oferecer.

Nathan fechou os olhos e rezou para que alguém viesse salvá-lo. Lutou com todas as suas forças para se soltar, mas as cordas que o mantinham preso eram muito fortes. Estava bem amarrado, o que indicava que não era a primeira vez que seu algoz fazia tal prática.

Ele olhou ao redor, tentando encontrar uma forma de escapar, mas tudo o que viu foram objetos estranhos, o cheiro de mofo e as cruzes ao redor indicavam que ele estava em um jazigo. O líder do culto começou a cantar em voz alta.

Nathan podia sentir o medo tomando conta de seu corpo, que reagia em doloridos e descontrolados espasmos.

Repentinamente um estrondo alto ecoou pelo jazigo. O aríete rompeu o cadeado da porta antiga de ferro fundido e a luz de várias lanternas iluminou o lugar. Era a polícia de Salt Lake City, finalmente chegando para deter os cultistas.

Os membros do culto não reagiram, para a surpresa de todos, choraram enquanto eram algemados pelos policiais.

Nathan foi solto das cordas e se levantou, ainda tremelicando. Ao passar pelo túmulo de Lily E. Gray, viu algo estranho acontecendo. A lápide começou a brilhar em um tom avermelhado, estranhos raios de luz formavam o espectro de uma mulher. Nathan optou por acreditar que era sua mente cansada e em choque, gritando que era hora de sair dali.

Os dias seguintes foram preenchidos com a investigação do culto e seus membros. Um jovem que estava na espreita acertara a cabeça do policial, mas o entregou ao líder do culto, por não saber o que fazer. Nathan e Lora descobriram que os dois responsáveis pelos rituais eram irmãos: Tony e Jeanna Gray, netos de Lily E. Gray. Eles diziam que a mãe estava em estado terminal em um hospital desde que participou de um ritual para entender a morte misteriosa da velha Lily. Ambos acreditavam que a única maneira de salvá-la era invocar Baphomet, seguindo instruções que ela mesma deixou antes do ritual, caso algo desse errado. A entidade libertaria a alma da mãe, presa em algum lugar sombrio e devolveria o equilíbrio ao cemitério e por sua vez à cidade. Tony afirmava que Nathan seria o último sacrifício e que atraía jovens até ali com a promessa de festas macabras, mas que nem gostava daquilo, fazia unicamente para salvar a mãe e entender o que tinha acontecido com a avó.

Tudo parecia absurdo, a dupla de irmãos foi para a cadeia. No dia seguinte os jornais noticiariam a morte de Bert Donna Gray, ocorrida em um hospital local, a causa não foi divulgada.

Nathan nunca esqueceu aquela noite no cemitério, e teve a sensação de que algo muito maior estava acontecendo. No fim, a morte de Lily E. Gray e sua lápide continuavam sendo mistério, e agora sua única filha unira-se a ela. O túmulo estava cada vez mais procurado, os boatos macabros nunca tiveram tanta força. Nathan continuou trabalhando como policial, agora com a certeza de que o mal podia estar em qualquer lugar e qualquer hora, a Besta 666 ainda procuraria por ele, nesta vida, ou na próxima.